29 Setembro, 2007


AS CASAS JAPONESAS


Fusuma, shoji, tatami...



As casas tradicionais japonesas eram comumente construídas em madeira. Por um lado, abundava a madeira de boa qualidade e, por outro, o recurso a ela permitia uma melhor ventilação e penetração da luz, o que convinha ao tipo de clima japonês. O problema era a susceptibilidade ao fogo, mas os edifícios em madeira compensavam com a sua resistência aos terramotos, tão frequentes no Japão, e por serem de fácil construção e demolição. O famoso Horyuji, uma estrutura de madeira do séc. VII, ainda resiste, o que demonstra a excelência da madeira como material de construção.
A partir do século passado, o número de casas de cimento aumentou, mas um toque de madeira é algo de que os japoneses são incapazes de prescindir. A maior parte dos interiores das casas de cimento continua a ser de madeira, nem que se trate apenas de painéis de madeira.
Existem certas partes das casas tradicionais a que podemos chamar paredes, komai-kabe. Consistem em camadas de argila, por si só decorativas e revestidas de finas tábuas de madeira nos locais expostos à chuva. O bambu, que além de belo é extremamente robusto e elástico, está presente nas cercas e nos tectos e serve ainda como suporte para as paredes de argila. São também utilizados como caleiras, beirais de telhado ou canos de água, visto serem ocos por dentro. A pedra, devido aos frequentes tremores de terra, não é utilizada como material de construção, mas surge amiúde como degraus ligando o edifício e o jardim.

Pedras encaminhando-se para a sukiya (casa de chá) de Senkeien, Yokohama.


A preocupação cimeira na construção da habitação japonesa tradicional é a não delimitação rigorosa do espaço interior e exterior:





Procura-se a mais profunda inserção do edifício no espaço circundante, reduzir ao máximo a interferência na natureza. Cercazinhas leves de bambu, portas corrediças, jardins exteriores e interiores…

Cerca de bambu, pedras no caminho, telhado de colmo - a natureza portas adentro.


Os nakaniwa (jardins interiores) estendem em direcção ao exterior os espaços interiores. De modo a impedir a obstrução da luz ou do ar, nos nakaniwa não se podem plantar árvores de grande porte ou em grande número. A escolha das plantas tem de ser cuidadosa. Geralmente, incluem uma lanterna de pedra ou uma bacia de pedra cuja função não é meramente decorativa, se o estilo for puro.



Sukiya (casa de chá) do Daidokuji: shoji velando um nakaniwa (jardim interior) com lanterna e bacia de pedra.


Basta recordarmos as casas árabes, rodeadas de muros altos e espessos, abrindo-se apenas para o seu próprio interior, resguardando-se do exterior, para se perceber o modo diverso dos japoneses verem o mundo e nele habitarem. A privacidade, no Japão, não é conseguida através da construção de muros, de portas com fechaduras, de janelas com vidro e persianas. É conseguida através de um comportamento formal, do respeito pelo próximo e pelas regras de educação.
A parte de uma construção japonesa que mais chama a atenção é, sem dúvida, o telhado, ou os múltiplos telhados. Bem característica é a convivência de vários estilos de telhado (hisashi) no mesmo edifício. Seja qual for o tipo de telhado - kiri-zuma, yose-mune, iri-moya - apresentam beirais baixos e longos, de modo a resguardar as habitações das grandes chuvadas. A possibilidade de utilizar vários telhados diferentes facilita também a adição de novas assoalhadas.



Os telhados costumavam ser de palha e de caules de planta até à Idade Média, quando começaram a ser também utilizados o cipreste e o cedro, técnica ainda hoje visível em templos e casas rurais. Por volta do séc. VI d.C., a arquitectura budista – proveniente da China – trouxe consigo as telhas, mas passaram-se milénios até serem utilizadas em residências. Seja como for, a área ocupada pelos telhados é imensa e reina sempre uma sombra densa sob o alpendre. Como notou Junichiro Tanizaki, o grande escritor japonês: “Se o telhado japonês é um guarda-sol, o ocidental é apenas um chapelinho. Melhor, como num boné, os rebordos estão reduzidos a tão pouca coisa que os raios directos do sol podem incidir nas paredes até ao nível do telhado.” Ainda por cima, além do longo telhado, a existência de um grande beiral e de uma varanda, já para não falar do filtro dos shoji (divisórias com aberturas cobertas com papel de arroz) permitem que apenas um pálido reflexo da luz do jardim penetre no interior. Tal espelha bem o gosto japonês pela sombra, pelos ambientes velados e a sua profunda repulsa pelo brilho vulgar. A penumbra, ténue e incerta, os japoneses sabem-no bem, tem um encanto subtil e discreto: “Não é que tenhamos uma reserva a priori relativamente a tudo o que brilha, mas, a um brilho superficial e gelado, preferimos sempre os reflexos profundos, um pouco velados.” (Junichiro Tanizaki) Recordemos, a propósito, a diferença entre o papel de arroz, com a sua leve rugosidade, as suas nuances de cor, as suas zonas opacas e o nosso papel, que rebrilha com um branco metálico e sem mácula, como que traindo essa obsessão, tão ocidental e por vezes tão perigosa, pela “pureza”.

Casa camponesa no distrito de Chabu, em estilo tradicional.

A maior diferença entre as casas ocidentais e as japonesas é a concepção das divisões. No Japão dividem-se os espaços com shoji ou fusuma, não existindo fechaduras. Shoji é uma divisória de correr, com uma moldura feita de madeira lacada e coberta com janelas de papel de arroz para deixar a luz entrar, ainda que esteja fechada. Existem também as divisórias fusuma, igualmente de correr, feitas de papel muito espesso emoldurado em madeira. Assim, uma divisória shoji ou fusuma é, a um tempo, arquitectura e decoração. As fusuma, por exemplo, são decoradas com pinturas ou caligrafia.

Em primeiro plano, fusuma; em segundo plano, shoji.


Cada divisão pode funcionar como sala de estar, sala de jantar ou quarto de dormir. E basta remover as shoji ou fusuma para se obter uma divisão maior. A casa japonesa é, pois, multi-funcional e extremamente versátil na sua concepção.
Hoje em dia, a maior parte das casas japonesas apresenta uma mistura de quartos com chão de madeira, tatami ou carpete. No entanto, a tradição japonesa é o revestimento do chão com tatami. Tatami são esteiras feitas de uma camada inferior de palha com cerca de 5 cm de espessura, tendo a superfície coberta com uma folha de junco entrançado. Tatami é fresco no verão e ajuda a manter o calor no inverno. Cada tatami tem cerca de 1,8 metro de comprimento e 90 cm de largura. A área de um tatami chama-se jo e é o jo que se usa para falar do tamanho de uma divisão, ou seja, diz-se “O meu quarto tem 8 jo” ou “O meu quarto tem 8 esteiras (tatami)."

Fusuma à esquerda, shoji à direita e tatami no chão.



Um tokonoma é um elemento essencial da casa tradicional japonesa. Consiste numa pequena alcova decorada com um rolo de pintura e pelo menos um ornamento, como um arranjo de flores ou peça esculpida em madeira. No entanto, a pintura ou ornamento, por mais valiosos, não devem atrair o olhar de forma grosseira, quedando mergulhados nessa parte particularmente sombria de uma divisão japonesa. Precede-o um pilar de madeira, por vezes um tronco escassamente trabalhado e preservado na sua original forma sinuosa.

O tokonoma é a alcova à direita.


Junichiro Tanizaki afirmou: “De cada vez que contemplo um tokonoma, essa obra-prima do requinte, fico maravilhado por constatar até que ponto os japoneses souberam utilizar os jogos de luz e sombra. (…) Numa palavra, sem outro suporte para além de simples madeira e paredes nuas, compôs-se um espaço recatado onde os raios de luz que aí deixamos penetrar produzem, aqui e além, recantos vagamente escurecidos. (…) Experimentamos a sensação de que, nesses locais, o ar encerra uma espessura de silêncio, que uma serenidade eternamente inalterável reina nessa escuridão.”



Tokonoma da Miyokian-taian, sukiya de Sen no Rikyu (o maior mestre do chá de sempre) em Kyoto.


As janelas (mado), para além da sua dimensão propriamente utilitária – ventilação, luminosidade, vigilância do jardim exterior – têm uma enorme importância estética. Existem vários tipos de janelas, cada qual adequado a determinadas divisões ou propósitos. A tako-mado, por exemplo, só se encontra na cozinha ou nas instalações sanitárias. Seja na sala de recepção, seja na entrada, a maru-mado, a janela circular, é sobretudo visível no mais belo exemplo da arquitectura tradicional japonesa: a casa de chá – sukiya – essa “estrutura efémera, construída para abrigar um impulso poético.” (Kakuzo Okakura).


Maru-mado da sukiya do Kodaiji.

Mais uma sukiya com maru-mado.


O espírito que preside à construção da sukiya é o wabi, um conceito estético e filosófico polissémico extremamente complexo e de difícil tradução (já o abordei no primeiro post deste blogue). A beleza triste do Outono é wabi. A solidão, a desolação de uma paisagem são wabi. A simplicidade, a sobriedade, a sombra, a recusa de ostentação, é wabi. O sentimento da melancolia é wabi. Assim, o estilo sukiya revela uma profunda afeição pelos materiais naturais e pela assimetria: ”É um domicílio do assimétrico, na medida em que se consagra à adoração do imperfeito, deixando propositadamente algo inacabado para que seja completado pelo jogo da imaginação.” (Kakuzo Okakura).




A chaleira no chão.




O inconfundível estilo sukiya: a materialização do génio estético nipónico.

A sukiya evoca a natureza, a sua imprevisibilidade, mas mantendo, ao mesmo tempo, a harmonia e o equilíbrio. Desde logo, o portão é assimétrico tanto no seu design como na sua posição. O acesso à casa (roji) é encurvado; no caso de ser rectilíneo, será construído em diagonal, impossibilitando a visão da casa para quem se encontra no portão. Este caminho tem geralmente um aspecto informal, de natureza em bruto e com a presença da pedra. Constitui o primeiro estádio da meditação, a primeira quebra com o mundo profano – a sukiya, na sua arquitectura e no seu propósito, a cerimónia do chá, está intimamente ligada ao budismo zen.



Portão de uma sukiya.


A sukiya - onde “a brandura da idade cai sobre tudo” (Kauzo Okakura) - não deve impressionar de forma óbvia. É menor do que as mais pequenas casas japonesas (no estilo puro, a sua dimensão é de quatro tatami e meio) e os seus materiais devem sugerir pobreza, embora refinada. Foi elaborada, no entanto, com mais cuidado e originou mais despesas do que uma mansão de abastados. Os carpinteiros das sukiya formam uma classe aparte, distinta e honrada, entre os demais artesãos.
As linhas exteriores de uma composição sukiya (uma casa inspirada neste estilo) devem ser rectas e contínuas e as aberturas (geralmente shoji) espaçosas, de modo a unificar o espaço interior e o mundo exterior da natureza em redor. Como protecção contra o sol de verão, penduram-se nessas aberturas estores de tabuinhas de bambu fendidas ou de junco. Também podem pender dos beirais do telhado.

Urakuen-joan. Esta sukiya é um tesouro nacional do Japão.


Por baixo dos telhados, é por vezes construída uma varanda-corredor (espaços simultaneamente exteriores e interiores) com chão revestido de madeira ou bambu, para reforçar a ligação do edifício com o exterior. A sensação dos pés nus a caminhar sobre o chão de madeira no verão é inesquecível: um contacto de uma frescura e, simultaneamente, de uma verdade calorosa como só é possível experimentar na própria natureza.


Corredores-varanda no Shugaku-in, em Kyoto.

Tudo, as cores suaves, a luz moderada, deve inspirar neutralidade e sossego. No interior, não se avista uma única peça de mobiliário. O estilo sukiya é um hino ao vazio. Apenas ocuparão o espaço os seres humanos, essas figuras condenadas à transitoriedade. Esse facto realça a importância da construção e do material utilizado. “A beleza de uma divisão japonesa, produzida unicamente por um jogo sobre o grau de opacidade da sombra, dispensa quaisquer acessórios. O ocidental, vendo isso, fica surpreendido com este despojamento e julga tratar-se apenas de paredes cinzentas desprovidas de qualquer ornamento, interpretação perfeitamente legítima do seu ponto de vista, mas que prova que ele não conseguiu desvendar o enigma da sombra.(…) Para nós, essa claridade numa parede, ou antes, essa penumbra, vale por todos os ornamentos do mundo e vê-la não nos cansa nunca.” (Junichiro Tanizaki).



A cor sukiya.

O brilho, o excesso, a ordem previsível, o óbvio, a exibição, choca o espírito japonês. Sentem-se desconfortáveis nas casas ocidentais, onde reina uma claridade crua, onde há excesso de mobiliário e decoração e onde as peças de metal foram polidas à exaustão e reluzem furiosamente: “…amamos as cores e o lustro de um objecto maculado pelo uso, pela fuligem ou pelas intempéries, ou que o parece estar, e viver num edifício, ou no meio de utensílios que possuem esta qualidade, apazigua-nos curiosamente o coração e acalma-nos os nervos.” (Junichiro Tanizaki).



Bibl: Isabel Quelhas de Lima, A Casa Tradicional Japonesa, Ed. Civilização /Kakuzo Okakura, O Livro do Chá, Cotovia /Junichiro Tanizaki, Elogio da Sombra, Relógio de Água/

Fotografias: Japan: Zoom in Travel/Introducing Japan, Kodansha/Japão, O Império do Sol Nascente, Círculo de Leitores./Pictorial Encyclopedia of Japanese Culture, Gakken.

22 Julho, 2007


O PAÍS DOS MATSURI (FESTIVAIS)



Matsuri em Miyasaki. Foto Asahi Shinbun.



Os japoneses não são considerados um povo especialmente divertido; bem pelo contrário, conhecemos melhor a sua faceta de trabalhadores compulsivos. No entanto, o Japão é provavelmente o país que mais festivais (matsuri) celebra durante o ano. Diz-se até que, seja qual for o dia, decerto haverá um festival em qualquer parte. Em certos dias, a celebração é nacional.
matsuri que envolvem milhares de pessoas e outros que envolvem apenas uma pequenina comunidade; há os que duram dias e os que duram somente horas; há os que acompanham celebrações rurais e os que acompanham celebrações urbanas; há-os solenes e há-os divertidos. Muitos matsuri relacionam-se com o cultivo do arroz porque este constitui a verdadeira fundação da cultura japonesa. Outros honram divindades guardiãs de clãs ou cidades, vilas, distritos. Outros ainda celebram a história ou cultura nacional.


Empoleirada nos ombros do pai, esta menina leva nas mãos feixes de arroz para apelar por uma colheita abundante. Festival Onda-sai, Quioto. Foto de Gorazd Vilhar.


A faceta séria e perfeccionista dos nipónicos, todavia, também se manifesta através dos matsuri. Estes são amiúde trabalhosos e prova de uma extrema exigência estética. Transpiram esforço e, muitas vezes, celebram o esforço. São uma exibição espectacular de cor, símbolos, trajes, antiquíssimos ritos. E são, sobretudo, uma forma de veneração, um encontro feliz do povo japonês com o divino. A palavra matsuri deriva do verbo matsuru, que significa precisamente venerar, adorar.
Originalmente, os matsuri eram uma prática xintoísta, mas acabaram por incorporar ritos ligados ao calendário de origem budista e chinesa. Elementos budistas e xintoístas estão vulgarmente presentes em qualquer um deles. Os matsuri ocupam um lugar de honra na vida dos japoneses e contribuem para a sua forte identidade espiritual. Menosprezando-os, não será possível uma compreensão profunda desse povo. Constituem a ocasião para conseguirem uma comunhão com os seus deuses e espíritos ancestrais; para reconhecerem um passado comum que recua até tempos míticos; para celebrarem a natureza e o renovar incessante das estações, que são excepcionalmente marcadas no seu país; e para, simplesmente, divertirem-se com a família e os vizinhos, reafirmando os laços comuns e providenciando uma pausa no trabalho e na vida regrada do dia-a-dia. O facto de os japoneses conseguirem manter vivas tantas tradições deve-se, em grande parte, a estas celebrações.



Crianças efectuando uma dança ritualizada de agradecimento aos deuses por uma boa colheita. Zuiki Mtasuri, Quito. Foto de Gorazd Vilhar.


O Xintoísmo (shinto, a Via dos Deuses) é visto pelos nipónicos como um modo de vida espiritualmente integrado. A sua origem perde-se na noite dos tempos. O tema central é a veneração pela força da vida, a natureza, e pela deusa Amaterasu Omikami, criadora da natureza e progenitora da linhagem imperial japonesa. É a Grande Divindade Iluminando o Céu, a Deusa do Sol. Os deuses xintoístas, cujo número é imenso, chamam-se kami. São manifestações presentes em todas as coisas, animadas e inanimadas e prevalecentes em todos os aspectos da vida humana. Estão inextrincavelmente ligados à psyche japonesa, de tal maneira que se diz que, sem o Japão, não haveria Xintoísmo e, sem o Xintoísmo, não haveria o Japão. É, portanto, um factor crucial de identidade nacional. O funcionamento do mundo é visto como sendo fruto da cooperação dos kami e dos seus crentes, em prol da harmonia social com a qual os deuses se comprazem.
A hegemonia do Xintoísmo começou por ser tão completa que nem sequer possuía um nome que o designasse. Apenas com a difusão do Budismo (através da China e da Coreia, no séc. VI d.C.) foi necessário baptizá-lo, de modo a diferenciá-lo da doutrina recém-chegada. Após uma rivalidade inicial, depressa o Xintoísmo e o Budismo estabeleceram a base para uma duradoura coexistência pacífica. Os deuses xintoístas são vistos, muitas vezes, como manifestações locais das divindades budistas, em vez de adversários. A linha que divide ambas as doutrinas nem sempre é clara, mas muitas diferenças as separam também. O reino do Xintoísmo é o do ciclo da natureza, das estações do ano e da vida quotidiana; o Budismo, esse, é marcadamente filosófico, com preocupações metafísicas relacionadas com a morte e o que jaz para além dela. O povo serve-se de ambos conforme as ocasiões; por exemplo, preferem os rituais xintoístas para os casamentos e os budistas para os funerais. Mas os grandes actos de adoração em relação aos deuses e divindades são os matsuri, através dos quais o povo lhes faz a oferenda das suas orações, dádivas, reverência e alegria.


Na beira do lago, uma criança efectua a oferenda de uma dança que representa borboletas brincando. Yawata Hachimangu, Quioto. Foto de Gorazd Vilhar.


Os matsuri ligados ao cultivo do arroz celebram-se todo o ano e em todo o país. Variam muito na forma mas estão unidos por uma causa comum: pede-se aos deuses que façam crescer os cereais em abundância e que evitem desastres naturais ou agradece-se uma colheita generosa.
Na Primavera, nos arredores de Nara, precedendo o cultivo do arroz, grupos de miko (donzelas dos santuários sagrados) inauguram o processo da plantação através de uma dança estilizada. A sua virgindade simboliza a fertilidade que é procurada pelos jovens rebentos de arroz. Por um acto de magia mimética, todos os estados de crescimento do arroz são representados ritualmente e elevados à sua plenitude, desse modo solicitando um desenvolvimento igualmente auspicioso para a verdadeira colheita.



Miko com feixes de arroz. Haru Matsuri (Festival da Primavera), Nara. Foto de Gorazd Vilhar.



Durante o Verão japonês, chuvoso e intensamente quente, pede-se aos deuses que protejam não só as sementeiras mas também a saúde dos habitantes. Em Chichibu, no Kawase Matsuri, o espírito da divindade, de ordinário guardada num relicário no Santuário Chichibu, é transferido para um mikoshi (andor, santuário portátil). Após transportá-lo numa parada até ao rio, os carregadores, com grande regozijo, banham-no na água para uma purificação ritual. A divindade retribuirá o favor, quando o dourado Outono trouxer consigo uma abundância de grãos de arroz.
No Outono abundam os matsuri ligados a Inari, a divindade dos grãos. Para o Xintoísmo, de matriz profundamente animista, certos animais são mensageiros dos deuses. Nos ubíquos santuários Inari, esse animal é a raposa branca. Comprovando a observância do sincretismo tão típica dos japoneses, celebra-se no templo budista Hojoji, na prefeitura de Yamaguchi, o festival de Outono Kitsune no Yomeiri (Procissão do Casamento das Raposas). Duas personagens envergando luxuosas indumentárias e usando máscaras de raposa - a noiva e o noivo - são casados ritualmente, de modo a celebrar um antigo milagre, quando um casal de velhas raposas morreu e atingiu o estado de Buda. Em honra da sua vida longa e fiel, jovens mulheres tomam parte na procissão, na esperança de que, desse modo, o seu próprio casamento venha a ser longo e alicerçado na fidelidade. Mas trata-se do país do arroz e a associação do Xintoísmo com as raposas é inescapável. Além disso, existe um pequeno santuário dedicado a Inari no próprio terreno do templo budista. O festival termina com os comuns procedimentos dos rituais xintoístas ligados às colheitas: os participantes rezam por elas e colocam oferendas de arroz novo no altar.




Kitsune no Yomeiri. Foto Asahi Shinbun.




No Inverno, as comunidades agrícolas de todo o Japão começam a praticar ritos primevos para invocar o favor dos deuses em relação ao labor que se avizinha. Em cada mês de Fevereiro, na prefeitura de Aomori, por exemplo, os camponeses de Hachinoche reúnem-se para a dança da fertilidade, pisando a terra coberta de neve, de modo a revificá-la: é o Emburi Matsuri. Os esplêndidos penteados usados pelos dançarinos trazem a imagem pintada de Inari e de Ebisu, o deus da prosperidade.
Nas comunidades piscatórias, implora-se às divindades, através dos matsuri, pescas abundantes. Em Ohara, durante o Hadaka Matsuri (o chamado Festival Nu), os pescadores da área, envergando apenas um fundoshi (tanga) carregam dezoito mikoshi (andores) com divindades até às ondas do oceano.




Hadaka Matsuri. Foto de Gorazd Vilhar.


Um matsuri orientado para a família e celebrado em todo o país no Verão, desde o séc. VII d. C., é o Festival dos Mortos, O-Bon, herdado do calendário budista chinês. Os espíritos dos antepassados são convidados a regressar aos lares numa visita de três dias. Para isso, alumiam-se os caminhos com lanternas ou fogueiras. As famílias reúnem-se para honrar os antepassados. Há danças folclóricas chamadas bon-odori em todas as cidades, vilas e aldeias. As pessoas usam alegres yukata (quimonos leves de Verão).




Bon-odori. Foto de Gorazd Vilhar.


O maior festival é o do Ano Novo. Como os japoneses actuais seguem o calendário ocidental, tem lugar de 1 a 3 de Janeiro, ao contrário do Ano Lunar chinês, que é móvel, podendo calhar em qualquer dia dos finais de Janeiro ou em Fevereiro. Os preparativos começam no final do ano velho. Por volta de 29 de Dezembro, os escritórios do Governo, os negócios privados e as indústrias fecham portas. Segue-se um êxodo gigantesco das pessoas em direcção às suas vilas, aldeias e cidades natais, tornando muito difícil arranjar lugar em qualquer meio de transporte. As casas, entretanto, foram cuidadosamente limpas. À entrada, foram colocados ramos de pinheiro e penduradas cordas sagradas. As refeições tradicionais de Ano Novo foram preparadas. Na véspera do Ano Novo, as famílias comem um tipo de massa de fios compridos e finos, como um desejo simbólico de uma longa vida. À meia-noite, os templos de todo o país fazem soar devagar os sinos 108 vezes, de modo a expiar os 108 desejos perniciosos de que temos de nos livrar para conseguir uma vida plena, segundo o Budismo. Muitas pessoas, no dia seguinte, vão aos templos e santuários rezar por saúde e prosperidade.




Primeira oração de Ano Novo num santuário xintoísta. Muitos visitantes compram papéis da fortuna, como fizeram estas duas raparigas.


As crianças recebem presentes em dinheiro (otoshi-dama), dentro de envelopes tradicionais. Em casa, as famílias regalam-se com a comida tradicional (ozoni) e divertem-se com os jogos de Ano Novo. Um deles é o jogo karuta (do português “carta”), introduzido pelos lusitanos no séc. XVI. As cartas, entretanto, niponizaram-se completamente, sendo decoradas 50 delas com poemas ou provérbios e outras 50 com figuras que os ilustram. O objectivo é conseguir o maior número de pares de cartas cujo dizer e ilustração condigam. Num outro jogo de cartas, Hyaku-nin-isshu, 50 cartas têm um poema completo (obra de poetas famosos do séc. VII ao séc. XII) e uma figura do seu autor. Outras 50 têm apenas o último verso dos mesmos poemas. O objectivo é conseguir achar rapidamente a carta que tem o último verso do poema que um outro participante começou a ler do princípio. Para quem tem um espaço aberto para onde ir, também faz parte da tradição o lançamento de papagaios de papel.




Cartas Hyaku-nin-isshu.


Mas o festival Gion de Quioto, berço da cultura nipónica, é talvez o mais célebre de todos. Teve origem numa súplica dirigida pelo Imperador Seiwa ao kami do Santuário Yasaka, no sentido de fazer parar a devastadora peste do Verão de 869 d.C.. Quando a prece foi ouvida, a cidade organizou um enorme festival de agradecimento ao kami, no qual se destacava um pavilhão com rodas puxado à mão em cujo topo se viam alabardas medievais. Em 970, instituiu-se o festival como um acontecimento anual. Através dos séculos, o Gion Matsuri foi ganhando maior esplendor, com mais pavilhões embelezados de maneira cada vez mais imaginativa e rica. A sua construção é hoje de um refinamento sem par e muitos exibem verdadeiros tesouros e antiguidades, figuras históricas mecanizadas, cenas elaboradas e bandas de músicos que tocam flauta, tambor e shamisen. Acompanham-nos centenas de homens, mulheres e crianças em trajes gloriosos.




Mikoshi no Gion Matsuri. Foto de Philip Gordon.



Bem alto no carro alegórico que lidera a parada, vai o chigo, a Criança Celestial, um rapazinho púbere cuidadosamente seleccionado e santificado ritualmente de modo a ser aceite pela divindade. Ele próprio encarna o kami durante o festival e executa o rito de cortar a corda sagrada que inaugura a procissão, assegurando assim a bênção da divindade sobre a cidade durante o ano que se segue.



O chigo. Foto de Gorazd Vilhar.



Quioto orgulha-se ainda daquele que se diz ser o mais antigo festival do país: o Aoi Matsuri. Durante uma época de grandes cheias no séc.VI d.C., os cidadãos imploraram à deusa da água (Tamayorihimeno Mikoto) e ao seu filho, o deus do trovão (Kamo Wakeikazuchino Kami) que parassem com a sua acção devastadora. Desde então, na Primavera, tem lugar uma procissão onde mãe e filho divinos são conduzidos simbolicamente desde o Palácio Imperial de Quioto até, respectivamente, ao santuário de Shimogamo e de Kamigamo. Ora-se por uma colheita abundante. Por todo o lado se coloca aoi (gengibre selvagem), um lendário detentor de tempestades.




Aoi Matsuri. Foto de Gorazd Vilhar.



O túmulo do xógum da era Edo, Tokugawa Ieyasu, unificador do Japão, encontra-se no famoso e resplandecente Santuário Toshogu, em Nikko. Aí foi Ieyasu deificado e venerado como um kami, como acontece amiúde no país com as personalidades de excepção. Em Maio e Outubro recria-se o cortejo que, em 1617 d.C., levou os seus restos mortais para Nikko. Colocam-se oferendas no altar, executam-se danças xintoístas e há uma exibição de tiro ao arco a cavalo no estilo antigo (yabusame), tudo para agradar às divindades. A parada começa com dignitários a cavalo liderando companhias de samurai e de guardas vestidos a rigor com armaduras e armas. Seguem-se homens carregando falcões ou empunhando estandartes, homens mascarados de leões, de macacos ou de personagens mitológicas, padres xintoístas, miko, pajens e músicos tradicionais. Os espectadores empilhados nos passeios das avenidas sentem então reviver a história ilustre do seu país.



Samurai no cortejo em honra de Tokugawa Ieyasu, em Nikko. Foto de Gorazd Vilhar.



As etapas da vida não são esquecidas. Os festivais dedicados às crianças são famosos. A 15 de Novembro festeja-se o bem-amado festival da infância Shichi-Go-San (Sete-Cinco-Três). Nesse dia, meninos de cinco anos e meninas de sete e de três, trajando quimonos luxuosos, são levados aos santuários xintoístas para serem abençoados pela sua divindade protectora. O Hina-Matsuri (Festival das Bonecas), a 3 de Março, é dedicado à felicidade das meninas pequenas. Exibem-se então em casa bonecas representando figuras da corte imperial.



Hina Matsuri.



A 5 de Maio é o Koi-Matsuri (Festival das Carpas), em honra dos meninos (hoje é considerado o dia de todas as crianças mas, na verdade, ainda está muito orientado apenas para os rapazes). Figuras de samurai são exibidas em casa e carpas feitas de tecido são postas a voar ao vento, atadas a postes ou cordas. Exprime-se assim o desejo de que os meninos se tornem tão vigorosos quanto as carpas, capazes de nadar teimosamente contra a corrente.




Koi-Matsuri.Foto Asahi Shinbun.


Celebram-se festivais em honra do florescimento das sakura (flores de cerejeira), da lua cheia de Outono, do longo sono do vulcão do Monte Fuji… Particularmente interessantes para nós, portugueses, são os festivais que evocam a nossa chegada ao país dos Japões, como o Festival da Espingarda de Tanegashima (Teppo Matsuri), sobre o qual escrevi no artigo "Japão! Japão! A Minha Primeira Viagem ao País do Sol Nascente", o primeiro post deste blogue. Os matsuri são sempre festas que alegram os olhos e os corações. Contudo, para que qualquer deles seja possível, tanto o local como os participantes têm de passar primeiro, isto é, antes de ir em busca de protecção divina, por um ritual de purificação. A divindade é convidada a descer ao local do festival, onde lhe são dirigidas preces. Oferendas generosas – sob a forma de comida e bebida de qualidade, música e dança sagrada ou peças de teatro – devem ser feitas ao longo de todo o festival no santuário dedicado à divindade em questão.




Oferenda de alimentos. Aoi Matsuri, Quioto. Foto de Gorazd Vilhar.


Os elaborados andores (mikoshi) são um dos pontos altos das paradas. Sob o incessante bater dos tambores, é considerado uma honra e um privilégio carregá-los pelas ruas, a despeito do seu peso, muitas vezes tremendo.




Homens carregando um mikoshi no Torigoe Matsuri, Tóquio. Foto Asahi Shinbun.


Partilhar esse peso tem um efeito catártico, provocando uma renovação espiritual tanto nos carregadores como nos espectadores entusiasmados. Nenhuma despesa é demais para venerar os deuses e são usados apenas os melhores materiais na confecção dos mikoshi e das indumentárias cerimoniais, em geral de seda pura.
O nível de qualidade dos festivais japoneses não tem rival em todo o mundo.



Imagens de outros matsuri:


Matsuri emTokushima. Foto Asahi Shinbun.





Caminhando sobre chamas num matsuri em Kumamoto. Foto Asahi Shinbun.




Outro festival em Kumamoto. Foto Asahi Shinbun.



Homens carregando mikoshi num matsuri em Fukuoka. Foto Asahi Shinbun.



Matsuri em Fukuoka. Foto Asahi Shinbun.



Matsuri em Fukuoka. Foto Asahi Shinbun.



Matsuri de Verão em Kita Kyushu. Foto Asahi Shinbun.



Natsu Matsuri (Festival de Verão), Kanagawa. Foto Asahi Shinbun.




Gion Matsuri em Narita, Chiba. Foto Asahi Shinbun.

Festival da Garça em Quioto, no qual se pede aos deuses boa sorte e longevidade.


Em Yamaguchi. Foto Asahi Shinbun.



Neste matsuri em Nagasaki, há uma competição entre bebés para ver quem chora com mais força. Foto Asahi Shinbun.




Bibliografia: Gorazd Vilhar & Charlotte Anderson, Matsuri, World of Japanese Festivals, Shufunotomo Co., Ltd, Tokyo, Japan, 1994.
Pictorial Encyclopedia of Japanes Culture. The Soul and Heritage of Japan, Gakke, Tokyo, 1987.
Shashinki. Matsuri., Asahi Shinbunsha, 1985.


22 Junho, 2007

UMA ESCRITA SINGULAR






O contacto com a China foi decisivo para o desenvolvimento da cultura japonesa. Esse contacto deu-se por volta do ano 400 d.C. Os japoneses depressa perceberam que a China era muito mais poderosa, rica e desenvolvida que o seu país e, como é característico deles, logo trataram de aprender o mais que podiam com o seu gigantesco vizinho. Estudaram a maneira de fazer porcelana, seda, laca, papel e também como planear cidades. Em breve se tornaram verdadeiros mestres nestas matérias. Adoptaram o calendário chinês e os ensinamentos budistas. O Japão enviou inúmeros funcionários e estudiosos à China e recebeu professores, sacerdotes e artífices chineses (e também coreanos), pondo em prática um plano de intercâmbio cultural que duraria cerca de 400 anos.
Uma das mais significativas importações que fizeram da China, através de monges budistas que chegavam da Coreia, foi a da sua escrita. Até então, os japoneses ainda não haviam inventado nenhum tipo de escrita. Resolveram, pois, adoptar os caracteres chineses para fixar a sua língua em papel. Entre a meia centena de escritas que se utilizam actualmente no planeta, apenas subsiste uma de tipo ideográfico que é, precisamente, a antiquíssima escrita chinesa (séc. XIV a.C.), coeva dos hieróglifos egípcios e da escrita cuneiforme dos hititas, há muito desaparecidas. Além disso, conserva, aos olhos ocidentais, a aparência de um enigma impenetrável. Na verdade, é uma escrita humana, tão humana quanto as demais e perfeitamente acessível a qualquer ocidental desejoso de a aprender. Em muitos aspectos, é mais fácil e eficaz do que o alfabeto latino. Por alguma boa razão terá sobrevivido até aos nossos dias.




A língua japonesa, porém, é muitíssimo diferente da chinesa e depressa surgiram problemas. São línguas que nem sequer pertencem à mesma família. A chinesa é um ramo da sino-tibetana, enquanto que a japonesa é a língua do planeta cuja origem é a mais indeterminada e misteriosa (para gáudio dos japoneses, que acreditam ser um povo especial). Parece, no entanto, descender da família das línguas altaicas, que inclui, entre outras, o turco e o mongol, mas também tem parentesco com línguas austronésias, como o polinésio.
A escrita chinesa, por si só, não se adaptava à especificidade da língua japonesa. Esta não podia ser redigida apenas com caracteres chineses. Foi esse facto que originou uma das mais singulares e complexas escritas existentes, porque combina nada menos do que caracteres chineses (a que os japoneses chamam kanji) com dois tipos de silabários (kana), cujos nomes são hiragana e katakana. Assim, ler em japonês requer a habilidade de nos movermos entre pelo menos três sistemas de escrita e essa é uma das razões que torna a tarefa tão interessante.
Quando as crianças entram na escola, assim como os estrangeiros que se iniciam na língua, começam por aprender os dois kana, cada um com 46 sílabas representativas dos sons básicos da língua japonesa. Ei-los:

Hiragana:



Katakana:







Mas depressa as crianças são introduzidas nos kanji, pois torna-se extremamente difícil compreender um texto japonês redigido apenas com kana ou em romaji (alfabeto latino). Sem os caracteres chineses, instaura-se a ininteligibilidade, porque o japonês (neste caso, assemelha-se ao chinês) é uma língua foneticamente bastante pobre (daí a grande dificuldade dos nipónicos em aprender línguas estrangeiras e, sobretudo, em conseguirem uma pronúncia minimamente compreensível), embora conceptualmente muito rica. Isso significa que imensas palavras são homófonas e só a visão dos caracteres chineses permite perceber a que é que o texto se está a referir. Por isso é que um chinês de Pequim, que fala mandarim, só entende um chinês de Guangdong, que fala o dialecto de Cantão, através da escrita.
Quando importaram a escrita chinesa, os japoneses começaram por fazer dela um uso meramente fonético. Ou seja, escolhiam os caracteres devido à sua pronúncia em chinês e não segundo o seu significado. Imaginemos que o caso se passava connosco, portugueses. Queríamos escrever “leite”. Escolhíamos arbitrariamente um caracter chinês qualquer que se lesse lei, como um que significa “trovão”, e outro que se lesse te ,como o que significa “particular, especial, excepcional”, indiferentes ao seu significado original. Uma frase como “O sapo nada no lago” escrever-se-ia: Outra pessoa poderia escrevê-la, todavia, com outros caracteres chineses que se lessem de modo idêntico:

Os caracteres seriam escolhidos arbitrariamente, tendo em atenção apenas o modo como são lidos em chinês. Ambas as frases, pois, não têm qualquer significado nessa língua.
É óbvio que este estado de coisas não poderia resultar durante muito tempo, desde logo porque escrever português pressuporia de antemão saber chinês.
Os japoneses passaram então a usar os caracteres ideogramaticamente, isto é, a escolher caracteres chineses consoante o seu significado, mas lendo-os à japonesa (no hipotético caso português: utilizaríamos o caracter chinês que significa “leite” - em chinês, nai - mas lê-lo-íamos na nossa língua mãe). No entanto, o antigo sistema nunca desapareceu por completo e isso é antes de mais perceptível nos nomes e sobrenomes e em palavras japonesas que não têm equivalente em chinês. E se um certo caracter foi importado para o Japão em diferentes períodos de tempo ou provindo de regiões da China com dialectos específicos, poderá estar associado a uma série de leituras possíveis. Por exemplo, o caracter pode ser lido de quatro maneiras diferentes: a leitura em japonês e três diferentes leituras importadas do chinês.
É que uma consequência da adopção dos caracteres chineses pelos japoneses foi a de que a maior parte deles podem ser lidos de, pelo menos, duas maneiras diferentes: segundo a pronúncia chinesa (on yomi) e segundo a correspondente palavra japonesa nativa (kun yomi). Por exemplo, o caracter que significa “coração” e “mente”, lê-se xin em chinês. Em japonês, pode ler-se shin (adaptação da pronúncia chinesa, geralmente usada quando está associado a outro caracter, numa palavra composta) ou kokoro, a palavra japonesa nativa.
No final do sexto ano, uma criança japonesa deverá ter memorizado 1006 kanji. Até ao nono ano, deverá ter acrescentado mais 939 a essa lista, perfazendo um total de 1945 kanji, o suficiente para a vida do dia-a-dia.
Na imprensa escrita, utilizam-se cerca de 4000 caracteres – metade dos quais assaz frequentes – embora existam muitíssimos mais (em 1716, o imperador chinês Kangxi mandou elaborar um dicionário que apresentava 47 073 caracteres em nada menos do que 42 volumes).

Magnum Photos

Os caracteres não são tão difíceis de aprender quanto aparentam. O necessário é ser metódico nessa aprendizagem, um pouco à maneira da matemática. Há que praticar a escrita. Uma das suas vantagens é a de que não se lêem, antes vêem-se. Chineses e japoneses levam menos tempo a ler um jornal do que um ocidental (também não levam mais tempo a elaborá-lo), precisamente devido a esse facto. Basta uma breve olhadela pelos caracteres e ficam logo a saber o conteúdo da notícia. Quando olhamos para o sinal de “Stop” ou de “Curva e contracurva”, não precisamos de ler nada, de juntar letras nenhumas. Olhamos e, de imediato, deciframos o significado. Aliás, estamos cada vez mais mergulhados em sinais que sabemos decifrar: sinais de trânsito, de tratamento da roupa, simbologia desportiva, etc. São às centenas e deixaram de nos parecer misteriosos. O mesmo acontece com os kanji, que são como que emblemas de todas as coisas do mundo. Se a gramática, a estrutura interna e os conceitos de todas as línguas fossem idênticos, não haveria escrita que fosse tão boa candidata a ser adoptada universalmente quanto a chinesa. Cada povo leria os caracteres consoante a sua língua, mas significariam o mesmo para todos. Assim, qualquer povo olharia para o mesmo caracter e os chineses leriam mao, os japoneses neko, os portugueses gato, os franceses chat, os ingleses cat, etc. E o emprego de tradutor de textos desapareceria da face do planeta.




Há ideogramas simples, que representam directamente um objecto ou conceito. Exemplos:



árvore sol
lua pessoa


Outros são mais complexos, formados por diferentes elementos. Na maioria dos casos, porém, um destes elementos – chamado radical – dá a chave do significado do caracter, enquanto que outra parte dá uma pista quanto à pronúncia. Por exemplo, o caracter da palavra chinesa ma, “mãe”, é composto por cavalo, ma, que lhe dá a fonética e pelo radical , mulher, que sugere o significado.
Foi elaborada uma lista de 214 radicais, que foi utilizada no referido Grande Dicionário do Imperador Kangxi. Exemplificando: existe o radical de “madeira” ou “árvore”, que está presente nos caracteres que designam nomes de árvores ou objectos geralmente feitos de madeira, como mesa ou cadeira; o radical de “coração/mente” está presente nos caracteres que designam sentimentos, pensamento, imaginação, etc.



Atenção, nem sempre é fácil reconhecer a afinidade entre o desenho do caracter e o seu significado mas isso assemelha-se ao que sucede nas nossas línguas ocidentais: se não nos foi ensinado, não tomamos consciência de que a palavra “companheiro” significa “aquele com quem se partilha o pão” ou de que “caligrafia” significa “bela escrita”.
Todos os caracteres têm um significado mas isso não implica que não haja palavras que se escrevam com mais do que um caracter (mais do que três, em não se tratando de uma transcrição fonética, é bastante raro). De facto, muitas palavras são formadas por dois caracteres cujo significado se assemelha ou se complementa. Por exemplo, “paz”, heiwa em japonês: hei significa calma, tranquilidade, e wa significa harmonoso, pacífico. É engraçado notar que, em chinês, a palavra “paz” (heping), se escreve com os mesmos caracteres, mas na ordem inversa.
Até aos anos 50 do séc. XX, a maioria dos caracteres chineses usados na China e no Japão eram iguais. Mas o Governo chinês decidiu então estabelecer uma lista oficial de simplificações que afectavam os caracteres chineses mais complicados (por exemplo, com 20 traços ou mais) ou mais utilizados. Tal medida teve boas e más consequências: por um lado, a escrita ganhou em rapidez e facilidade, tornando o combate contra o analfabetismo mais eficaz; por outro lado, os estudantes passaram a ter de aprender tanto os novos como os velhos caracteres, se quisessem aprofundar textos anteriores à reforma. Além disso, muitos caracteres perderam a informação que continham, o que é bastante grave. Por exemplo, ài, “amor”, “amar”, incorporava o caracter de “coração”, como acontece com outros caracteres ligados à área dos sentimentos. Com a reforma, o “coração” foi retirado e ficou-se pela “amizade”, yóu . O caracter mai, "comprar", foi completamente desvirtuado. Como é usual nos caracteres que pertencem à área semântica das transacções económicas, incorporava até então o radical bei, “concha”, pois, na antiguidade, a primeira moeda dos chineses foram precisamente as conchas. Após a reforma, ganhou um aspecto completamente diferente e falho de riqueza interior: .



Por fim, a escrita actual perdeu muita da beleza da antiga, num país onde a caligrafia é, tradicionalmente, a arte cimeira. No Japão, todavia, conservou-se quase sempre a forma antiga dos caracteres e "amar" escreve-se com o “coração” e “comprar” com o radical de “concha”. Mas há caracteres que se foram simplificando no Japão, quando o mesmo não aconteceu na China, como o caracter que significa “preto”:



A mais importante inovação na escrita japonesa, aquela que lhe outorga o seu aspecto único, foi a introdução dos kana. O célebre Manyoshu, a primeira e mais venerada colectânea de poesia japonesa, do séc. VIII d.C,. foi um marco na história da escrita daquele país. Lançou-se ali a base das regras formais para redigir sílabas em kana, tornando a escrita muito mais estável.
Primeiro, durante o período Heian, surgiu o hiragana, invenção do monge budista Kobo Daishi, que estudara sânscrito (um alfabeto fonético) na Índia. O hiragana libertou os japoneses da obrigação de conhecer os caracteres chineses para escreverem na sua própria língua. Era inicialmente conhecido como onna-de, ou escrita feminina. Às mulheres, a quem a via do estudo não estava reservada, vedava-se o acesso ao complexo domínio dos kanji. Foi, pois, em hiragana que grandes escritoras como Murasaki Shikibu (autora de Genji Monogatari, “A História de Genji”) e Sei Shonagon, (autora d’ “O Livro da Alcova”) ambas dos sécs. X - XI d.C., compuseram aquelas obras-primas da literatura japonesa.
A partir do período Heian, passaram a usar-se kanji para substantivos, adjectivos, verbos e advérbios e hiragana para diversas partículas, terminações gramaticais e palavras sem kanji correspondentes ou que deixaram de ser escritas em kanji. Devido ao modo como, em japonês, os verbos e adjectivos são conjugados, não é possível usar apenas kanji para exprimir o tempo e o modo (na língua chinesa não havia esse problema, pois a expressão da variação no tempo - presente, passado, futuro, etc. - não implica qualquer mudança no verbo). Por essa razão, são usados hiragana como sufixos para os kanji, de maneira a mostrar as conjugações de verbos e adjectivos. Assim, kau (comprar) escreve-se , kaimasu (compro) escreve-se , kaimashita (comprei) escreve-se e kaimashou (compremos) escreve-se . O kanji que significa "comprar" em chinês, mai, mantém-se, é lido segundo a pronúncia japonesa, ka, mas as terminações – escritas em hiragana – diferem. Quando o hiragana é assim utilizado chama-se okurigana. O hiragana também pode aparecer por cima dos kanji (ou ao lado) para indicar a maneira correcta de ler um caracter e, nesse contexto, toma o nome de furigana. Um sobrenome muito comum no Japão é ,(à letra, “pequeno rio”, “ribeiro”) e pode ser lido Okawa ou Ogawa. No cartão de apresentação de alguém com tal sobrenome, é natural que surjam furigana a indicar a maneira correcta de o pronunciar. Neste caso, os furigana indicam dever ler-se Okawa.
Para uma melhor compreensão de como funciona o japonês, exemplifiquemos de novo com o hipotético caso português. Substituamos, apenas, o hiragana pelo nosso alfabeto latino, conservando a importação dos caracteres chineses, mas lendo-os à portuguesa. A escrita de comprar, compro, comprei e compremos assemelhar-se-ia a isto:






Os katakana, igualmente inventados por monges budistas, empregam-se para transcrever palavras ou nomes ocidentais, onomatopeias (nas quais a língua japonesa é riquíssima) e, ultimamente, para os nomes de animais e plantas. Também se usam quando se pretende realçar uma palavra numa frase. Komi – lixo – é muitas vezes escrito em katagana na frase “Por favor, deite aqui o lixo”.
Tanto o hiragana como o katakana evoluíram da escrita de kanji e foram criados no séc. X d. C. Os hiragana são simplificações extremas de alguns kanji, sobretudo quando redigidos em caligrafia cursiva, daí o seu aspecto elegante e curvilíneo. Os katakana são segmentos extraídos de vários kanji. Exemplo:


- evolução da sílaba re (lê-se com em ma) em hiragana: à direita, o caracter chinês de que derivou; no centro, o mesmo caracter em caligrafia cursiva; à esquerda, a sua forma.


- origem da sílaba re em katakana: à direita, o mesmo caracter chinês; ao centro, a parte do caracter que foi isolada; à esquerda, a sua forma.





O alfabeto latino (romaji) também começou a surgir amiúde em textos japoneses após a era Tokugawa (1603-1868) e é usado para palavras importadas como CD ou DVD e também para marcas criadas por japoneses como SONY, HONDA, HITACHI ou TOYOTA. Quanto aos números, usam-se tanto os caracteres chineses quanto os algarismos árabes, com predominância destes últimos.
Tradicionalmente, tal como o chinês, o japonês escreve-se de cima para baixo e da direita para a esquerda. Este estilo ainda é o predominante mas o utilizado no ocidente também é muito vulgar. Na imprensa, combinam-se geralmente ambas as direcções.


Um texto japonês: vêem-se kanji, hiragana, katakana, romaji, números árabes e chineses... Os kana emprestam simplicidade gráfica e existem traços curvilíneos provenientes do hiragana.



Um texto chinês: muito maior densidade, visto tratar-se apenas de kanji (hanzi em chinês). Não se encontram traços curvos na caligrafia regular.



Para terminar e como curiosidade, vou ainda referir qual o caracter preferido dos japoneses. Comprovei-o pessoalmente, perguntando a japoneses meus conhecidos qual o seu caracter favorito. Esse caracter é wa, o tal que surge na palavra paz, como se viu acima. De facto, trata-se de um caracter capaz de fornecer a chave para a correcta compreensão da psicologia nipónica.
A suposta capacidade de comunicação telepática entre os japoneses, assim como o chamado milagre económico são, em certa medida, consequências de wa. Comumente, wa significa harmonia, tranquilidade, paz. Também significa Japão. A palavra wafuu significa “estilo japonês”. Como é que isso ocorreu? Na antiguidade, os chineses referiam-se ao Japão como a terra dos wo, (wa em japonês), que significava “baixinhos de ombros redondos”. Os japoneses resolveram então substituir esse caracter por um homófono com significado positivo.

E também começaram a escrever Yamato, o nome original do Japão como . O primeiro caracter significa "grande". Embora lessem esta palavra Yamato, nenhum dos caracteres, de facto, se liam até então dessa maneira; o mais natural seria lê-los daiwa.
É uma simplificação extrema restringir wa ao significado de “harmonia”. Mas é difícil conseguir em poucas palavras uma definição satisfatória. Por exemplo, durante qualquer negociação, o comportamento dos japoneses é invariavelmente reservado e aparenta extrema cautela, abstendo-se de qualquer afirmação peremptória e evitando sempre ir direito ao cerne das questões. No entanto, as decisões (por norma tomadas nos bastidores e levando bastante tempo) não levantarão qualquer celeuma, uma vez apresentadas. Também nunca serão imputadas a alguém. Ninguém e todos são responsáveis, tratou-se sempre de uma decisão de grupo. Agir, para os japoneses, é agir em grupo. Daí que alguns estrangeiros considerem o Japão como “a nação sem rosto”. Esta característica provém de wa. Wa foi o poder por detrás do crescimento económico japonês, uma força de união que parece inquebrável. Os conflitos são ultrapassados, os motivos egoístas sacrificados em prol da vitória de todos – esse é o poder de wa.
Como complemento para as questões aqui abordadas, recomendo a leitura do post “A Arte da Escrita Chinesa e as suas Implicações Pictóricas e Poéticas” no meu blogue Dragon’s Quest em http://www.demandadodragao.blogspot.com/.


26 Maio, 2007


KAZUO DAN: UM JAPONÊS NA PRAIA DE SANTA CRUZ


Um famoso escritor e poeta japonês do período do pós-guerra, Kazuo Dan, viveu um ano e quatro meses na praia de Santa Cruz. Inicialmente, previra ali morar apenas meio ano. Mas adaptou-se tão bem à vida naquela que era, em 1970-71-72, uma rústica aldeia piscatória, que resolveu prolongar a estadia por ainda mais 4 meses. A razão pela qual escolhera a Praia de Santa Cruz como local ideal era porque permitia a mais íntima interacção entre ele próprio e o Céu e a Terra, tudo com o som do mar ao fundo. “Para isso, a Praia de Santa Cruz era perfeita, sem igual. (…) Os raios solares reluziam incansavelmente no alto da minha fronte e, a meus pés, havia sempre o mar a desenhar as suas estampas onduladas”, escreveu.
Embora se vejam muitos turistas, ainda hoje são bastante poucos os japoneses que residem em Portugal. Quanto não seria exótica aquela presença do escritor numa aldeiazita piscatória nos recuados anos 70 do séc.XX! Mas o distinto senhor conquistaria totalmente os descendentes do povo que, num dia de 1543, deu à costa da sua ilha natal, Kyushu, levando consigo uma arma desconhecida que revolucionaria o Japão- o arcabuz.
Quando se mudou para Portugal, contava já cinquenta e oito anos. Com apenas seis, o pequeno Kazuo fora viver com os avós em Yanagawa. Após o traumático divórcio dos pais, três anos depois, passara a morar com o pai em Tochigi. Tornou-se uma criança solitária, cujo coração apenas encontrava consolo, por um lado, nos longos passeios pela natureza, prática que jamais abandonaria e que exerceria amiúde em Santa Cruz; por outro, no contacto com as gentes simples de Yanagawa, durante as frequentes visitas aos avós. O povo de Yanagawa alimentou o carácter intrinsecamente comunicativo e afável do rapaz, o que o habilitou a ser bem sucedido mesmo por entre o povo de uma pequena aldeia de um país tão distante quanto Portugal.

Kazuo Dan ainda jovem, com familiares


Iniciara cedo a sua actividade literária, publicando desde os dezasseis anos no Liceu de Fukuoka. Em 1932, frequentou a Universidade de Tóquio, a mais prestigiada do país. Mas, ao invés de estudar Economia, e embora se tenha formado, passou aqueles anos a ler e a escrever. A sua carreira ficou lançada quando publicou “O Carácter desta Família” na revista Shinjin, que recebeu críticas elogiosas. Decide consagrar-se inteiramente à escrita e torna-se no vencedor do Prémio Noma de 1944.
Mas a sua vida foi sempre aventurosa. Quando o Prémio Nona lhe foi atribuído, encontrava-se na China como correspondente de guerra. Só regressaria ao Japão no final da guerra, casando-se então em Yanagawa com Yosoko-san.

Kazuo Dan com a mulher no Japão

Uma vez estabelecido em Tóquio, de novo é premiado, desta feita com o Prémio Naoki, em 1951. Entre a publicação de romances e poesias, viaja pelo Japão, pela Europa, pelos Estados Unidos, China, URSS, Austrália e Nova Zelândia. Visitou Portugal em 1970 e a sua afinidade com a Praia de Santa Cruz foi de tal ordem que decidiu estabelecer-se lá.
Alugou uma casita abandonada, que considerava o seu palácio e que pode ser visitada na rua que hoje tem o seu nome, Rua Kazuo Dan, nº 6.

A casa de Kazuo Dan em Santa Cruz

Todos os dias percorria os dez quilómetros que distava do penhasco, para aí contemplar a amplidão do oceano. A paz era apenas perturbada durante o verão, quando as praias se enchiam de veraneantes. Mas isso só acontecia de Junho a Setembro. Com o baixar da maré de meados de Setembro, os vinte mil veraneantes desapareciam. Naquele tempo, permaneciam em Santa Cruz durante todo o ano apenas cerca de duzentas pessoas. Todos se conheciam e ninguém fechava à chave a porta de sua casa.
O mar voltava então a ser todo seu: “E, se caminho pela extensa praia de areia branca que se estende ao longo do penhasco, só a minha pista desenha um cinturão duplo sobre ela.” Nadou quase diariamente por entre as ondas do Porto das Vacas até ao início de Dezembro, devido às temperaturas amenas de Portugal.
Em breve, um cão abandonado começou a segui-lo nas suas incursões junto ao mar.

Kazuo Dan com o cãozinho Poli

Além do cão, Kazuo Dan adoptou também um passarinho. Perguntou um dia a um rapazito o nome de uns passarinhos que cantavam de maneira peculiar. O menino capturou e ofereceu-lhe então um desses cantores. Era um pintassilgo. E Kazuo Dan foi com o garoto comprar-lhe uma gaiola.


Kazuo Dan com o rapazito

Pela manhã, dedicava-se às plantas do seu quintal, composto de sementes e flores apanhadas nos campos. Regava-as, adubava-as e polvilhava-as com químicos e cinzas da lareira, desconhecendo muitas vezes os seus nomes. Impressionava-o o florescimento das plantas e flores de Portugal. Tudo florescia com um ímpeto e uma exuberância como ainda não lhe fora dado ver. A própria mulher, quando o visitou, admirou-se com a pujança da natureza portuguesa. Com o seu gosto japonês pelo despojamento, chegava a cansar-se de ver tanta flor: “Há demasiadas flores em Portugal!”
A maior paixão de Kazuo Dan era, no entanto, o pôr-do-sol em Santa Cruz: “O que há de realmente esplêndido lá é o poente.
Sempre que sentia a sua proximidade, deixava de lado o que quer que estivesse a fazer, corria ao penhasco mais próximo e punha-me a gritar, a exemplo do ilustre Kiyomori[1]: “Devolva-mo! Devolva-mo!”
Então, sentia a vibração do sol ardente no meu âmago e via-o desaparecer por entre as ondas.
O reluzir das nuvens logo a seguir era de uma beleza inesquecível.”
Mas não se pense que Kazuo Dan tinha vida de eremita. Na verdade, depressa fez amigos inesquecíveis entre os habitantes. O sobrenome Dan assemelhava-se foneticamente a Dão – por sinal, o seu vinho favorito – e, por essa razão, a sua presença e o seu nome ficavam bem marcados entre os portugueses. Foi graças a Kazuo Dan que o vinho Dão e a Praia de Santa Cruz passaram a ser conhecidos dos japoneses.

Kazuo Dan com os pescadores seus amigos

Quando regressava a casa dos seus passeios junto ao mar, aguardavam-no sempre presentes chorudos: sargos e robalos gigantes do Joaquim e enguias trazidas pelo José. Chegavam a oferecer-lhe trinta enguias e peixes tão grandes que Kazuo Dan não tinha outro remédio senão organizar um pequeno banquete e convidar os habitantes a comê-los com ele. Com o coração pesado, era obrigado, por vezes, a deitar fora o excesso de alimentos cuja proveniência era a inesgotável generosidade das gentes simples de Santa Cruz. Com os robalos ainda vivos do Joaquim, preparava um delicioso sashimi e sopa japonesa e com os sargos do José fazia chazuke. Adorava percebes, que até então desconhecia, mas os amigos forneciam-lhe tantos que acabava por ter de os lançar à lareira. Joaquim e José, porém, tinham o orgulho dos pescadores e levavam-lhe sempre do maior e na maior quantidade que pudessem.


Kazuo Dan oferecendo um jantar aos seus amigos de Santa Cruz

Também o enchiam de fruta. “Não desprezem a fruta portuguesa!”, alertava Kazuo Dan. A doçura das uvas portuguesas fazia as japonesas parecerem desenxabidas. As maçãs enrugadas e pequenas que lhe levou a mãe da Anabela do café da esquina provocaram-lhe a princípio viva desconfiança. Mas quando se atreveu a prová-las “fiquei tão surpreendido com tamanha delícia que quase sufoquei” E escreveu acerca delas: ”O sumo e a polpa daquelas maçãs enrugadas apresentavam-se em perfeita harmonia e pude apreciá-las como se guardasse na boca uma criação divina e perfeita chamada “maçã”."
Kazuo Dan num passeio pela aldeia

As cerejas e os melões de Portugal deixavam-no igualmente extasiado. Mas a mais grata recordação seria a dos amigos da Praia de Santa Cruz.
Ao rumar ao Japão, na véspera do seu 60º aniversário, a 2 de Fevereiro de 1972, ia com a esperança de regressar a Portugal. Por essa época, escreveria:
“Estive cerca de um ano e quatro meses numa aldeia chamada Santa Cruz em Portugal.
Não, tenho a sensação de que a minha casa ainda fica em Santa Cruz e estou temporariamente no Japão para ver o que se tem passado.
Porque as minhas duas empregadas Odete e Carolina estão ansiosas pelo meu regresso; porque deixei um pintassilgo que já se amansou comigo numa gaiola e um cão chamado Poli deve estar a percorrer o caminho entre a praia e a casa, à minha procura.
Não apenas isso. No quintal, os espinafres, os nabos, as couves estão todos à minha espera estendendo as folhas ao sol e o canteiro ao centro deve estar repleto de flores vermelhas, brancas e amarelas, num prelúdio da aproximação da primavera.
E mais, a Anabela do café da esquina, que me iniciou na língua portuguesa, a sua irmã Maria Cármen, a Ana Maria do salão de beleza, a Maria Calada do bar, a Judite Navarro, a escritora… Aliás, não apenas mulheres, mas também o Fernando inválido, o Carlos da taberna, os pescadores Joaquim e José e o Humberto alcoólico… Estão todos à minha espera de braços abertos.
Em toda a minha vida, nunca havia feito amizades tão sinceras e tão intensas como as de lá, no espaço de pouco mais de um ano.”


Kazuo Dan no Café Imperial, com amigos
No entanto, durante uma viagem à Coreia e a Taiwan, sentiu-se mal do fígado. Retirou-se do bulício de Tóquio, procurando refúgio na sua ilha natal, Kyushu. Num dia de Junho de 1975, sentiu uma dor aguda nas costas e foi hospitalizado. Suspeitava já que sofria de cancro, cuja causa terá sido talvez o seu amor pelo vinho. Apressou-se então a finalizar a sua obra. Durante dez dias seguidos, ditou aquele que viria a ser o romance “O Homem das Paixões”, que começara a escrever em Santa Cruz.
Kazuo Dan escrevendo em Santa Cruz

No dia 2 de Janeiro de 1976, Kazuo Dan exalava o último suspiro, sem ter conseguido realizar o seu último desejo: regressar à pequena aldeia portuguesa.
A memória de Kazuo Dan, todavia, seria perpetuada na aldeia: através da iniciativa de um grupo de amigos japoneses do escritor e poeta, liderados por Takao Nakatani, implantou-se um monumento a Kazuo Dan, no lado norte da Capela de Santa Cruz, em 2 de Janeiro de 1992. Na parte posterior do monumento, encontra-se gravado um poema que escrevera sobre o sol poente em Santa Cruz, o haiku [2] de que mais se orgulhava:



Rakujitsu wo
Hirohini yukamu
Umi no hate

Em português:

Belo sol poente!
Ah! Pudesse eu ir buscar-te
Lá, ao fim do mar!

A palavra rakujitsu, sol poente, está associada ao outono e simboliza também a decadência, a vida que se esvai e que o poeta desejaria deter.


Na base do monumento pode ler-se ainda:
“Homenagem a Kazuo Dan
Kazuo Dan foi um dos mais populares escritores do Japão do pós-guerra. Possuidor de uma rara sensibilidade literária, Dan viveu uma vida cheia de aventuras, tendo percorrido todo o mundo.
Este poema “Poente”, que ele adorava, foi escrito aqui em Santa Cruz, onde viveu e criou íntimos laços de amizade com os habitantes da aldeia. Logo após ter regressado ao Japão, adoeceu. Em 1976, aos sessenta e três anos, este poeta errante encerrava o seu ciclo de vida, sem cumprir o seu sonho de regressar a Santa Cruz.
Em cumprimento do seu desejo, construímos aqui este monumento, a fim de aprofundar as relações de amizade entre Portugal e o Japão.

2 de Janeiro de 1992.

Representante dos amigos: Takao Nakatani.”

Inacreditavelmente, não existe um único livro deste escritor e amigo de Portugal na nossa língua. Que melhor homenagem lhe poderiam prestar do que tornar acessível a sua obra aos portugueses?


Obras de Kazuo Dan


[1] Taira no Kiyomori, general do Período Heian tardio – séc. XII d.C. - que estabeleceu o primeiro governo administrativo dominado pela classe samurai.
[2] Poema de três versos de, respectivamente, cinco, sete e cinco sílabas e que inclui sempre uma palavra de referência às estações do ano.


Bibliografia: brochura "O Pôr do Sol em Santa Cruz. Memórias de um japonês sobre uma aldeia portuguesa" de Kazuo Dan, traduzida do japonês por Norio Kinshichi, Japão, 1992.

21 Abril, 2007

Mobo-Moga & Japonismo


A renovação artística resultante do encontro das culturas ocidental e japonesa


Os japoneses têm, como povo, uma característica bem conhecida – a capacidade de adoptar com facilidade costumes ou práticas estrangeiros. Quando os portugueses chegaram ao Japão em 1543, logo notaram a curiosidade dos japões, a sua insaciável vontade de aprender. Ficaram tão intrigados com o mosquete (as armas dos samurai eram sobretudo as espadas – katana - e os arcos e flechas) que, de imediato, quiseram experimentá-lo e fabricá-lo eles próprios, o que fizeram bastante bem. Mais tarde, a sua mestria nas áreas da tecnologia e do cinema – importações ocidentais – seria notória.
Os japoneses reconhecem esta sua característica de adoptar aquilo que consideram bom em práticas alheias e chamam-na iitoko-dori. Longe de significar que rejeitam os seus próprios costumes ou práticas, significa antes que os sabem conservar a ambos: os antigos e os novos. O facto de se estruturar por camadas, adicionando o novo sem nunca rejeitar o velho, é uma das razões que torna o Japão tão apaixonante. A sua cultura apresenta uma destreza invejável. De tal maneira assim é que se pode visitar o país experimentando apenas o antigo, pois está lá tudo – a arquitectura tradicional, a cerimónia do chá, os quimonos, as geishas, os festivais tradicionais, a arte da espada, o sumo, o xintoísmo, o budismo, o zen, etc – ou experimentando apenas o novo, em direcção ao futuro – arquitectura arrojada, tecnologia de ponta, música experimental, cidades gigantescas e ultra-modernas, etc. Futuro e passado coexistem no presente de forma quase miraculosa. Deve-se isto à capacidade de absorção conhecida como iitoko-dori – adoptar os bons aspectos do antigo e do moderno.
O que habilitou os japoneses para tal foi o seu sistema de crenças religiosas. A religião nativa do Japão, o Xintoísmo, segundo a qual as divindades podem ser encontradas em elementos da natureza – rochas, montanhas, rios, árvores – e na veneração dos antepassados, não apresenta nenhum sistema de valores absolutos, semelhante aos Mandamentos Divinos judaico-cristãos. Essa inexistência facilitava a convivência do Xintoísmo com religiões mais complexas, como o Budismo, que chegou ao Japão através da China no séc VI d.C. A princípio, o Budismo punha em causa o sistema imperial, cujo apoio principal residia precisamente no Xintoísmo. No século seguinte, porém, o príncipe Shotoku ocupou a regência e superou a contradição, declarando: “O Xintoísmo é o tronco, o Budismo é os ramos e o Confucionismo é as folhas.” Os japoneses tornaram-se aptos a reconciliar as contradições teoréticas dessas religiões e acolheram-nas às três sem problemas. A partir daí, habituaram-se a adoptar para a sua realidade aquilo que lhes parecia mais útil em práticas estrangeiras. Os valores, para os japoneses, continuaram, pois, a não ser absolutos, mas relativos e flexíveis, isto é, dependentes da situação em questão. A mesma decisão pode ser errada num determinado contexto e correcta num outro.
A característica iitoko-dori foi bem visível durante as primeiras décadas do século XX, um período pouco familiar da cultura nipónica mas nem por isso menos fascinante que a era dos xóguns e samurai ou a dinâmica do pós-guerra. A capacidade iitoku-dori estava no auge nos anos dez, vinte e trinta do século passado, quando os japoneses urbanos abraçaram fervorosamente os modelos e atitudes da cultura ocidental, por vezes ao ponto de raiarem a excentricidade. Estava a surgir então, e com poderosa energia, uma nova sensibilidade. E era a juventude quem liderava o processo, um novo tipo urbano que ficou conhecido como mobo e moga, abreviatura de modern boy e modern girl (modaan boi e modaan gaaru, segundo a pronúncia japonesa). Os mobo eram rapazes de cabelo farto que frequentavam teatros onde se exibiam peças de Ibsen, liam romances ocidentais e obras marxistas e assistiam a concertos de música clássica também ocidental. Trocavam os quimonos por fatos e os socos de madeira por sapatos de couro. As moga eram raparigas que trabalhavam fora de casa, que também trocavam os quimonos e geta (socos de madeira) por vestidos, saias e sapatos de salto alto da última moda, usavam cabelo curto – quase um pecado mortal na sociedade tradicional – e frequentavam os cafés Art Deco do famoso bairro da moda, Ginza (lê-se guindza) em Tóquio. Ambos os sexos enchiam as salas de teatro, cinema e cafés. As suas maiores aspirações eram o individualismo e a auto-expressão, algo que parecia em total contradição com o espírito japonês da submissão ao grupo e do apagamento do ego. Os mobo e moga debatiam-se entre a sua latente criatividade e a consciência de estarem interligados com o mundo exterior, tornando movediço e ambíguo este período da história do país.

Mobos:






















À esquerda, Retrato de Nishimura Isaku, autor desconhecido, 1910. À direita, Retrato do Sr. S., Nojima Yasuzo, 1921.


Mogas:

















Mogas na praia e posando com automóvel, Japão, anos 20:



Ainda hoje, o povo japonês nutre um afecto especial por esses dias brilhantes e frágeis do Taisho Chic. Taisho é o nome do curto período de 15 anos e meio entre 1912 e 1926. A atmosfera romântica e algo decadente atrai as pessoas, de tal modo que existem restaurantes e hotéis no estilo Taisho, assim como estúdios de fotografia que tiram fotografias ao estilo da arte predominante no tempo (ver http://max-max.com/photoindex.html ). Tsigoineruwaizen é um filme de 1980, dirigido por Suzuki Seijun, que retrata a época. Um filme mais recente, Haru no Yuki (Neve da Primavera), baseado no romance de Yukio Mishima, situa-se igualmente na era Taisho.

Estilo Taisho.

Kawakami Sumio, Ginza, 1929.

Shimokawa Hekoten, Ginza em mudança. Temos desenhos muito semelhantes de Stuart e Almada Negreiros. Se não fosse a mulher de quimono no segundo plano, poderiam tratar-se de uma lisboeta com o seu fadista.

A mudança não provinha apenas do exterior, como durante a precedente era Meiji (1868-1912), mas do próprio interior dos japoneses. O país industrializava-se rapidamente após a guerra russo-japonesa, a população agrícola mudava-se para as cidades e Tóquio e Osaka transformavam-se em gigantescas capitais modernas. Varriam-nas novas ideias, como o individualismo, a democracia e o proletarianismo. A arte tornou-se tecnicamente e conceptualmente experimentalista. Inúmeros artistas estabeleciam-se nas capitais ocidentais da arte, sobretudo Paris, que fervilhava então de movimentos avant-garde: construtivismo, dada, futurismo, surrealismo... Os japoneses absorviam-nos todos e transportavam-nos depois para o seu país natal, para lá da grande circulação de informação sob a forma de livros, imprensa escrita e exposições que já existia. Os resultados, em matéria de arte, foram, na sua maior parte, um tanto híbridos e algo como “déjà vu mas de olhos em bico”. No entanto, residiu aqui o germe de toda a pujança exibida hoje pelo Japão e claramente sentida no ocidente – em matéria de arquitectura moderna, design industrial, desenho gráfico, cinema, moda e, cada vez mais, música e arte em geral. A partir de 1910, pois, os artistas de vanguarda japoneses afimaram-se através do empréstimo de novos estilos importados da Europa, combinando-os de forma eclética. Mas isso sucedeu num contexto onde a arte ocidental já se estava a tornar o estilo artístico dominante.

Nakamura Tsune, Rapariga desnuda. 1914. A la Renoir...

Umehara Ryuzaburo, Monte Sakura, 1935. A la Cézanne...

Kawakami Ryoka, Caminho de Ferro, 1912. A la Van Gogh...

Sakata Kazuo, Figura Cubista, 1925. A la cubistas...

Apesar do travo de optimismo incorporado pelos mobo e pelas moga, tratou-se de um período acossado por várias calamidades e tudo menos pacífico: a Primeira Grande Guerra, o Grande Terramoto de Kanto (1923), o surgimento de movimentos de trabalhadores e sua subsequente repressão, os motins do arroz, etc. E terminaria a meio dos anos trinta, com o ressurgimento em força do militarismo e do espírito ultra-nacionalista. Tais eventos tornavam consciente o facto de que a modernidade era, também ela, vulnerável.
A arte de então ocupava-se em mostrar essa modernidade, tanto nos seus aspectos brilhantes de vida citadina, como nos seus aspectos mais angustiantes, como a pobreza de certos bairros ou das zonas rurais. Faziam-no nos estilos prevalecentes nas artes visuais: yoga, influenciada pelo modo de pintar ocidental, o óleo e a aguarela, a perspectiva e o chiaroscuro; ou nihonga, a pintura neo-tradicionalista, a tinta, reacção à moda da pintura a óleo dos finais do séc. XIX.



Sugira Hisui, Loja de Quimonos Mitsukoshi, 1914. Estilo nihonga.

Machida Ryuho, poster da cerveja Kabuto, 1924. Estilo nihonga.

Takehisa Yumeji, 1926. Estilo nihonga.


Yasui Sotaro, Retrato de mulher, 1930. Óleo sobre tela. Estilo yoga.


A arte japonesa determinava o seu território enquanto arte que englobava tanto elementos japoneses como ocidentais, com artistas de vanguarda a usarem, por exemplo, o método tradicional de pintura com tinta. Ou seja, no âmbito da arte, começava a deixar de fazer sentido colar etiquetas nacionalistas, antecipando o que sucede hoje em dia, quando se torna absurdo falar de uma arte americana, francesa ou chinesa. Nesse sentido, a capacidade iitoko-dori é um traço “moderno” avant la lettre, já que os nipónicos o apresentam desde há muitíssimos séculos atrás. Os japoneses são modernos há já longo tempo. Talvez por isso se tenham adaptado tão bem àquilo que nós, no ocidente, chamamos modernidade. Na arte produzida no Japão deste período a modernidade está bem patente, pois esta afirmou-se precisamente através da incorporação de elementos descobertos noutras culturas: relembremos as máscaras africanas de Picasso e, anteriormente, o japonismo dos impressionistas de primeira e segunda geração.
Com efeito, uns trinta anos antes da era Taisho, na Europa, os artistas impressionistas apaixonavam-se pelas estampas e artes aplicadas japonesas. À atracção pela China (a moda das chinoiseries) dos sécs. XVIII e XIX, adicionou-se a atracção pelas formas de arte japonesas. Esta atracção foi muito mais do que mero exotismo. Foi uma força que estimulou de modo indelével o desenvolvimento da arte moderna.

A 31 de Março de 1854, Comodore Perry, da Armada dos Estados Unidos, abre os portos do Japão ao mundo, após dois séculos de isolamento. Trocas comerciais, económicas e culturais puderam então recomeçar.
Com o novo acesso às importações do Japão, os artistas europeus desenvolveram um culto pelo país, bem patente nas suas obras, nas pinturas de mulheres envergando quimonos, por exemplo, e também na escrita, em romances, ópera e peças de teatro. Toulouse Lautrec coleccionava netsuke (pequenas estatuetas japonesas) e kakemono (pinturas em rolo) e Emile Zola redigia comentários sobre arte japonesa. Van Gogh escrevia a seu irmão Theo: “Num certo sentido, todo o meu trabalho está fundado na arte japonesa”.
O naturalismo, com a sua ditadura da ilusão, foi então ultrapassado pelo entendimento da pintura como uma arte que consistia sobretudo na colocação de cor sobre uma superfície plana. A fragmentação sistemática passou a representar a profundidade, em vez da tradicional perspectiva que pressupunha um único ponto de vista. A vista parcial, a vista de uma grande altura, a vista de baixo, a suspensão de figuras no vácuo ou truncadas, foram adoptadas. A composição em diagonal foi experimentada. Valorizou-se o natural, o transitório e o móvel. O decorativo substituiu o imitativo. Ao claro-escuro sucedeu a luz sem sombra. Aos formatos quadrados e rectangulares das telas foram adicionados formatos diferentes de organizar a pintura, como o dos rolos (kakemono) da pintura oriental. Tudo isto foi aprendido através da contemplação das estampas japonesas. Claro que, muitas vezes, os resultados foram "déjà vu mas de nariz comprido". Todavia, o que importa é que, com o japonismo, mudaram os conteúdos, as técnicas e os pré-conceitos da pintura ocidental. E essa mudança profunda deu-se igualmente noutras áreas: na arte dos jardins, na arquitectura e nas artes aplicadas. A influência nipónica começou no séc.XIX (Manet, Degas, Monet, Van Gogh, Gauguin, Lautrec, Klimt) mas prolongar-se-ia pelo séc. XX, com artistas como Mark Tobey ou Franz Kline, para só citar estes. Quando culturas diversas entram em contacto e, em vez de se tentarem destruir, resolvem aprender umas com as outras, o resultado é um assombroso enriquecimento mútuo!



O fascínio pelo quimono:























À esquerda, Claude Monet, Madame Monet de quimono, 1876. À direita, Rapariga dançando de quimono vermelho, Japão, 1620.


O gosto pelas cenas e gestos do quotidiano:





































Em cima, Edgar Degas, Depois do banho, 1888. Em baixo, obra de Kitagawa Utamaro.



O caso Van Gogh:










































Em cima, Van Gogh, Japonaiserie, A árvore em floração, 1886. Em baixo, Hiroshige Ando, Cerejeira em flor no jardim Kameido, 1878.









































Em cima, Van Gogh, Japonaiserie, A ponte, 1886. Em baixo, Hiroshige Ando, A Ponte Ohashi sob a chuva, 1856.





































Os pormenores da natureza. Em cima, Van Gogh, Cigarras, 1888. Em baixo, pormenor de um manual de pintura japonês, 1878.





































A linha e o ponto. Em cima, Van Gogh, Casas de Saint-Marie, 1888. Em baixo, obra de Hokkey Totoya, Japão, 1856.



Objectos truncados e ângulos oblíquos:

































Em cima, Edouard Manet, 1874. Em baixo, Suzuki Harunobu, 1765.

Novos formatos:





















À direita, Gustav Klimt, Mulher de pé em frente de flores, 1898. À esquerda, Koryusai Isora, Cena nocturna, 1770.

A composição em diagonal:








































Em cima, Eugen Kirchner, Novembro, 1896; em baixo, Hiroshige Ando, 1853.

O desenho rápido e espontâneo a tinta:























Em cima, Toulouse-Lautrec, Jane Avril, 1893; em baixo, Sendai Gibon, Daruma.

Estilização e abstracção:






















Em cima, Gustav Moreau, Sketch; em baixo, Hokusai Katsushika, 1828.



A influência da caligrafia - durante o séc. XX muitos foram os artistas que se interessaram profundamente pela arte cimeira do Japão e da China, a caligrafia. A par disso, investigaram os preceitos do budismo zen, e a zenka ( a pintura zen) chegando mesmo a viver durante algum tempo no Japão, como Mark Tobey. Alguns exemplos:






Em cima, Hans Hartung, Desenho, 1937. Em baixo, Sendai Gibon, A Lua.

Em cima, Christian Dotremond, 1971. Em baixo, texto japonês.

Em cima, Mark Tobey, Estrutura caligráfica, 1958. Em baixo, Mokuan Soto, Caligrafia, 1670.

Julien Bissier, Caligrafia, 1937.

Gerd van Dulmen, Caligrafia. Óleo sobre tela.

Bibl: The Japanese Mind, vários autores, Tuttle.

Modern Boy Modern Girl. Modernity in Japanese Art, catálogo de exposição, Art Gallery NSW.

Japonisme, Siegfried Wichmann, Thames & Hudson

24 Março, 2007


Os SOUTHERN ALL STARS





Quando vivi na China, tinha muitos colegas e amigos japoneses, como eu a estudar a língua do país. Surpreendia-me sempre que todos conhecessem o meu nome bem romano. E lhes parecesse agradar tanto. Um dia perguntei a razão desse facto e explicaram-me que havia uma canção japonesa que tinha como título o meu nome, escrita e cantada pela banda rock mais famosa do Japão, de quem todos eram fãs incondicionais. “São os nossos Beatles!”, acrescentaram. Ora, não conheço melhor elogio que se possa fazer a uma banda. Disseram-me que se chamavam SAS, a sigla de Southern All Stars (サザンオールスターズ, Sazan Ōru Sutāzu), e ofereceram-se para me dar a ouvir os seus discos.
O disco que me levaram chamava-se “Inamura Jane”. Comecei a escutar e fui de imediato conquistada, pois nunca ouvira nada de semelhante. Ao mesmo tempo, parecia que já ouvira tudo aquilo antes. Desde logo, a voz do vocalista não era nada que se esperasse de um japonês. Era uma voz rouca, poderosa, avinhada, uma voz de negro. O som, esse, era uma salganhada de flamenco, de Caraíbas, de pop à Beatles e à Beach Boys, de música de Okinawa e muito mais. E as letras reflectiam idêntica fusão: japonês, japonês com pronúncia inglesa, espanhol com pronúncia japonesa, francês com pronúncia japonesa.... Só sei que, a partir desse dia, entrei na onda SAS. Tiveram de me gravar todos os discos que circulavam na nossa universidade. Ouvi a canção com o meu nome e muitas outras. Os Southern All Stars, com o seu som internacional e, ao mesmo tempo, tão único, incorporavam o Japão moderno. A sua música reflectia um conhecimento extremo de várias correntes musicais, a digestão completa de todos eles e, a partir desse ponto, a criação de algo especial e verdadeiramente nipónico. Canções mais melódicas, estilo retro, rocks mais hard, rumbas e salsas e mambos e pop e muitas, muitas canções evocando o verão e o mar. Em todas elas, uma vitalidade contagiante. As capas dos CD’s também me impressionavam pelo humor e a qualidade. Tornei-me fã dos SAS, a primeira ocidental da universidade a render-se. Estávamos em 1991 e os SAS encontravam-se na crista da onda. Mas, diziam-me, eram uma banda “já antiga”.



"Inamura Jane"



Na verdade, o líder da banda, o tal da voz de negro, que se chama Kuwata Keisuke, havia formado os SAS em 1975, com seis membros, quando frequentava a Universidade Gakuin de Aoyama, depois de ter pertencido a uma outra banda chamada “Better Days”. Crescera numa cidade à beira-mar, Chigasaki, na Perfeitura de Kanagawa, conhecida pelas suas praias e o seu surf, uma área de veraneio a sudoeste de Tóquio. Para formar os SAS, Kuwata juntara-se a Sekiguchi e a Hara Yuko, a única mulher do grupo, com quem se casaria em 1982. A seguir vieram o guitarrista Omori Takashi, o baterista Matsuda Hiroshi e Nozawa Hideyuki, encarregado da percurssão.
A canção de estreia dos SAS foi “Katte no Shindobatto”, "勝手にシンドバッド, de 1978. Desde o primeiro momento, a liderança de Kuwata nunca seria contestada: ele encarregar-se-ia das palavras, da música e da voz. A sua forma peculiar de cantar, o seu carisma pessoal, a actuação em palco impressionou de imediato. Num ápice, os SAS tornaram-se populares. Um ano depois, lançavam o enorme êxito “Itoshi no Eri”, いとしのエリー, uma balada que viria a ser cantada por Ray Charles em 1989 sob o título “Ellie My Love”. Este êxito consolidou a sua reputação como banda a levar a sério. Os fãs multiplicavam-se, independentemente de sexo ou idade.

Os Southern All Stars nos anos 70: Sekiguchi, Nozawa, Omori, Matsuda, Kuwata e Hara



Os sucessos sucederam-se com “Minna no uta”, “Chako no Kaigan no Monogatari” (1982),“Namida no Kiss”(1992) , “Erotica Seven” (1993) “Anatadakeo” e “Summer Heartbreak” (1995), “Spiritual Message” (1996) e outros. O álbum duplo “Kamakura”, de 1985, vendeu mais de um milhão de cópias e é considerado um dos seus melhores trabalhos de sempre. Kuwata Keisuke foi o cantor que mais dinheiro fez nesse ano. Realizou um filme, “Inamura Jane”, uma história de amor que também se tornou um sucesso de bilheteira. Em 1986, enveredou por projectos a solo, organizando o Kuwata Band. Os outros membros do grupo seguiram-lhe o exemplo. Sempre prolífico, Kuwata alcançaria enorme êxito também como artista a solo.
Até 1996, todos os discos dos SAS eram vendidos aos milhões. O álbum “Young Love” de 1996, vendeu dois milhões de cópias. Todavia, no ano seguinte, Kuwata começou a experimentar novos sons para o grupo. Isso causou um declínio acentuado nas vendas dos finais dos anos 90. Porém, a sua primeira compilação oficial, “Umi no Yeah!!”, de 1998, vendeu mais de 3 300 000 de cópias. Até à data, é o álbum mais vendido de sempre no Japão.


Em pé: Omori, Nozawa, Kuwata. Sentados: Matsuda, Hara e Sekiguchi.



Após a tournée de 2000, Omori Takashi anunciou que se retiraria da banda, o que sucedeu em Agosto de 2001. Tanto Omori como a sua mulher eram membros bem conhecidos e influentes da Soka Gakkai, uma organização do Budismo Nichiren associada a um partido político. Existem vários rumores sobre problemas de ordem religiosa com os outros componentes do grupo, com os fãs e com os meios de comunicação.
Em 2003, a HMV Japan anunciou que os Southern All Stars eram os artistas pop japoneses nº 1, segundo uma investigação intitulada “Os 100 Artistas Pop Japoneses de Topo de Todos os Tempos.”
Em 2005, os SAS realizaram a sua maior série de concertos, cobrindo todo o Japão. Tocaram para mais de meio milhão de pessoas em 11 cidades, para lançar o seu álbum de originais “Killer Street”, que alcançou instantaneamente os tops das listas com um milhão de vendas. A banda contava com 30 anos on the road; ou seja, no seu país natal, aliam a supremacia dos Beatles à longevidade dos Stones. Nesse mesmo ano, em Junho, relançaram 44 singles num único dia. Os títulos datavam desde 1978 até “Tsunami”, o enorme êxito do ano 2000. Todos eles figuraram nas listas Oricon. “Tsunami” vendeu ao todo mais de três milhões de cópias, o que faz dele o terceiro single mais vendido no Japão. Foi galardoado com o 42º Japan Record Prize.
Recentemente, Kuwata Keisuke actuou num concerto de caridade para com as vítimas do HIV, com uma banda chamada Mr. Children. Ambos eram populares entre a juventude e o seu single “Kiseki no hoshi” teve boas vendas.
Com uma história já longa e estando provado que a maior parte das rock stars não se sente atraida pela reforma, os SAS ainda devem ter de reserva muitos trunfos na manga, isso dependendo em grande parte da vitalidade transbordante do líder Kuwata Keisuke.


Southern All Stars:




Kuwata Keisuke (nascido em Chigasaki, Kanagawa, a 26-Fev.-1956 ): vocalista, guitarra




Omori Takashi (nascido a 12-Dez-1956) : guitarra






Hara Yuko (nascida em Yokohama, Kanagawa, a 11-Dez-1956): keyboard





Matsuda Hiroshi (nascido em Miyazaki, a 4-Abr-.1956): bateria






Nozawa Hideyuki (nascido em Yokohama, Kanagawa, a 19-Out-1956): percursão





Sekiguchi Kazuyuki (nascido em Niigata, em 21-Dez.-1955 ): baixo


Discografia:




Singles-



Katte ni sindobatto
Kibun shidai de semenaide
Itoshi no Eri
Omoi sugoshi mo koi no uchi
C chou kotoba ni goyoujin
Namida no avenue
Koi suru manthly day
Inase na locomotion
Jazzman JAZZ MAN
Wasureji no rade back
Sha ra ra
Big Star Blues
Shiori no theme
Chako no kaigan monogatari
THE NIGHT CLUB
Ya Ya
BODY SPECIAL
EMANON
Tokyo Shaffulu
MISS BRAND-NEW DAY
Tarako
Bye Bye My Love U are the one
Melody
Minna no uta
Megami tachi e no joka
Sayonara Baby
Furi Furi ' 65
Manatsu no kajitsu
Neo buraboII
SHULABA-LA-BAMBA
Namida no kiss
EROTICA SEVEN
Suteki Na Birdy NO NO BIRDY
Cristmas Love
Manpi No SPOT
anata dake o Summer Heartbreak
Ai no genryou (Spirtual Message)
Taiyo Wa Tsuminayatsu


Álbuns -


Atui muna sawagi
10 numbers karatto
Taini babuls
Stereo taiyo zoku
NUDE MAN
Kirei
Ninki mono de ikou
KAMAKURA
SOUTHERN ALL STARS
Inamura jane
Yo ni manyo no hana ga sakunari
Young Love

Alguns vídeos com os Southern All Stars no YouTube:

Letra em japonês e tradução em português do êxito “Itoshi no Elli”(Amada Eli):


Pode escutar-se esta canção em http://www.veoh.com/videos/e179127HzbFanAq;jsessionid=3036068D0F2B20C6114C1D28BFF1B41E
(Ouve-se, mas não se vê, os Southern All Stars)



Nakashita koto mo aru, tsumetaku shite mo nao
Eu sei que já choraste por minha causa mas, mesmo quando sou tão frio
Yori sou kimochi ga, areba ii no sa
O que mais me importa é esta vontade de estar junto de ti.
Ore ni shite mirya korede saigo no lady
Se depender de mim, podes ter a certeza de que serás a minha última lady
Eri, my love so sweet
Eri, meu amor tão doce

Futari ga moshimo samete me wo mirya tsurenakute
Se um dia despertarmos deste sonho, com olhares sem expressão nenhuma,
Hito ni iezu omoi de dake ga tsunoreba
E os sentimentos mais secretos acumulando-se
Kotoba ni tsumaru yoo ja koi wa owari ne
E as palavras a saírem engasgadas, eu sei que a paixão estará a chegar ao fim
Eri, my love so sweet
Eri, meu amor tão doce

Waratte moto baby, mujakini on my mind
Sorri-me outra vez, baby, é inocência o que me vem à mente
Utsutte moto baby, suteki ni in your sight
Revela-me outra vez, baby, a beleza ao olhar-te
Sasoi namida no hi ga ochiru
O dia de lágrimas provocadas está a ir-se embora
Eri, my love so sweet
Eri, meu amor tão doce
Eri, my love so sweet
Eri, meu amor tão doce

Anata ga moshimo doko kano tooku e iki usete mo
Ainda que me deixes e desapareças para sempre
Ima made shite kureta koto wo wasurezu ni itai yo
Eu não quero esquecer-me de tudo o que significaste para mim
Modo kashi samo anata nya hodo yoku ii ne
Porque até os modos irritantes e impacientes são atraentes em ti
Eri, my love so sweet
Eri, meu amor tão doce
Waratte moto baby, mujakini on my mind
Sorri –me outra vez, baby, é inocência o que me vem à mente
Utsutte moto baby, suteki ni in your sight
Revela-me outra vez, baby, a beleza ao olhar-te
Mizore majiri no kokoro nara
Porque a chuva fria insiste em congelar o meu coração

Eri, my love so sweet
Eri, meu amor tão doce
Eri, my love so sweet
Eri, meu amor tão doce

Waratte moto baby, mujakini on my mind
Sorri-me outra vez, baby, é inocência o que me vem à mente
Utsutte moto baby, suteki ni in your sight
Revela-me outra vez, baby, a beleza ao olhar-te
Nakase monku no sono ato ja
Porque as minhas palavras, como sempre, acabaram por te fazer chorar

Eri, my love so sweet
Eri, meu amor tão doce
Eri, my love so sweet
Eri, meu amor tão doce
Eri my love Eri
Eri meu amor Eri

17 Fevereiro, 2007


O MUNDO MARAVILHOSO DE HASEGAWA MACHIKO



Hasegawa Machiko


Toda a gente conhece os manga japoneses, mas poucos saberão qual a mais popular série de sempre no próprio Japão. Ora, é interessante verificar que tal série não partilha de muitas das características a que estamos habituados: super-poderes, cenários futuristas, samurais ou vampiros. O próprio traço não se assemelha de todo ao que produz aquelas figuras estilizadas de cabelos esvoaçantes e grandes olhos inexpressivos que povoam os livros de manga que se encontram à venda em todo o mundo. Nada de samurais resolutos, de cenários futuristas e de poderes para-normais. Temos antes uma família típica do Japão destroçado do pós-guerra, cuja heroína é uma mulher jovem e estouvada, chamada Sazae e que dá o nome à série. Provavelmente, não há nenhum japonês que não conheça “Sazae-san”, a menos que não tenha ainda idade para isso. Além do conteúdo ser inesperado para nós, ocidentais, o facto de a autora ser uma mulher, tal como a sua heroína, foi um facto inesperado para os próprios japoneses. Hoje em dia, existem muitíssimas autoras de manga mas, na primeira metade do séc. XX, a maioria das japonesas estava ainda destinada a ser filha, esposa, mãe, sogra e nada mais.
As primeiras tiras de “Sazae-san” apareceram publicadas no jornal diário “Yukan Funichi” de Fukuoka, na ilha de Kyushu, em Abril de 1946, ou seja, quase um ano após Hiroshima e Nagasaki. A autora chamava-se Machiko Hasegawa (na verdade, Hasegawa Machiko; Hasegawa é o sobrenome e Machiko o nome próprio. No Japão, tal como na China, o sobrenome surge em primeiro lugar. No entanto, costuma mudar-se essa ordem quando se escreve numa língua ocidental) e nascera a 30 de Janeiro de 1920, no mesmo ano em que, por exemplo, a nossa Amália Rodrigues. Em Portugal, porém, não surgiu ainda uma única autora de banda-desenhada digna de destaque.
Natural de Taku, distrito de Saga, na ilha de Kyushu, Machiko tinha mais duas irmãs, um pai engenheiro muito chegado às filhas e a mãe, dona de casa. Devido à morte do pai, quando Machiko tinha apenas doze anos, a família mudou-se para Tóquio. Com quinze anos, ainda aluna de liceu, começou a sua carreira de desenhadora. Aos dezasseis, tornou-se aprendiz de Suiho Tagawa (1899-1989), considerado o maior autor de B.D. anterior à Guerra e criador da série “Norakuro” (1933-35), com um cãozinho que se alistava no Exército Imperial. Mas a rapariga depressa começou a forjar o seu próprio caminho. Um dia em que caminhava pela praia com uma das irmãs, surgiu-lhe a ideia para a série que havia de torná-la rica e famosa – “Sazae-san”. Talvez por isso, os nomes das personagens sejam também os de vários frutos do mar. Por exemplo, Sazae significa rodovalho, Kazuo, nome do irmão de Sazae, significa bonito seco (uma espécie de atum, utilizado no okonomiyaki), Wakame, nome da irmãzinha, é também o de uma alga usada na confecção da sopa miso e Tarao (Tara), o filho de Sazae, partilha o nome com o bacalhau.



A jovem Hasegawa Machiko


A série começou depois a ser publicada diariamente no conhecido jornal Asahi Shinbum, desde 1949, e assim continuaria por mais 28 anos, até Fevereiro de 1974, perfazendo um total de 6 477 capítulos. Cada um destes consiste num relato curto e independente. O êxito foi instantâneo. Os japoneses do pós-guerra e das posteriores gerações identificavam-se de imediato com aquela família da classe média e com as situações cómicas mas banais que protagonizavam.
“Sazae-san” debruça-se sobre a vida quotidiana de uma vulgar família alargada (três gerações na mesma casa), os Isono. O destaque vai para a filha mais velha, Sazae, mas há ainda o pai, Namihei, a mãe Fune, o irmão Kazuo e a irmã Wakame, assim como aquele que, pouco tempo depois de criada a série, se torna seu marido, Fuguta Masuo e o filhito de ambos, Tarao.
Árvore genealógica de Sazae-san
Os Isono começam por viver em Kyushu mas mudam-se rapidamente para Tóquio. Machiko Hasegawa viveu muito tempo no bairro Setagaya, na capital, e fez com que a maioria das cenas da série também se passassem ali. Por essa razão, uma das ruas do bairro, até então chamada Naka-dori, tomou o nome de Sazae-san em 1987.


Hasegawa Machiko frente a um desenho com o rosto de Sazae

Como é comum na banda desenhada, os tempos vão passando e a sociedade mudando, mas as personagens conservam sempre a mesma idade. O conteúdo é apropriado para famílias e pouco controverso. Trata-se de um humor que não provoca gargalhadas, mas antes origina um sorriso permanente e boa disposição para o resto do dia. Aborda situações familiares a muitos de nós, como dizer uma inconveniência por não nos termos apercebido de que havia visitas presentes ou pregar partidas para se conseguir ficar com a guloseima da irmã.
Kazuo e dois amigos partiram um vidro a jogar à bola. O dono da casa dá-lhes uma tremenda reprimenda. Sazae, que assiste à cena comovida, comenta: "Meu Deus, tanta coisa por causa de um vidro partido!" Dirige-se ao homem e declara: "Quanto custa? Eu pago!" Responde o homem: "Hoje em dia um vidro destes custa 80 ienes!" (Sazae dá-lhe a nota, tremendo). Mal o homem vai para dentro de casa, desata ela a ralhar com os rapazes!

A jovem Sazae é falha de super-poderes, o seu QI é banal, fisicamente é prosaica e não prima pelo bom-gosto. Mas o leitor começa logo a render-se à sua alegria, ao seu sentido de humor, ao bom coração, modos arrapazados (por causa deles, a mãe receava que nunca viesse a arranjar marido), distracções, gaffes e, por vezes, espalhafato. A maneira estouvada como lida com as adversidades do pós-guerra (falta de alimentos, senhas de racionamento, pobreza, órfãos de guerra, mas também novas ideias e atitudes trazidas pelos ocupantes americanos) ofereceu aos japoneses de então um sentimento de conforto e ajudou-os a superá-las com um sorriso.
Uma pequena orfã de guerra pede esmola. Sazae comove-se e prepara-se para lhe dar uma moeda mas verifica que a carteira está vazia. Nesse instante, surge um velho senhor que dá uma nota à orfã. Sazae de imediato faz-lhe uma vénia, dizendo: "Muito obrigada!"

O pai de Sazae-san, como é típico dos homens japoneses, pouco faz em casa. Mas é afável e atencioso, longe do pai japonês tirânico anterior à guerra: “Há três coisas a temer na vida: os terramotos, os incêndios e os pais (plural de pai)”, era então um dito popular. Em “Sazae-san”, janta-se às seis em família, seguindo o costume tradicional. A disposição à mesa também é tradicional – no lugar de honra sentam-se os homens: o pai e o marido. Sazae e a mãe sentam-se do lado mais próximo da cozinha, porque lhes cabe a elas servir os pratos. Mas a atmosfera é descontraída e partilham todos os mesmos alimentos simples, não ficando reservados aos homens as melhores iguarias, como acontecia antes da Guerra. A tradição ditava ainda que fosse a noiva a ir viver com a família do marido. No entanto, é antes o marido de Sazae que vai viver para casa dela. A mistura do tradicional e do moderno, tão característica do Japão, também é visível através das roupas: os pais preferem quimonos, as gerações mais novas adoptam os trajes ocidentais.
Sazae vai com o pai e os irmãos ao cinema. Kazuo encontra pelo caminho um amigo e diz-lhe: "Vamos ao cinema!" Chegados lá, o pai vira-se para Sazae: "Está aqui tanta gente que é melhor darmos as mãos." "Ok", responde Sazae, e dá a mão ao pai. O pai surpreende-se: "A mim não! A Wakame!" Envergonhada, Sazae, que tem 27 anos, ouve-o prosseguir: "É tempo de começares a crescer!"

E assim prosseguiu Sazae pelos anos cinquenta e sessenta adiante, cada vez mais feminista e alegre, vestindo já calças à boca-de-sino e até mini-saia. “Sazae-san” não ajudou apenas os japoneses a suportarem as agruras da época do pós-guerra, mas ajudou-os também a promover no país uma maior igualdade entre homens e mulheres, quando o peso da mentalidade tradicional era ainda muito importante.
Uma senhora ralha com um empregadito de escritório: "Que modos para um empregado de escritório! Escandaloso!" Um homem que vai a passar dá uma bengalada na cabeça da senhora, exclamando: "Você não está a ser democrática!" Mas este homem leva também com um guarda-chuva na cabeça. É de Sazae-san, que o admoesta: "A maltratar as mulheres! E então a igualdade de direitos?"

A série conservou-se sempre tão popular que foi editada numa colecção de 68 livros, saltou para a rádio nos anos cinquenta, para o écran de cinema em nove filmes de sucesso e acabou a passar na televisão em desenhos animados desde 1966 até aos nossos dias! Machiko Hasegawa, todavia, desaprovava os desenhos animados, tendo comentado: “A série Sazae-san emitida agora na televisão difere tanto da minha Sazae-san que não tenho nada a ver com ela.” Talvez assim fosse porque os desenhos animados servem de veículo publicitário para os vários patrocinadores e recusam qualquer episódio mais satírico ou com um humor um pouco mais negro. Existem no You Tube vários vídeos de Sazae, incluindo o episódio nº 1.
Quanto à edição japonesa dos livros de “Sazae-san”, publicada pela editora Shimaisha (“Irmãs”, dirigida pela própria Machiko Hasegawa e irmãs) e pela Asahi Shinbum, já vendeu mais de 86 milhões de exemplares.
Em 1974, Hasegawa resolveu terminar a série. A forma de vida retratada na obra – comunidades agradáveis de famílias vizinhas, com costumes frugais, praticando a entre-ajuda e gozando de tranquilidade – tinha praticamente terminado no Japão da alta tecnologia, do ritmo de vida acelerado, do consumo desenfreado e das famílias nucleares. No entanto, continua a atrair o povo japonês, nostálgico dessa vida de outrora, e também os ocidentais que anseiam por entender a história do Japão do séc. XX.
Um proprietário mostra uma casa a um possível comprador, informando: "Tem gás e água. O preço é 400 000 ienes." E acrescenta, dirigindo-se para o quintal: "Partilha o poço com os vizinhos." Acontece que a vizinha é Sazae, que está nesse momento ali a lavar roupa com Tarao às costas e cantando estridentemente a canção em voga em 1947, "Tokyo Boogie Woogie". O possível comprador afasta-se: "A casa é razoável. Mas os arredores..."

A desenhadora, que nunca se casou nem teve filhos, dedicou-se depois a consolidar o êxito da sua maior obra. Em 3 de Novembro de 1985, com a irmã Mariko, abriu no seu bairro (e das suas personagens), Setagaya (a sete minutos a pé da estação de Sakurashinmachi da linha Tokyu Shin-Tamagawa do Metro), o Museu Hasegawa Machiko, onde se pode contemplar, além dos desenhos originais da série e demais trabalho da autora, a colecção privada de arte das irmãs, com obras de Chagall, entre outras.



Mapa com a localização do Museu Hasegawa Machiko, em Tóquio


Hasegawa Machiko morreu em 1992, após ter reinado durante cinquenta anos, numa sociedade onde a BD desempenha um papel de enorme relevância, representando a cultura popular e a mentalidade japonesa do pós-guerra. No ano da sua morte, foi-lhe dado um prémio, infelizmente póstumo, pelo então Primeiro-Ministro.


Hasegawa Machiko

Ao longo dos tempos, a série "Sazae-san" levantou questões e dúvidas nos seus leitores. Por isso, o professor Kenkichiro Iwamatsu, da prestigiosa Universidade Keio Gijuku e dirigente da Associação de Sazae de Tóquio, publicou um livro, em 1992, para as tentar esclarecer, chamado “69 Mistérios Escondidos em Sazae-san”. Vendeu mais de dois milhões de exemplares até hoje. “Sazae-san” é tão representativa da cultura japonesa e da vida das três décadas que se seguiram à Segunda Grande Guerra, que apenas em 1997 se aventuraram a traduzi-la para inglês, sob o título “The Wonderful World of Sazae-san”, cinco anos após a morte da autora.




No entanto, revelou ser uma leitura apaixonante também para os ocidentais, porque se trata de um bom meio para entender precisamente essa vida e cultura e um óptimo veículo para se começar a ler em japonês, visto os diálogos serem curtos e simples. Além disso, apesar das idiossincrasias da vida japonesa (o que só torna a série mais atraente), o leitor ocidental, tal como o nipónico, adere de imediato a “Sazae-san” porque encontra nela uma ressonância da vida simples do dia-a-dia - recheada de situações cómicas oferecendo muitas razões para ser feliz – vida essa que se assemelha por toda a parte.

Sazae-san

25 Janeiro, 2007

BUSHI & SAMURAI -

TRIBUTO AOS MEUS GUERREIROS FAVORITOS
(Estes desenhos são dedicados ao meu cyber-amigo Laurent, autor do blogue The Last Samouraï, em http://thelastsamourai33.spaces.live.com/ que, como eu, é admirador dos fabulosos samurai)























BUSHIDO: A VIA DO GUERREIRO

Samurai com kabuto (elmo). O primeiro verdadeiro kabuto surgiu na época Sengoku (Estados Guerreiros) mas atingiram a sua maior diversidade e espectacularidade no Período Mamoyama. Os cornos de metal chamam-se kuwagata e começaram a ser parte integrante do kabuto desde a época Kamakura. O cobre-nuca de cinco tiras chama-se shikoro. Hoje em dia, os kabuto são muito cobiçados por coleccionadores.

Mon. Os mon são emblemas familiares utilizados desde a época Kamakura. Apenas a aristocracia, civil ou militar, os podia possuir. Serviam para ser reconhecido durante as batalhas. Podem representar animais, flores, caracteres, normalmente inscritos numa figura geométrica de maneira estilizada e a preto e branco.

Samurai. Os samurai deviam arvorar uma expressão severa e altiva, pois estavam mais perto dos deuses do que o resto da sociedade. Os samurai (à letra, servidores) surgiram em 1615 e eram funcionários armados, uma espécie de força da ordem. Obedeciam a senhores e a sua principal tarefa era gerir os seus domínios e interesses. Constituiam uma aristocracia que governava o país por conta do Xógun, o Generalíssimo. Antes deles e desde 1185, havia os Bushi (guerreiros). Estes eram homens de guerra cujo destino era o combate. Tinham como objectivo principal engrandecer o poder do seu clã.

A flor de cerejeira (sakura) foi a flor escolhida pelos samurai para os simbolizar. O seu reinado é breve, uma a duas semanas da Primavera; a vida dos samurai também deveria ser breve e terminar com uma morte honrosa no campo de batalha. Além disso, a flor de cerejeira desprende-se com simplicidade do ramo, sem passar pelo processo de apodrecimento. O samurai devia igualmente deixar esta vida com graciosidade, sem medo ou relutância. A sua morte era "a morte louca". A sakura é a imagem da precariedade da vida e do desapego dos bens mundanos; a sua cor branca ilustra a pureza de alma desejada pelos samurai. Um conhecido ditado exprimia a simbiose entre eles e esta flor: "Entre todas as flores, a flor de cerejeira; entre todos os homens, o guerreiro".
À esquerda encontra-se uma citação do Hagakure ("Escondido na folhagem"), o Código de Honra dos Samurai, escrito por Jocho Yamamoto no séc. XVIII: "O Bushido (A Via do Guerreiro) é o desespero. Uma pessoa que esteja pronta para fazer seja o que for, indiferente ao perigo, não pode ser morta nem por dúzias delas. Os grandes empreendimentos não podem ser feitos com sensatez. Torna-te louco e desesperado."

As armaduras dos samurai podiam contar com máscaras metálicas de terríveis feições para melhor amedrontar o inimigo. No entanto, nunca foram populares, devido ao facto de serem pouco cómodas.
Samurai com kabuto (elmo) de 12 placas, típico do séc. XVI. A espingarda já tinha sido introduzida no país pelos portugueses (1543) e os kabuto começaram a ser confeccionados à prova de bala.

Sapatos de batalha tsuranuki de um grande general.

Samurai do séc. XVI envergando kabuto e armadura (o-yoroi) para uma batalha.

Máscara (so-men) para complemento de uma armadura, utilizada para aterrorizar o inimigo.

Samurai em traje de corte. Os mon eram estampados na roupa, além de nas bandeiras, para identificação do clã.

Horagai. Horagai eram conchas que, tal como os taiko (tambores), serviam para difusão de ordens no campo de batalha, onde se encontravam geralmente milhares de soldados.

Samurai usando um suo, indumentária semi-formal diária para as classes altas. Este padrão de tecido era vulgar.

Um cavalo de batalha. O guerreiro (bushi), o seu cavalo e o seu arco deviam tornar-se um. Os atavios para cavalos, como as selas, atingiram grande beleza estética.

"Torna-te louco e desesperado" (Hagakure). Samurai em plena batalha.

Tambor de guerra (taiko). Serviam para difundir ordens no campo de batalha.
O grande daimyo Takeda Shingen (séc. XVI). Os daimyo eram guerreiros proprietários de vastos territórios, de linhagens influentes, capazes de manter um exército importante. Takeda Shingen levou uma vida de constantes batalhas mas o seu génio militar impediu-o de alguma vez ser derrotado. Foi o último grande opositor da tentativa de unificar o Japão, por parte de Oda Nobunaga, Toyotomi Hideyoshi e Tokugawa Ieyasu. Costumava usar um kabuto enfeitado com crinas de cavalo. A sua figura é retratada no famoso filme de Kurosawa Akira, "A Sombra do Guerreiro" (Kagemusha).

Duelo samurai ao entardecer. A mais nobre das lutas era feita com a espada (katana), num duelo corpo a corpo. A mestria no manejo da espada requeria um árduo e longo treino.

Guerreiro com arco (yumi). O arco, a arma nobre por excelência, era característica do Bushi (guerreiro) da época Heian. A Via do Arco e do Cavalo era então a principal arte marcial. Ao seu protagonismo sucedeu o da espada mas apenas 300 anos depois. O arco era utilizado a cavalo e a sua forma sinuosa e assimétrica, assim como a extensão (2,20 a 2,30 metros), reflectem esse propósito. O arco japonês é feito de bambu e madeira e a corda é de seda. O som da sua vibração permite determinar a qualidade da arma. As flechas (ya) também são de bambu e podem atingir um metro de comprimento. As penas na extremidade, que permitem o equilíbrio em voo, são de águia nas flechas de qualidade superior.
O arco e a flecha eram os instrumentos de duas práticas de inspiração zen que requeriam concentração e autodomínio: o yabusame (tiro ao arco a cavalo) e o kyudo (a Via do Arco, a pé).
Kago hankyu (meio-arco) com a aljava para as flechas. Estes arcos diminutos serviam para ser utilizados no espaço restrito dos palanquins nos quais os nobres viajavam.


A katana do samurai era usada à cintura. Rodeava-a uma aura mística. Era a "alma do samurai" e honravam-na como a um kami (divindades xintoístas). O seu fabrico também era rodeado de rituais de carácter religioso. Além da espada longa, o samurai transportava a espada curta, a wakizashi. Só os samurai podiam ostentá-las a ambas ao mesmo tempo. A wakizashi servia no combate corpo-a-corpo, mas também para cortar a cabeça dos inimigos e para cometer seppuku, o suicídio ritual. O samurai nunca podia perder a sua espada - desonra terrível.
Tsuba (guarda de sabre). A confecção de tsuba atingiu um grande nível estético e apresentavam enorme variedade de estilos, temas e formas. Existem coleccionadores apenas de tsuba.

A katana, espada samurai. O texto consiste nas primeiras frases do Hagakure, o Código de Honra dos Samurai: "O Bushido (a Via do Guerreiro) é realizado na presença da morte. No caso de ter de decidir entre vida e morte, deve-se escolher a morte. Não há outra maneira de pensar."

Um dos tipos de ponta da lâmina de uma espada longa (katana).

Ponta de flecha (ya no ne). Havia-as de múltiplas formas e com centenas de diferentes decorações. Eram fabricadas por especialistas.

Penteado característico dos samurai adultos: rapado na parte da frente do crâneo e com uma espécie de trança (sakyaki) com um nó sobre a fronte. O penteado dos filhos dos samurai que ainda não eram adultos diferia apenas no facto de não raparem a cabeça.

Samurai em traje diário segurando um leque de guerra (gunsen). Os gunsen eram usados para dirigir as tropas.



Sashimono. As sashimono eram bandeiras estampadas com diversos motivos que se usavam plantadas nas costas da armadura samurai como identificação dos diversos clãs durante uma batalha. Esta era a de Oyamada Nobushige, um dos famosos trinta e quatro generais do daimyo Takeda Shingen.
O texto da esquerda é uma citação do Hagakure: "Um guerreiro só pode cumprir o seu dever se for corajoso mas conservar em si tanta misericórdia e compaixão que o seu coração quase rebenta. " O treino de um samurai tornava-o implacável na luta mas cuidava também da grandeza da sua alma. Devia respeitar o inimigo que se submete, ser generoso e clemente. Havia que permanecer impassível perante os fortes, mas comover-se perante os vencidos. O credo do samurai era "Não tenho armadura: a benevolência e o dever são a minha armadura." Além deste conjunto de qualidades imperiais, a grandeza espiritual do samurai revelava-se muitas vezes na arte e na estética (poesia, pintura, caligrafia, cerimónia do chá, ikebana, etc). Devia tornar-se um homem completo, fisica e espiritualmente.

Samurai com armadura e sashimono de penas de papel, de modo a ser facilmente identificado na batalha.
Samurai cometendo seppuku (ou harakiri: "cortar a barriga"). Só duas espécies de morte eram honrosas para o samurai: a morte no campo de batalha e o suicídio ritual para salvar a própria honra ou a do seu senhor. O rito do seppuku tinha, pois, um grande alcance espiritual. O guerreiro ajoelhava-se com o tronco descoberto e esventrava-se com o kusungobo (punhal), arrastando lentamente a lâmina da esquerda (lado lunar, yin) para a direita (lado solar, yang) e virando-a depois para cima, em direcção ao abdómen. A barriga, e não o coração, é a sede da alma, das emoções e da energia para os japoneses. O suicida dominava a dor tal como havia dominado as paixões em vida. Devido ao autodomínio e à serenidade perante a morte, adquiria o respeito dos que ficavam. O seu acto permaneceria indelével na memória das futuras gerações. Um assistente (kaihakunin) foi depois introduzido para terminar o ritual, cortando a cabeça ao suicida e minorando o seu terrível sofrimento.

Samurai morto no campo de batalha. Esta era uma morte honrosa para um samurai - a morte em plena vida e não por doença ou velhice.
"O amor não é profundo se o declararmos em vida. Um amor secreto na morte tem uma graça profunda. É melhor morrer com o amor secreto." (Hagakure)
Desenhos a lápis de cera sobre caderno de 10x7 cm. 1999.

17 Dezembro, 2006

JAPÃO! JAPÃO!
A minha primeira viagem ao País do Sol Nascente


As cigarras cantam
Ignorando que é a morte
Que as escuta


Ervas de verão:
Eis o que resta
do sonho dos samurais

Haiku de Matsuo Basho



INTRODUÇÃO


É sabido que viajar num país estrangeiro e nele viver são situações bem diversas. A minha primeira estadia no Japão teve o carácter efémero de uma viagem de um mês. Segundo avisam, não só o autor do guia do Japão que utilizei (e que lá vivia havia mais de uma dezena de anos), como também, muito antes dele, o nosso Wenceslau de Moraes, o Japão é um país que enfeitiça até à obsessão os estrangeiros que por ele passaram em viagens de curta duração, mas que acaba por desiludir profundamente aqueles que resolvem por lá se estabelecer. É certo que esta evolução é susceptível de se desencadear em muitos outros países – talvez em todos – mas, segundo consta, tal experiência é ainda mais óbvia no Japão.
Nunca passei um ano sequer no Japão. Não tive ocasião de perceber ou sentir in loco os problemas do país, as suas contradições, a proverbial xenofobia do seu povo, os preconceitos e ideias feitas acerca dos estrangeiros e o inevitável choque de mentalidades. Estes factores conheço-os do convívio que tenho mantido com japoneses habitando temporariamente fora do seu território (foram alguns destes que me ofereceram a sua hospitalidade durante a viagem que aqui vou narrar), mas não houve oportunidade de os confirmar no Japão, a não ser superficialmente.
Os japoneses são mestres na arte da ilusão e uma das suas habilidades é fazerem crer aos turistas de passagem que o seu país se aproxima do paraíso. Atitude que parece que muda radicalmente no momento imediato em que tomam consciência de que o estrangeiro veio para ficar. Porque é claro que se trata de uma ilusão. As ilusões, porém, também são factos, e dão encanto e mistério à vida humana. Só posso, pois, estar reconhecida ao Japão em geral e aos meus amigos japoneses em particular que, com a sua mestria na arte de iludir, a sua infinita paciência e inexcedível amabilidade, me levaram a usufruir do seu país – sempre fascinante e sugestivo para olhos ocidentais – como se caminhasse num sonho.

EM OMACHI, DISTRITO DE SAGA – No primeiro dia de Julho de 1991, o Hide e eu tomámos o avião que liga Pequim à cidade japonesa de Fukuoka, na ilha de Kyushu.
Pelo fim da tarde, atingíamos Omachi, a aldeiazinha que abrigava a casa de Hide. A casa de Hide era também um templo dedicado ao grande mestre Kukai (sécs. VIII-XIX d.C.), o fundador da corrente Shingon (Palavra Pura) do budismo, além de calígrafo, poeta e artista. Formado em Filosofia Ocidental com uma tese sobre Nietzsche, o pai do Hide seguiu a tradição familiar e tornou-se monge budista. O seu filho, um dia, sucedê-lo-ia.
A casa-templo da família, como seria de esperar, era um exemplo de arquitectura tradicional japonesa, com amplos espaços em comunicação com um jardim exterior. Tudo era madeira e bambu, uma rara sensação de frescura no calor tórrido de Kyushu, uma das quatro ilhas principais do arquipélago. O Japão é, por excelência, o país da madeira e do bambu. Utilizam estes materiais com tal mestria que transformam os artefactos mais prosaicos em objectos estéticos de enorme delicadeza: vedações, portõezinhos, torneirinhas.
Era a primeira vez que vivia com uma família japonesa, numa casa japonesa. Comer em mesas baixas, dormir sobre o tatami (as esteiras que cobrem o chão das casas japonesas), correr – e não abrir – as portas shoji e janelas onde o vidro é substituído pelo papel, tudo eram gestos com sabor a descoberta.
Acordava às sete da manhã ao som das rezas budistas do Hide e do pai, que se evolavam até mim vindas do altar a Buda: Namuamida! Namuamida!
Habituei-me ainda ao modo nipónico de tomar banho. Utilizam para se esfregar, não esponjas, mas toalhitas e sentam-se em banquinhos minúsculos. Por isso, o chuveiro está colocado a um nível muito baixo, como se fosse servir uma criança. Existe ainda o furo, uma espécie de banho de imersão a ferver para relaxar após o duche. A mesma água é sucessivamente usada por todos os membros da família, o que se compreende porque primeiro lavaram-se no duche. O furo reveste-se de importância ritual para os japoneses e é-lhes difícil entender a facilidade com que os ocidentais o dispensam. O banho é um rito que se paga nos famosos onsen, ou hot-springs. Como bons japoneses, a família do Hide rejubilava com uma ida a um onsen. Certo dia, após uma escalada aventurosa a uma montanha de Omachi, entre cerradas concentrações de bambus, também os acompanhei a um onsen em Ureshi-no, seguido de um kari-raice (caril rice) em Takeo.
Passava quase todos os dias por Takeo, nos passeios de carro com o Hide. Em Takeo eu comprava gelados e o Hide alugava C.D.’s dos Southern All Stars, o nosso grupo rock japonês preferido, o que teve maior sucesso e mais duradouro no país. Descrevem-nos como os Beatles japoneses. Agora já entraram na fase de declínio. Eu e os meus amigos japoneses éramos todos fãs dos Southern All Stars.
Íamos a Fukuoka, a maior cidade da ilha de Kyushu e um porto internacional há vários séculos, com uma longa tradição de trocas comerciais com a China e a Coreia. Há quem afirme que é a cidade mais velha do Japão, devido a essa proximidade com o continente. Foi o local escolhido pelos mongóis de Cublai Cã para as invasões do Japão no séc. XIII. A palavra kamikaze, associada hoje em dia aos pilotos suicidas da Segunda Guerra Mundial, foi usada nessa época para designar o tufão que obrigou os Mongóis a recuar, salvando os japoneses, que estavam em séria desvantagem numérica. Kamikaze significa “vento divino”.
Agora, porém, Fukuoka é uma grande cidade moderna, de onde é originária a maioria dos músicos pop do país. Ia com o Hide aos enormes depato (centros comerciais) e passávamos horas nas suas longas livrarias. As livrarias japonesas não deixam de ser uma experiência porque, para os olhos estrangeiros, as capas dos livros japoneses parecem todas indicar tratar-se de obras destinadas a crianças e adolescentes. Exibem desenhos multicolores semelhantes aos das manga, com rostos e expressões estereotipadas. Como é sabido, a par do requinte tradicional, os japoneses cultivam ainda um gosto acerbo pelo kitsch e pelo infantilizante, o kawaii (o amoroso, o queridinho, o fofinho). Kawaii é, de longe, o adjectivo favorito dos nipónicos.
As manga são consumidas às toneladas. Por toda a parte, no Metro, no autocarro, os japoneses dos 7 aos 77 anos enfiam o nariz nos seus calhamaços de manga. A maior parte deles são editados em papel reciclado, pois a prática comum é lê-los e deitá-los fora.
Nos depato as atracções eram muitas. Só por si, a secção de electrónica era um espectáculo. Nas agências de viagem, os clientes sentavam-se a ver vídeos (a era DVD ainda não chegara) sobre os países que desejassem conhecer.
Regressávamos ao fim do dia em camionetas luxuosas, o comum no Japão. Os carros e camionetas eram muito modernos e impecavelmente limpos, brancos na sua maioria. Os japoneses preferem carros brancos (o branco é uma cor estimada, em geral) porque, assim, a sujidade não passa desapercebida. Não a querem disfarçar, querem eliminá-la. Deslizávamos por auto-estradas, túneis sem fim e inúmeras portagens (os japoneses pagam caro a qualidade da sua rede rodoviária). Nas auto-estradas, o ambiente é de ficção científica, tal é o papel da electrónica. Reentrar, após uma viagem, no interior das casas de madeira com o chão coberto de tatami é um contraste inesquecível. Tornou-se um lugar-comum afirmar que o Japão é um país e contrastes, mas continua a ser verdade.
Em Arita visitámos o templo do avô do Hide e apreciámos exposições da louça da região. A cerâmica de Arita, com cerca de 400 anos, sobretudo a de motivos azuis sobre fundo branco, é famosa no mundo inteiro. E visitámos Sasebo, a praia de Shirahama e o mar barrento de Ariakekai, onde, segundo me informou o Hide, habitam espécies marinhas raras. Entre Sasebo e Hirado, existe uma cena natural maravilhosa, as 99 ilhas verdejantes de Kujukushima. Na verdade, são 208 ilhas espalhadas por vinte e cinco quilómetros.
À noite lia o Budô Shoshinshu (“Manual de Iniciação à Via do Guerreiro”), de Daidoji Yuzan Shigesuke e o Hagakure (“Por detrás da folhagem” ou “À sombra das folhas”) de Yamamoto Tsunetomo, dois célebres códigos de honra dos samurais. O Hagakure foi escrito precisamente em Saga, pois Yamamoto aí nasceu em 1659. Nessas obras capta-se a essência do espírito samurai que, de algum modo, impregnará ainda o Japão actual: “A Via do Guerreiro é realizada na presença da morte. (…) A Via do Guerreiro é-o em desespero. (…) Os grandes empreendimentos não podem ser levados a cabo com sensatez. Há que tornar-se louco e desesperado.”

Um dia, o pai do Hide, monge aficcionado do golf (o golf era então a última obsessão japonesa e um meio de promoção social) e, sobretudo, do jogo (o mahjong), levou-nos a Takeo para ver jogar pachinko. Nos salões de pachinko reina uma barulheira e uma iluminação estonteantes. No entanto, os jogadores sentam-se frente às máquinas em profunda concentração.
Estreei-me num restaurante japonês típico, onde comemos sentados sobre tatami e as refeições eram servidas em caixas finamente decoradas. Envergando um quimono, o dono do restaurante recebia os clientes, saudando-os com vénias.

Omachi é uma aldeiazinha simpática. Tudo parece de brinquedo, um conjunto de construções infantis. Casinhas frágeis e ruazinhas sempre cheias de bandeiras coloridas a publicitar os mais variados produtos (cerveja Kirin, etc.). Mas possui alguns santuários xintoístas e templos budistas, um dos quais era o templo zen onde o Hide aprendera a fazer zazen (meditação zen) antes ainda de ingressar na escola primária. Nos arredores de Omachi encontram-se imensos arrozais onde brancas garças esvoaçam. Dispersas, belíssimas moradias de madeira, algumas rematadas com tectos de colmo. De um lado, avistam-se montanhas ao longe; do outro, avista-se ao longe o mar. E, encimando tudo, o revolto céu do Japão, paleta de cor em movimento.

Quando me preparava para deixar Kyushu, fui convidada pelo Rotary Club, do qual o pai do Hide era membro, para o seu almoço mensal. Estavam presentes os 50 membros do clube – todos homens. A única mulher, além de mim, era uma senhora encarregada de preparar as mesas. Eu, claro, era a única estrangeira. Os membros do clube principiaram por cantar o hino do Rotary Club. De seguida, divulgaram os resultados das partidas de golf disputadas entre eles durante o mês anterior e recordaram os aniversários que se aproximavam. Após o almoço, fui chamada ao púlpito. De microfone à frente, houve que responder às perguntas dos presentes: onde fica Portugal? A língua nacional é o inglês? Qual é a sua opinião sobre o Japão? Podia falar-nos um pouco da história de Portugal? À despedida, o Rotary Club da aldeia de Omachi ofereceu-me uma esferográfica Mont Blanc.

A casa-templo do Hide-san: sala.




A casa-templo do Hide-san: tokonoma (a parte sagrada da sala).



A casa-templo do Hide-san: corredor.


A casa-templo do Hide-san: o bambu através das janelas.

Imagem de Kukai no jardim da casa-templo do Hide. Omachi, Saga-ken.

Hide-san.


O pai e a mãe do Hide-san.


Omachi.



Omachi.


Omachi.



Casa em construção. Omachi.


Torii. Omachi.


Rua de Omachi.

Bambu. Omachi.


Riacho. Omachi.

Mansão em Saga-ken.


Casa de Saga-ken.


Casa de Saga-ken.


Templo zen. Saga-ken.


Sino no mesmo templo.


Pequenos deuses com oferendas na Cascata da Longa-vida. Saga-ken.

Salão de pachinko em Takeo. em primeiro plano, o pai do Hide.


Salão de pachinko em Takeo.

Sasebo: a praia de Shirahama.


Miradouro das 99 ilhas, perto de Sasebo.
As 99 ilhas.



As 99 ilhas.

NAGASAKI – No meu segundo dia no Japão, fui sozinha à cidade para mim mais comovente do país: Nagasaki. Nagasaki situa-se muito perto do distrito de Saga. Claro que foi uma das cidades-vítima de uma das bombas atómicas. Claro que é o local onde se desenrola a acção da ópera de Puccini, “Madame Butterfly”. Mas Nagasaki foi ainda o porto mais importante das trocas comerciais entre Portugal e o Japão – através do entreposto de Macau – após a nossa “descoberta” daquele. Foi fundada em 1500 mas só ganhou importância histórica depois da chegada dos portugueses em 1542. Os nossos antepassados estabeleceram ali o seu posto comercial em 1571. Durante um curto período de tempo do Japão medieval, a cidade foi uma colónia jesuíta. Os jesuítas detinham o controle administrativo e militar. A feroz resposta ao domínio ocidental da área do general Hideyoshi Toyotomi, que unificou o Japão no séc. XVI, encontra-se bem patente no Museu dos 26 Mártires Cristãos- convertidos e missionários-, mandados crucificar por ele em 5 de Fevereiro de 1596. Tornaram-se, assim, nos primeiros mártires da Igreja no Japão. Todavia, ainda hoje Nagasaki permanece a cidade mais cristã do país. Estando tão longe de Portugal, foi com comoção que deparei, logo à entrada, com um vitral representando o Infante Dom Henrique. Na bilheteira, havia uma bandeira de Portugal e uma fotografia ampliada de um grupo de japoneses frente à Torre de Belém. O museu contava com várias relíquias portuguesas. A que mais me emocionou foi o grande chapéu negro que pertencera a um português do séc. XVI. Podia ver-se diversas estátuas de São Francisco Xavier e reproduções de caravelas portuguesas.
Quantas ressonâncias provoca Nagasaki numa alma portuguesa! Foi naquela cidade que veio a falecer, em 1532, o lisboeta Luís Fróis, missionário e primeiro historiador ocidental do Japão – o autor da “História de Japam”. O Padre Luís Fróis desembarcou no Japão em 1563 e viria a desenvolver a sua acção em Tokushima (onde viveria, quatro séculos depois, outro português, o escritor Wenceslau de Moraes), Kyoto e Oita. Nagasaki evoca sobretudo João Rodrigues, o Intérprete, que chegou ao Japão em 1577, com vinte anos de idade, e ali permaneceria até 1610. João Rodrigues, missionário e Procurador da Missão, foi ainda intérprete (aprendeu japonês com enorme facilidade) de Hideyoshi Toyotomi e de Oda Nobunaga, tendo como difícil função conciliar os interesses dos vultos mais poderosas da sociedade japonesa com os dos mercadores portugueses de Nagasaki. Nesta cidade foi publicada pela primeira vez a obra deste homem-ponte entre dois mundos, a “Gramática Portuguesa da Língua Japonesa”. Ainda hoje dela se socorrem os estudiosos japoneses para investigar a sua própria língua, tal como era no séc. XVI!
A ilha de Kyushu, onde se situam Nagasaki e Fukuoka, testemunha em pleno a grandeza desses bravos portugueses de outrora. Em Oita, na costa leste, exerceu a sua profissão durante anos o médico jesuíta lisboeta Luís de Almeida. Mal chegou a Oita, cujo nome então era Funai, impressionado com a alta mortalidade infantil provocada por alimentação deficiente, mandou construir uma creche com uma vacaria anexa. Em 1556, o ano seguinte, criou o primeiro hospital japonês de medicina ocidental. Mais tarde, fundou uma escola de medicina. Deste modo, os portugueses introduziram no Japão, entre muitas outras coisas, a espingarda, que mata, e a medicina, que cura; a acção missionária, mas também a acção científica. O hospital então erguido era grande, com leprosaria, orfanato e sala de operações. Luís de Almeida era também cirurgião; os portugueses desenvolveram sobretudo a cirurgia no Japão. O seu trabalho e o dos demais médicos portugueses em prol da humanidade sofredora e do desenvolvimento da ciência criaram raízes fundas no coração dos Japoneses. A estima destes pelos portugueses ainda não esmoreceu. No entanto, que pouco faz Portugal para não deixar que isso aconteça! Mete dó encontrar tantos japoneses, sobretudo nas províncias, que desconhecem que Portugal ainda existe, que há descendentes dos portugueses que estimaram e que a língua portuguesa sobreviveu! O proverbial desleixo consigo próprio de Portugal, tornando-o naquilo que não é, um país obscuro e irrelevante na cena mundial! A Índia e o Japão, dois países hoje de importância crucial, são precisamente aqueles onde mais se projectou a acção pioneira portuguesa do séc. XVI. As maiores contribuições científicas do Japão registam-se no campo da medicina ocidental e foram os portugueses que a deram lá a conhecer.
Em Oita existe o Hospital Luís de Almeida, assim como um busto seu. Oita possui uma série de monumentos aos portugueses como, no principal jardim da cidade, uma estátua com jesuítas a ensinar música a jovens japoneses e um monumento a Francisco Xavier, que ali chegou em 1551.
Passeei em seguida pela área adjacente ao museu, visitando pequenos santuários xintoístas e cemitérios budistas, avistando o porto com as suas embarcações de mastros embandeirados.
Hoje em dia, apesar da ferida infligida nos anos 40 do séc. XX, Nagasaki é uma cidade aprazível, com algumas calçadas à portuguesa e uma enorme estátua de Kannon, a Deusa da Misericórdia, o Avalokistewara dos hindus.
Evitando embora expressar-se em inglês, a população de Nagasaki foi extremamente prestável a indicar-me o caminho, como é vulgar entre os japoneses, capazes de puxar de uma caneta e de uma folha papel e nela desenhar o percurso a seguir com uma precisão milimétrica.
Cheguei assim ao epicentro da bomba atómica. É um local desolador: a areia ganhou um tom metálico e sombrio. Nos arredores, situa-se o Museu da Bomba Atómica. Um museu onde o horror foi colocado em vitrinas, exposto até ao mais ínfimo pormenor. 9 de Agosto de 1945. 11 horas e 2 minutos da manhã. 73 884 mortos. 74 909 feridos. 12 820 doentes crónicos. As educadas crianças japonesas, suplicavam por água e, quando lha davam, murmuravam arigato antes de morrer! A sua última palavra: obrigado. Estranhamente, pareceu-me que os poucos visitantes daquele dia olhavam o Museu com ar distraído.
Para descomprimir, visitei a Chinatown. As Chinatowns são raras no Japão e os artigos que eu comprava na China a tostão (eu vivia então em Pequim) vendiam-se por ali ao triplo do preço de origem.


Nagasaki e o seu porto.


As suaves colinas de Nagasaki.


Ruela de Nagasaki.



Janela. Nagasaki.


À porta de uma loja estava este boneco representando um nanbanjin, um português do séc. XVI. Nagasaki.


Igreja dos 26 Mátires Cristãos. Nagasaki.



Museu dos 26 Mártires Cristãos: as 26 figuras encontram-se esculpidas à entrada do museu. Nagasaki.


Entre os 26 mártires encontravam-se três adolescentes. Nagasaki.


Museu dos 26 Mártires Cristãos: lista de mártires portugueses em Nishizaka. Nagasaki.


Museu dos 26 Mártires Cristãos: pintura representando a crucificação dos mártires. Nagasaki.


Imagem de São Francisco Xavier.

Museu dos 26 Mártires Cristãos: modelos das embarcações portuguesas das rotas comerciais com o Japão. Nagasaki.

Museu dos 26 Mártires Cristãos: vitral representando o Infante Dom Henrique. Nagasaki.



Museu dos 26 Mártires Cristãos: chapéu nanban, provavelmente pertencente a um comerciante português. Nagasaki.

Estátua de Kannon, a deusa da Misericórdia. Nagasaki.





No epicentro da bomba atómica de Nagasaki.

Rua da Chinatown de Nagasaki.
TANEGASHIMA – Escolhi Julho para começar as minhas viagens pelo Japão porque tinha o sonho antigo de assistir ao Festival da Espingarda (Teppô Matsuri) em honra aos portugueses que, nessa pequena ilha do sul do país, deram a conhecer a existência da espingarda aos japoneses. E isso transformaria para sempre o país. O festival realiza-se anualmente no último fim-de-semana de Julho.

Hide e eu tomámos o comboio JR (a única companhia a operar em Kyushu) para Kagoshima, a cidade no extremo sul da ilha, com o seu vulcão Sakurajima sempre a fumegar frente ao porto. Foi em Kagoshima que desembarcou São Francisco Xavier, o fundador da cristandade no Japão, em 1549. Chegámos de madrugada e, poucas horas depois, subíamos a bordo do ferry-boat para Nishino-omote, a principal cidade de Tanegashima. Para entrar no ferry-boat formara-se uma bicha compacta e desordenada, como se a influência portuguesa começasse desde ali a fazer-se sentir.
A viagem de barco de mais de quatro horas foi surpreendentemente enriquecedora. Os passageiros sentavam-se no chão, depois de descalçarem os sapatos num estreito corredor. De súbito, senti-me perto da vida japonesa, pois presenciei naquele espaço fechado e apinhado de famílias muitos desses pequenos gestos e atitudes que unem e tornam semelhante toda a humanidade. Mães gorduchas e risonhas que despiam o seu próprio casaco para cobrir os filhos adormecidos; mães cansadas estendidas ao lado dos bebés; crianças a pedincharem dinheiro para comprar guloseimas; pais embevecidos com as pequenas proezas dos seus filhos; homens a jogar cartas; bebés chorando por colo. Era a vida comprimida num barco.
Mesmo em frente do porto de Nishino-omote tive uma surpresa. Havia uma estátua representando a figura do Infante, no meio de um tanque artificial. Era, como se podia ler em japonês e português numa placa de azulejos, a Praça da Amizade Japão-Portugal.
O dono do minshuku (pequena estalagem privada) onde ficámos instalados veio buscar-nos ao porto na sua carrinha, pois chovia torrencialmente. Suspeitava-se da aproximação de um tufão.
Depois de nos termos desenvencilhado das mochilas no minshuku, saímos para a rua. Por todo a parte, havia bandeirinhas de Portugal e do Japão, colocadas lado a lado. Nas montras viam-se cartazes a anunciar o festival e também a Fesuta Porutogaru (Festa Portugal), o espectáculo de domingo à noite com a participação de Rão Kyao e outros artistas portugueses (fadistas e um rancho folclórico). Não podia crer que eu, que nunca tinha ido a um concerto do Rão Kyao em Portugal, o fosse afinal ver nas remotas paragens de Tanegashima!
Na primeira loja de recordações em que entrámos, deparámos logo com o dono – um japonês muito típico, de pernas arqueadas – e a sua mulher, envergando t-shirts portuguesas com o Galo de Barcelos e uma caravela estampados!
Dirigimo-nos para o Museu da Espingarda, cujo edifício tem a forma de uma lorcha, uma embarcação que é um híbrido de navio português e junco chinês. Mal entrei vi o Rão Kyao, que acabara precisamente de visitar o museu.
Em especial para um português, o Museu da Espingarda é fantástico. Pode ver-se uma espingarda portuguesa da época em que os portugueses chegaram à ilha e a réplica que dela fizeram os japoneses. No espaço de um ano, tinham invadido todo o território. Há um palcozinho giratório, onde marionetas mecanizadas vão ilustrando a história da chegada de Fernão Mendes Pinto à ilha, o seu encontro com o jovem daimyo de 16 anos, Tokikata, e a paixão entre a filha do ferreiro que forjou a primeira espingarda japonesa e o próprio Fernão Mendes Pinto (trata-se de uma lenda sem confirmação histórica; Fernão Mendes Pinto parece não ter estado presente nesse encontro inicial, embora lá tenha ido pouco depois). E mostram-se exemplares das armaduras reforçadas que os samurais passaram a usar após a introdução da espingarda no país. Numa sala, podemos deleitar-nos com espingardas de todo o mundo.
No dia seguinte, domingo, havia os desfiles. Mas o Hide começou a sentir-se mal e teve de ficar no minshuku. Tudo começou com uma demorada cerimónia xintoísta num pequeno santuário, que contou com a presença do embaixador português no Japão. Além dele, de mais um ou dois membros da embaixada e do Rão Kyao e demais artistas, era eu a única portuguesa em Nishino-omote. A meio da manhã, surgiram três americanos. A presença de portugueses é infelizmente tão rara naquele festival e naquela ilha que, quando eu passava, a multidão sussurrava: amerikajin (americana)!
O desfile da manhã era sobretudo constituído pelos padres xintoístas e por vários omikoshi, altares ambulantes, um dos quais encimava um tambor no qual dois homens batiam, frenéticos, dando gritos selvagens. Eram seguidos pelos carregadores, todos homens e vestindo muito sumariamente de branco. A dada altura, os carregadores viravam o omikoshi para um lado e os carregadores do lado oposto trepavam para cima dele num ápice. De quando em vez, pequenas tendas debruavam as bermas dos caminhos: ofereciam chá, água, onigiri e rebuçados aos participantes no desfile. Como eu era a única estrangeira por ali, também me ofereciam de tudo.
Havia também um homem vestido de Tengu. Os Tengu são deuses menores, ligados tanto à mitologia budista quanto à mitologia xintoísta. São os patronos das artes marciais. Este era um Yamabushi Tengu (um Tengu monge das montanhas), que habita nas montanhas densas de pinheiros e hinoki (nogueira japonesa), essa árvore fabulosa de folhas em leque que tanto se vê no Japão. Os Yamabushi Tengu reconhecem-se pelo enorme nariz, que simboliza o seu ódio aos preconceituosos e aos arrogantes.
Entre a multidão apinhada nas bermas das ruas, muita gente empunhava bandeirinhas de Portugal. Enquanto eu passava, preocupada em fotografar a par e passo o desfile, ia ouvindo gritinhos furtivos de gaijin! (estrangeira). Os habitantes de Tanegashima não estão acostumados a ver estrangeiros.
À hora do almoço deu-se um acontecimento inesperado. Caminhava eu com um gelado de chocolate na mão, quando uma senhora de quimono me interpelou. De tudo quanto ela me disse só percebi “ocha ocha” (eu tinha havia pouco tempo apenas começado a aprender japonês), e apontava para uma porta ao lado. Em face de tanta insistência, resolvi aceder a tomar a tal chávena de chá. Fui recebida por um senhor de meia-idade, envergando um elegante quimono negro e que me fez repetidas vénias. Confusa, consegui distinguir atrás dele vários casais, todos muitíssimo distintos nos seus quimonos. O senhor encaminhou-me para uma mesinha e fez-me sentar. Lancei uma olhadela para trás de mim: os casais tinham-se sentado em longas mesas dispostas horizontalmente. Falando-me sempre em japonês, o senhor levou consigo o meu gelado de chocolate. Compreendi uma palavra: hazukashii (“não fica bem”, “é vergonhoso”). Reparei numa mesa colocada perpendicularmente à minha. Uma senhora de quimono, dando pequenos passinhos estudados, dirigiu-se a ela. E foi assim que começou a minha gloriosa participação num chado (cerimónia do chá), sentada no lugar de honra! Quando dei por ela, já era tarde demais… Ainda por cima, havia fotógrafos e uma câmara de televisão! A minha ignorância iria ser filmada!
Após complicados e ritualistas gestos em volta de uma taça de chá, a senhora ergueu-se e, nos seus passinhos miúdos, veio na minha direcção. Curvou-se numa profunda vénia e colocou-me à frente uma espécie de biscoito (okashi). Engoli o biscoito, esperando que fosse a única coisa possível de se fazer com um biscoito. Nova vénia e a senhora ofereceu-me então a taça de chá que estivera a preparar tão aturadamente. Nervosa, olhei à minha volta. Acudiu-me o senhor do quimono negro. Pegou nas minhas mãos e fê-las voltear várias vezes a taça, lançando-me uma catadupa de instruções em japonês. Por fim, pude, em três ou quatro goles rituais, beber o verde e amargo chá japonês. Durante todo o processo, as câmaras disparavam sobre mim. De novo o senhor do quimono negro tomou as minhas mãos e fê-las voltear a taça. A senhora veio então buscá-la, o que constituiu para mim enorme alívio. Nessa altura, surgiram duas meninas que principiaram a servir os casais, até ali aguardando que eu – convidada de honra de pólo e calções – terminasse de beber o meu chá. Quando me foi possível escapar dali, entre vénias vindas de todos os lados e casais com quimonos estonteantes, lancei-me de novo, meia zonza, às ruas de Nishino-omote. E que vergonha a redobrar ao descobrir, no reflexo de uma montra, que a minha cara estava completamente borrada de gelado de chocolate! Ficaria traumatizada com a cerimónia do chá, se não tivesse regressado ao Japão no ano seguinte e participado em mais duas, sem ser convidada de honra e sem gelado de chocolate!
Pela tarde houve o desfile nanban (à letra, “bárbaros do sul”, termo que designava os portugueses). É divertidíssimo, em especial para um português. Iniciou-se com vários grupos de homens vestidos como antigos artilheiros. Competindo entre si, dispararam espingardas que eram réplicas das que os portugueses lhes mostraram em 1543.
O encontro em Tanegashima dos lusitanos e dos nipónicos e subsequente introdução da espingarda foi um acontecimento crucial na história do Japão. A palavra Tanegashima passou a ser de uso coloquial no Japão para designar qualquer espingarda. A alma do samurai era a sua espada. A guerra da espada era honrosa. Mas eis que surgiu um instrumento que disparava balas e matava à distância. Os samurais conservadores pareciam incapazes de o aceitar. No entanto, a espingarda abriu o seu caminho e a guerra no Japão nunca mais foi a mesma.
Duas enormes caravelas pintadas com a palavra “Macau”, reproduziam as do tempo das grandes navegações. Automóveis camuflados no seu interior transportavam-nas pelas ruas da cidade. Numa das caravelas via-se um grupo de japoneses adultos com trajes a imitar os dos navegadores de outrora – um representava Fernão Mendes Pinto, outro o capitão, um terceiro o intérprete chinês; e uma rapariga de quimono era a namorada de Fernão Mendes Pinto. Na outra caravela, as personagens eram as mesmas mas em versão infantil: os tripulantes eram crianças.
Em volta das caravelas pululavam muitos rapazes vestidos à moda dos portugueses de antanho, empunhando as espingardas. As indumentárias faziam rir qualquer um. Pareciam antes palhaços. Mas realmente, as vestes daquela época tinham certo ar apalhaçado. Havia ainda a comitiva dos “chineses” (o comércio com o Japão fazia-se através do entreposto de Macau), sempre a lançar foguetes; a comitiva dos arqueiros japoneses, com lindas vestes largas; a comitiva de mulheres que dançavam o bon-odori de Tanegashima, etc. A cavalo deslocava-se o jovem daimyo Tokikata que teria recebido Mendes Pinto; atrás, o ferreiro que forjara a primeira réplica japonesa da espingarda. E muitos outros grupos, cada qual com seu propósito. O desfile terminou com uma nova competição entre os artilheiros.
Um grupo de garotas entre os nove e os onze anos rodeou-me. Começaram a falar comigo através de perguntas simples. Era óbvio que nunca tinham estado tão próximas de um ocidental. Tocavam-me nos cabelos para ver se eram de verdade; faziam-me cócegas e davam-me beliscões para verificar se eu reagia de modo idêntico aos japoneses; testaram a minha agilidade manual. Pediam-me que as acompanhasse aqui e ali, decerto por lugares onde desejavam ser vistas, e deitavam a língua de fora às outras crianças que passavam, orgulhosas do seu troféu.
À tardinha, começou a Festa Portugal. Rodeada pelas rapariguinhas, era eu a única estrangeira entre a assistência. O Hide sentia-se melhor e juntara-se a nós. Rão Kyao e a sua banda subiram ao palco todos de vestes brancas à indiana. Ver rostos portugueses naquele recanto do mundo! E ouvir a bela língua portuguesa a ressoar no auditório! Excelente espectáculo. Quando o concerto terminou e me encaminhei para o minshuku, as melodias do meu país, reavivadas na minha memória, ainda se faziam ouvir por dentro de mim. Principiara a chover.
A chuva era provocada pela aproximação do tufão. No dia seguinte não pudemos regressar a Kagoshima. Ficámos retidos em Nishino-omote. Foi o primeiro tufão da minha vida.
Este não é o único festival de temática portuguesa no Japão. Realiza-se um outro em Nagasaki.
Quando regressei a Portugal resolvi enviar o relato da minha experiência em Tanegashima à Associação de Amizade Portugal-Japão. O Dr. Pedro Canavarro, muito simpaticamente, acusou a recepção do texto e das fotografias. No ano seguinte, na Universidade de Línguas Estrangeiras de Kyoto, qual não é a minha surpresa ao deparar com o Dr. Pedro Canavarro, a Dra. Helena Vaz da Silva – então Directora do Centro Nacional de Cultura - e demais comitiva a caminho do Festival da Espingarda, iniciativa tomada no âmbito das comemorações dos 450 anos da chegada dos portugueses ao Japão. Fiquei muito feliz por, nesse ano, ao contrário do anterior, o povo de Tanegashima poder comemorar o seu festival contando com bastante mais presença portuguesa.












A Praça da Amizade Japão-Portugal em Nishino-omote, Tanegashima.
Estátua do Senhor Tokikata. Nishino-omote, Tanegashima.


O Museu da Espingarda de Tanegashima, em forma de lorcha, embarcação luso-chinesa. Reparar nas bandeiras de Portugal e do Japão no topo do edifício.



Interior do Museu da Espingarda de Tanegashima: à esquerda uma espingarda portuguesa do séc. XVI; à direita, uma réplica japonesa.

Interior do Museu da Espingarda de Tanegashima: armadura samurai reforçada com tiras metálicas, após a introdução da espingarda no Japão pelos portugueses.


Bebé de Tanegashima vestido a preceito para o Festival da Espingarda em honra dos portugueses.






Espectadores do Festival da Espingarda empunhando bandeiras de Portugal.

Dono de loja de recordações em Noshino-omote, Tanegashima, onde se vendem réplicas das espingardas portuguesas (entre outros artigos), envergando uma t-shirt com o Galo de Barcelos.

Espectador do Festival da Espingarda vestido "à português". Nishino-omote, Tanegashima.

As montras engalanadas com bandeiras portuguesas. Nichino-omote, Tanegashima.


Mural numa rua de Nishino-omote, Tanegashima, representando a chegada dos portugueses ao Japão, trazendo espingardas.



Bandeiras como esta, anunciando o Festival da Espingarda, encontravam-se em todas as ruas de Nishino-omote, Tanegashima.



Santuário xintoísta onde começaram as comemorações da chegada dos portugueses à ilha de Tanegashima.



Cerimónia xintoísta no mesmo santuário.


Uma bandeira de Portugal flutuava ao lado do santuário.

Meninas de Tanegashima participando no Festival da Espingarda.


Raparigas de Tanegashima tocando tambor e shamisen no Festival da Espingarda.
Desfile da manhã do Festival da Espingarda de Tanegashima:



Padres xintoístas.



Padres xintoístas com omikoshi (andor).

Yamabushi Tengu.



As incríveis geta do Yamabushi Tengu.

Desfile da manhã do Festival da Espingarda de Tanegashima:



Crianças carregando um omikoshi (andor).


Crianças fingindo disparar espingardas portuguesas.


Crianças transportando uma versão gigante da espingarda portuguesa.


Desfile de homens adultos.



Exibições acrobáticas do desfile dos homens adultos.


Competição de barcos-dragão no Festival da Espingarda de Tanegashima.


Cerimónia do chá no Festival da Espingarda de Tanegashima.
Preparando-se para a competição de pontaria com réplicas da espingarda introduzida pelos portugueses em 1543, no Festival da Espingarda de Tanegashima:









Competição de pontaria com réplicas da espingarda introduzida pelos portugueses em 1543 no Festival da Espingarda de Tanegashima:







Desfile do Festival da Espingarda de Tanegashima:



Carregando uma versão gigante da espingarda portuguesa.

Guerreiros japoneses com espingardas.


Guerreiros japoneses com espingardas.


Guerreiros japoneses com espingardas.


Arqueiros.

16 Dezembro, 2006

Desfile Nanban do Festival da espingarda de Tanegashima:



Navio português.



A namorada de Fernão Mendes Pinto, o capitão do navio, Fernão Mendes Pinto e comerciante chinês.

As mesmas personagens em versão infantil.


O navio português com a bandeira actual.

O Desfile Nanban do Festival da Espingarda de Tanegashima:




Os "Portugueses", com as suas vestes espalhafatosas.

Jovem "Português."




Os "Portugueses".

Os "Bárbaros do Sul".


Os "Chineses".

Continuação da parada do Festival da Espingarda de Tanegashima:





O Senhor Tokikata.


Os arqueiros.


As mulheres.







O Bon-odori de Tanegashima.

As minhas amigas de Nishino-omote, Tanegashima.

15 Dezembro, 2006

OSAKA – Era a primeira noite de Agosto e eu despedia-me da família Hide. Tomei uma camioneta para Osaka. No dia seguinte, chegava à cidade, onde me aguardava, vinda de Nara, a minha amiga Yoshida Naoko. E ainda não eram sete da manhã! Fomos tomar o pequeno-almoço e pôr a conversa em dia. A seguir, tratar de formalidades no consulado da China. Finalmente livres, tínhamos umas horas para ver Osaka, pois passaríamos a morar em Kyoto a partir dessa noite. Osaka é uma cidade gigante, de cimento e betão, um pouco como Tóquio e, como este, cenário de muitas reviravoltas históricas. Sendo uma cidade portuária, a sua tradição comercial é longa, mas distingue-se também em áreas culturais como o teatro kabuki e o bunraku, o teatro de marionetas. O Metro é o mesmo labirinto de linhas públicas e privadas com que se depara em Tóquio. Claro que a compra e verificação dos bilhetes é automatizada, mas perde-se tempo, por outro lado, a decifrar as linhas nos mapas das redes, isto até para os próprios japoneses.
O castelo de Osaka é uma construção moderna – após a Segunda Guerra Mundial – modelada pela antiga de 1590, apenas oito anos antes da morte de Hideyoshi Toyotomi. No seu tempo foi o mais formidável dos castelos samurai. Foi construído sobre as ruínas dos domínios da seita budista Jodo Shinshu, o templo Ishiyama Hoganji. Por sua vez, este havia sido construído sobre as ruínas do velho Palácio Imperial de Nanion, o antigo nome de Osaka. Em 1570, Oda Nobunaga, o estupendo conquistador do Japão, começou um cerco ao templo que duraria dez anos, até que foi arrasado e Hideyoshi ergueu então o seu castelo. Visto do exterior, não deixa de impressionar mas, no interior, transformado em museu, os visitantes deslocam-se de… elevador. Plantado a meio de um parque, construíram arranha-céus descomunais à sua volta. Havia uma exposição sobre a vida de Hideyoshi, a sua meteórica ascensão social e feitos de guerra. Existe também um biombo (palavra derivada do japonês byobo) nanban mostrando comerciantes portugueses em poses descontraídas, junto dos seus navios ancorados no porto (provavelmente Nagasaki). O ponto focal de um castelo (shiro) japonês é o tenshukaku, a torre, e o seu ponto forte a fundação de argamassa e lajes da base. O tenshukaku era não só o símbolo do poder do daimyo que lá residia. Sobreviveram apenas doze tenshukaku originais até ao nosso tempo.
Era agradável passear no parque adjacente, pesando embora os zumbidos infernais das cigarras. As cigarras japonesas devem ter as gargantas mais possantes da espécie e zumbem ferozmente a intervalos regulares durante todo o Verão. As suas carcaças povoam o chão como folhas de Outono. São tantas e tão competitivas que chega a ser difícil conversar tendo como ruído de fundo o seu estridente cantar. Os japoneses, esses, parece estarem habituados e as crianças adoram persegui-las, munidas de redes. Passear entre as sombras das árvores era uma bênção. O calor era tórrido e húmido. Trata-se de um arquipélago e a água nunca anda muito longe. Igual bênção eram as máquinas automáticas de vender bebidas. Há-as no Japão de cinco em cinco metros, vendendo toda a espécie de bebidas a troco do depósito de uma moeda; há também as que vendem snacks, cigarros, gelados, revistas pornográficas, manga e até roupa interior.
Num pavilhão desportivo, desenrolava-se uma competição inter-escolas de Kendo (a Via da Espada) e Judo (a Via Suave). O fascínio do Kendo provém do facto de ser inspirado na arte da espada dos antigos samurais.
Foi com este passeio que deixámos Osaka e tomámos o comboio para Kyoto.




Duas vistas do Castelo de Osaka.








Mais vistas do Castelo de Osaka.


Museu do Castelo de Osaka: biombo nanban.


Museu do Castelo de Osaka: Hideyoshi Toyotomi.



Museu do Castelo de Osaka: armadura samurai.


Exibição de kendo. Castelo de Osaka.


Jardim do Castelo de Osaka.
KYOTO – Kyoto, a Miaco dos Portugueses do séc. XVI, é uma cidade baixa que, além dos seus famosos templos (1660) e santuários (400), exibe ainda um leque de recantos anónimos inesperadamente encantadores. É Património Mundial e considerado o centro cultural do país. Alberga quarenta universidades, uma das quais eu viria a frequentar durante um mês no ano seguinte, a Universidade de Línguas Estrangeiras de Kyoto. Foi a capital do Japão e a residência do Imperador durante mil anos, do séc. VIII até 1868, ao advento da Era Meiji. Kyoto significa isso mesmo “cidade capital”. Tóquio significa “capital do leste”. Kyoto foi destruída várias vezes por guerras e fogos, mas foi poupada ao destino - por um triz e devido ao seu inestimável valor histórico-cultural - de ser o alvo de uma das bombas atómicas lançadas pelos americanos na Segunda Grande Guerra. Por conseguinte, trata-se da única cidade do país que ainda se pode vangloriar de possuir em abundância edifícios anteriores a essa guerra nefanda.
Em Kyoto, a Yoshida-san e eu morámos no minúsculo e atravancado apartamento da sua avó, em Fukakusa, na área da estação de Tobakaido. Logo após o pequeno-almoço, lançávamos um ittekimasu! (expressão usada pelas pessoas cada vez que saem de casa; à letra “vou e volto”) e partíamos em demanda dos templos de Kyoto. Regressávamos depois do jantar ao apartamento, onde nos aguardava o sorriso sempre acolhedor daquela velhinha japonesa.
A Yoshida-san trabalhara como guia turística, de maneira que a minha passagem pela área de Kyoto teve a marca do seu toque profissional. Éramos capazes de bater o recorde de visitar onze locais históricos num só dia. Claro que a excelente organização dos transportes e do tráfico no Japão não contrariava os nossos propósitos.
Na minha adolescência, devorei muitos livros de Yukio Mishima, o escritor japonês que, em 1970, cometeu harakiri (a palavra correcta é seppuku, mas ambas significam rasgar a barriga) e um dos mais traduzidos no ocidente. Após ter lido o seu romance “Kinkakuji” (“O Templo Dourado”), prometi a mim mesma que um dia teria de o visitar. O primeiro templo que visitei em Kyoto foi, pois, o Templo Dourado. E não me desiludiu. Completamente revestido de folhas de ouro puro, a sua beleza é tão extrema que se torna difícil de suportar. Compreendi o drama do monge que, em 1950, enfeitiçado pelo Templo Dourado, acabou por lhe deitar fogo para que a sua perfeição fosse extinta pelas chamas. O Kinkakuji foi construído pela primeira vez em 1397, pelo xógum Ashikaga Yoshimitsu, como um local de retiro e descanso. O filho converteu-o num templo zen da escola Rinzai. Foi arrasado várias vezes devido a guerras e fogo. A construção actual data de 1955.
Como a maioria dos japoneses, a Yoshida-san preferia o Ginkakuji (“Templo Prateado”). Tinha mais wabi sabi, disse.
Eu exultava ao ouvir aquele termo, wabi sabi, sobre o qual havia lido, a sair verdadeiramente de bocas japonesas. Em poucas palavras, wabi sabi é um conceito que exprime uma visão estética baseada na aceitação da transitoriedade de tudo quanto existe. Assim, o belo é aquilo que é imperfeito, efémero ou incompleto, tal como a vida: nada permanece, nada está completo, nada é perfeito. Aquilo que tem wabi sabi, sendo irregular, despretensioso e ambíguo, desperta no nosso interior um sentimento de melancolia serena, como o do eremita que se desligou dos bens materiais e se afastou da vida mundana. Várias manifestações da cultura japonesa são expressões de wabi sabi: o ikebana (o arranjo de flores), os jardins de pedra e gravilha, o chado (cerimónia do chá), o kyudo (tiro ao arco), a poesia – em especial o haiku – a cerâmica japonesa. O wabi sabi encontra-se directamente ligado ao mono no aware, à sensibilidade em relação às coisas, à sua efemeridade, que os japoneses crêem ser um exclusivo seu.
Naquele dia, porém, Yoshida-san render-se-ia à solidão esplendorosa do Templo Dourado.

O Templo Prateado devia ter sido revestido a prata mas não chegou a sê-lo, devido à guerra. Ao contrário do Templo Dourado, ficou incompleto, imperfeito, daí ter mais wabi sabi. Foi erigido pelo neto de Ashikaga Yoshimitsu, o xógum Ashikaga Yoshimasu. Assim, não intencionalmente, mas devido às restrições da guerra, o Templo Prateado é hoje um modelo arquitectónico de contenção e simplicidade. No seu peculiar jardim de areia e pedra existe um cone de barro com o topo cortado que representa o Monte Fuji.

Além do Templo Dourado e do Templo Prateado, visitei um sem número de templos budistas (otera) e santuários xintoístas (jinja). Ryoanji, o templo onde se encontra o mais célebre dos jardins zen (termo muito impreciso que é utilizado no Ocidente para designar os jardins de pedras e gravilha do Japão, os karesansui): pedras dispostas num jogo enigmático por entre areia desenhando estrias. São quinze rochas colocadas num rectângulo de gravilha branca mas, seja qual for o ângulo de visão, apenas se pode lobrigar 14 de uma vez. Tudo convida a uma contemplação distraída mas helas! impossível, devido à presença de turistas e às intermináveis informações provenientes de altifalantes. Uma pequena fonte de pedra tem a forma de uma moeda antiga, daquelas furadas para se enfiar num cordão. A abertura do fosso é um quadrado que faz parte dos quatro caracteres que se encontram inscritos em volta. Conforme o local por onde se começar a ler esses quatro caracteres, obtém-se as seguintes frases: “Apenas eu sei quanto baste” ou “Eu apenas sei quanto baste”.
Após ter completado a sua épica travessia do deserto australiano, Robyn Davidson, a escritora de viagens, recebeu cartas de leitores de todo o mundo. Uma delas, a de um homem esquizofrénico, comentava: “Dizem-me que as areias de Ryoanji são ainda mais infinitas.”

Quanto ao fabuloso Templo da Água Límpida, o Kyomizudera, é um colosso que se equilibra sobre 139 pilares no declive da montanha Otowayama e é uma das maravilhas do mundo. Está associado à escola Honso, uma das mais antigas do budismo japonês. De um dos seus varandins, os visitantes tentam alcançar a água com propriedades terapêuticas que cai de uma cascata sagrada. Como acontece com a maior parte das obras arquitectónicas japonesas, não se utilizou, na sua construção, um único prego. As traves simplesmente encaixam umas nas outras, sem necessidade de lhes ferir a carne. Quando se passeia nos terraços de madeira do Kyomizudera e se contempla a beleza de Kyoto para lá das colinas recheadas de pagodes e pavilhões, agradecemos à raça humana o gesto de ter erguido templos.
O Sanjyosangendo tem um pavilhão com 120 metros onde se exibem 1001 estátuas da deusa Kannon. Fundado em 1164, do exterior, o aspecto é austero. Todavia, no interior, brilham no escuro, gravadas em madeira de cipreste japonês e revestidas a folha de ouro, 1000 estátuas da deusa Kannon. Estão sentadas em fila e são do tamanho de um ser humano (japonês e dos antigos, isto é, bastante baixo) mas com 40 braços e cada um, crê-se, capaz de salvar vinte e cinco mundos. Ao centro, destaca-se a Grande Kannon, com onze caras e nada menos do que mil braços, tesouro nacional. Em volta, existem ainda 28 estátuas de variadas divindades.
O santuário Fushimi-inari Taisha é dedicado ao deus xintoísta do arroz, Inari. Povoam-no inúmeras estátuas de raposas porque são elas as mensageiras de Inari. Este local é ainda conhecido pelo seu corredor de torii, os pórticos vermelho-laranja e negro, oferecidos pelos crentes. É uma experiência única percorrer os corredores de torii, como por entre uma barreira de fogo sagrado.
Visitei o santuário Yasaka-jinja, epicentro do Festival de Gion. Também o Nishi-honganji e o contíguo Higashi-honganji: o primeiro, exemplar notável do estilo Momoyama, foi erguido como sede da escola Honganji da seita budista Jodo-shin, uma das mais populares do Japão, em 1272. É também o mausoléu do fundador da seita, Shinran Shonin. Contém múltiplos tesouros, como um dos mais antigos palcos de teatro Nô do Japão. Pode ainda ver-se uma corda feita com cabelos das mulheres devotas. Tokugawa Ieyasu, o fundador do xogunato Tokugawa que deteria o poder desde a Batalha de Sekigahara até ao dealbar da era Meiji, para refrear o crescente poder da seita, dividiu-a, mandando construir ao lado o Higashi-honganji. Ambos os templos possuem vastas áreas ajardinadas. Vimos o Toji, o Templo do Leste, que é o guardião da cidade desde 794, ano em que Kyoto se tornou capital do Japão, com o seu pagode de cinco andares elevando-se a 57 metros, o mais alto do país. O Chionin – templo principal da seita Jodo (Terra Pura), apresenta o maior sino e o maior pórtico de entrada, com 27 metros de altura. O Nanzenji é um belo templo zen no sopé dos montes a leste da cidade e sede da escola Rinzai. Começou por ser uma vivenda imperial em 1264 e tornou-se templo em 1291. O edifício principal, o Seiryo-den é célebre pelo seu jardim de pedra e fusuma (portas de correr), decoradas com pinturas da Escola Kano. E vários outros, que se tornaria fastidioso aqui enumerar.
Kyoto alberga bairros de recorte antigo, onde passear é um prazer, como a área que rodeia o templo Kyomizudera ou o bairro de Gyon. Gyon é o bairro das casas de chá, as moradas das maiko (à letra, “jovens dançarinas”). As maiko são aprendizes de geisha (à letra, “artista”). Na verdade, elas é que se tornaram o protótipo das geishas no ocidente, com o seu pó de arroz branco, indumentária elaborada e perucas complexas. É emocionante fotografar as maiko, porque surgem de repente como grandes borboletas coloridas, em quimonos luxuosos, e somem-se no instante seguinte em automóveis dispendiosos ou em portas que se entreabrem para logo se voltarem a fechar. Yoshida-san, em toda a vida, apenas havia conseguido vislumbrar uma maiko; e a sua irmã, que estudara em Kyoto, nunca vira nenhuma. Naquele dia, porém, consegui fotografar não uma, mas várias maiko. Fotografei também um monge itinerante, sob um grande chapéu redondo, que recitava sutras budistas na ponte sobre o Kamogawa (rio Kamo), que atravessa Kyoto.
Tendo estudado Filosofia, é óbvio que não poderia deixar de percorrer o Caminho da Filosofia. Ganhou esse nome porque o filósofo Kitaro Nishida (1870-1945), fundador da escola de Filosofia de Kyoto, costumava meditar passeando nele. É uma ruazita de dois quilómetros, ladeada de famosas sakura, as flores de cerejeira, símbolo do Japão e dos samurais. A flor de cerejeira é uma metáfora da vida bela e efémera. As lindíssimas flores rosa-pálido e branco surgem na Primavera mas, passadas cerca de duas semanas, as suas pétalas já jazem todas sobre os caminhos. Assim devia ser a vida do samurai, supremamente estética: heróica, portanto, bela, e breve. Constituía uma desonra para um samurai morrer de velho. Ir ver as flores de cerejeira é uma obrigação de Primavera no Japão.
Em Kyoto, fui ainda ao Palácio Imperial, residência do Imperador até 1860, cuja entrada estava vedada aos japoneses mas era permitida aos estrangeiros. Tratava-se de uma situação humilhante tanto para os estrangeiros, que tinham de abandonar os amigos japoneses à entrada, como para os japoneses que ficavam à espera dos amigos estrangeiros. Desconheço se esta prática continua. Felizmente, os japoneses não perdem grande coisa com isso, pois muitos outros lugares em Kyoto são mais interessantes do que o Palácio Imperial.
No santuário Shimogamo-jinja, situado entre o rio Kamo e o rio Takano num denso parque florestal, assisti a um festival xintoísta nocturno – o Nagoshi-no-matsuri – em que os padres agradecem ao kami (“o espírito”) que habita no riacho do santuário a chegada das colheitas.
Sabendo do meu interesse pelos samurais e pelo cinema japonês, a Yoshida-san propôs-me uma visita ao Toei Eigamura. Aí pode-se assistir à rodagem de filmes de samurais e passear numa cidade feudal modelo em tamanho natural e figurantes vestidos à moda dos samurais. Infelizmente, é um local sem atmosfera, um parque de diversões comercial. E para quem, como eu, acredita que o cinema japonês produziu e produz das maiores obras-primas do cinema mundial, é um pouco desolador assistir ao circo samurai do Toei Eigamura.
Em Kyoto, comi a melhor tempura (palavra que entrou no vocabulário japonês através dos missionários portugueses do séc. XVI), vegetais e animais marinhos fritos, do Japão, num restaurantezinho típico do bairro de Gyon, preparada com mestria à nossa frente por um velhinho de lindos cabelos brancos.
Enquanto permaneci em Kyoto, fiz excursões a Hikone, Himeji, Kobe e Nara. O Japão é um país pequeno, mas as suas cidades são tão grandes que dão a impressão de serem contíguas umas às outras.

O Rio Kamo em Kyoto.


Crianças vestidas com yukata. Kyoto.







Os bairros antigos de Kyoto.

Kyoto - a beleza está por toda a parte:




Uma árvore sai do interior de um edifício.

Torii.

Entrada de um templo.



Os maravilhosos telhados dos templos.

Kyoto - a beleza está por todo o lado:




Pormenor de um passeio.



Montra de um restaurante.


Sino.


Cemitério budista.

14 Dezembro, 2006

Kyoto - a beleza em toda a parte:


Gelataria onde comemos gelado de chá verde, um must de Verão. Kyoto.


A mesma gelataria.



Refeição. Kyoto.
Kyoto - a beleza por toda a parte:




Fonte.


Entrada.




Portão.

Ikebana.


Caligrafia.




Yoshida Naoko e a sua avó, no apartamento desta última. Kyoto.











O Templo Dourado (Kinkakuji). Kyoto.



Os jardins do Templo Dourado (Kinkakuj-ji). Kyoto.






Nos jardins do Templo Dourado (Kinkaku-ji). Kyoto.



O Templo Prateado (Ginkaku-ji). Kyoto.




O Templo Prateado (Ginkaku-ji). Kyoto.




Os jardins do Templo Prateado. Kyoto.



Os jardins do Templo Prateado: o símbolo do Monte Fuji. Kyoto.

O Jardim do Ryotan-ji. Kyoto.