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29 setembro, 2007


AS CASAS JAPONESAS


Fusuma, shoji, tatami...



As casas tradicionais japonesas eram comumente construídas em madeira. Por um lado, abundava a madeira de boa qualidade e, por outro, o recurso a ela permitia uma melhor ventilação e penetração da luz, o que convinha ao tipo de clima japonês. O problema era a susceptibilidade ao fogo, mas os edifícios em madeira compensavam com a sua resistência aos terramotos, tão frequentes no Japão, e por serem de fácil construção e demolição. O famoso Horyuji, uma estrutura de madeira do séc. VII, ainda resiste, o que demonstra a excelência da madeira como material de construção.
A partir do século passado, o número de casas de cimento aumentou, mas um toque de madeira é algo de que os japoneses são incapazes de prescindir. A maior parte dos interiores das casas de cimento continua a ser de madeira, nem que se trate apenas de painéis de madeira.
Existem certas partes das casas tradicionais a que podemos chamar paredes, komai-kabe. Consistem em camadas de argila, por si só decorativas e revestidas de finas tábuas de madeira nos locais expostos à chuva. O bambu, que além de belo é extremamente robusto e elástico, está presente nas cercas e nos tectos e serve ainda como suporte para as paredes de argila. São também utilizados como caleiras, beirais de telhado ou canos de água, visto serem ocos por dentro. A pedra, devido aos frequentes tremores de terra, não é utilizada como material de construção, mas surge amiúde como degraus ligando o edifício e o jardim.

Pedras encaminhando-se para a sukiya (casa de chá) de Senkeien, Yokohama.


A preocupação cimeira na construção da habitação japonesa tradicional é a não delimitação rigorosa do espaço interior e exterior:





Procura-se a mais profunda inserção do edifício no espaço circundante, reduzir ao máximo a interferência na natureza. Cercazinhas leves de bambu, portas corrediças, jardins exteriores e interiores…

Cerca de bambu, pedras no caminho, telhado de colmo - a natureza portas adentro.


Os nakaniwa (jardins interiores) estendem em direcção ao exterior os espaços interiores. De modo a impedir a obstrução da luz ou do ar, nos nakaniwa não se podem plantar árvores de grande porte ou em grande número. A escolha das plantas tem de ser cuidadosa. Geralmente, incluem uma lanterna de pedra ou uma bacia de pedra cuja função não é meramente decorativa, se o estilo for puro.



Sukiya (casa de chá) do Daidokuji: shoji velando um nakaniwa (jardim interior) com lanterna e bacia de pedra.


Basta recordarmos as casas árabes, rodeadas de muros altos e espessos, abrindo-se apenas para o seu próprio interior, resguardando-se do exterior, para se perceber o modo diverso dos japoneses verem o mundo e nele habitarem. A privacidade, no Japão, não é conseguida através da construção de muros, de portas com fechaduras, de janelas com vidro e persianas. É conseguida através de um comportamento formal, do respeito pelo próximo e pelas regras de educação.
A parte de uma construção japonesa que mais chama a atenção é, sem dúvida, o telhado, ou os múltiplos telhados. Bem característica é a convivência de vários estilos de telhado (hisashi) no mesmo edifício. Seja qual for o tipo de telhado - kiri-zuma, yose-mune, iri-moya - apresentam beirais baixos e longos, de modo a resguardar as habitações das grandes chuvadas. A possibilidade de utilizar vários telhados diferentes facilita também a adição de novas assoalhadas.



Os telhados costumavam ser de palha e de caules de planta até à Idade Média, quando começaram a ser também utilizados o cipreste e o cedro, técnica ainda hoje visível em templos e casas rurais. Por volta do séc. VI d.C., a arquitectura budista – proveniente da China – trouxe consigo as telhas, mas passaram-se milénios até serem utilizadas em residências. Seja como for, a área ocupada pelos telhados é imensa e reina sempre uma sombra densa sob o alpendre. Como notou Junichiro Tanizaki, o grande escritor japonês: “Se o telhado japonês é um guarda-sol, o ocidental é apenas um chapelinho. Melhor, como num boné, os rebordos estão reduzidos a tão pouca coisa que os raios directos do sol podem incidir nas paredes até ao nível do telhado.” Ainda por cima, além do longo telhado, a existência de um grande beiral e de uma varanda, já para não falar do filtro dos shoji (divisórias com aberturas cobertas com papel de arroz) permitem que apenas um pálido reflexo da luz do jardim penetre no interior. Tal espelha bem o gosto japonês pela sombra, pelos ambientes velados e a sua profunda repulsa pelo brilho vulgar. A penumbra, ténue e incerta, os japoneses sabem-no bem, tem um encanto subtil e discreto: “Não é que tenhamos uma reserva a priori relativamente a tudo o que brilha, mas, a um brilho superficial e gelado, preferimos sempre os reflexos profundos, um pouco velados.” (Junichiro Tanizaki) Recordemos, a propósito, a diferença entre o papel de arroz, com a sua leve rugosidade, as suas nuances de cor, as suas zonas opacas e o nosso papel, que rebrilha com um branco metálico e sem mácula, como que traindo essa obsessão, tão ocidental e por vezes tão perigosa, pela “pureza”.

Casa camponesa no distrito de Chabu, em estilo tradicional.

A maior diferença entre as casas ocidentais e as japonesas é a concepção das divisões. No Japão dividem-se os espaços com shoji ou fusuma, não existindo fechaduras. Shoji é uma divisória de correr, com uma moldura feita de madeira lacada e coberta com janelas de papel de arroz para deixar a luz entrar, ainda que esteja fechada. Existem também as divisórias fusuma, igualmente de correr, feitas de papel muito espesso emoldurado em madeira. Assim, uma divisória shoji ou fusuma é, a um tempo, arquitectura e decoração. As fusuma, por exemplo, são decoradas com pinturas ou caligrafia.

Em primeiro plano, fusuma; em segundo plano, shoji.


Cada divisão pode funcionar como sala de estar, sala de jantar ou quarto de dormir. E basta remover as shoji ou fusuma para se obter uma divisão maior. A casa japonesa é, pois, multi-funcional e extremamente versátil na sua concepção.
Hoje em dia, a maior parte das casas japonesas apresenta uma mistura de quartos com chão de madeira, tatami ou carpete. No entanto, a tradição japonesa é o revestimento do chão com tatami. Tatami são esteiras feitas de uma camada inferior de palha com cerca de 5 cm de espessura, tendo a superfície coberta com uma folha de junco entrançado. Tatami é fresco no verão e ajuda a manter o calor no inverno. Cada tatami tem cerca de 1,8 metro de comprimento e 90 cm de largura. A área de um tatami chama-se jo e é o jo que se usa para falar do tamanho de uma divisão, ou seja, diz-se “O meu quarto tem 8 jo” ou “O meu quarto tem 8 esteiras (tatami)."

Fusuma à esquerda, shoji à direita e tatami no chão.



Um tokonoma é um elemento essencial da casa tradicional japonesa. Consiste numa pequena alcova decorada com um rolo de pintura e pelo menos um ornamento, como um arranjo de flores ou peça esculpida em madeira. No entanto, a pintura ou ornamento, por mais valiosos, não devem atrair o olhar de forma grosseira, quedando mergulhados nessa parte particularmente sombria de uma divisão japonesa. Precede-o um pilar de madeira, por vezes um tronco escassamente trabalhado e preservado na sua original forma sinuosa.

O tokonoma é a alcova à direita.


Junichiro Tanizaki afirmou: “De cada vez que contemplo um tokonoma, essa obra-prima do requinte, fico maravilhado por constatar até que ponto os japoneses souberam utilizar os jogos de luz e sombra. (…) Numa palavra, sem outro suporte para além de simples madeira e paredes nuas, compôs-se um espaço recatado onde os raios de luz que aí deixamos penetrar produzem, aqui e além, recantos vagamente escurecidos. (…) Experimentamos a sensação de que, nesses locais, o ar encerra uma espessura de silêncio, que uma serenidade eternamente inalterável reina nessa escuridão.”



Tokonoma da Miyokian-taian, sukiya de Sen no Rikyu (o maior mestre do chá de sempre) em Kyoto.


As janelas (mado), para além da sua dimensão propriamente utilitária – ventilação, luminosidade, vigilância do jardim exterior – têm uma enorme importância estética. Existem vários tipos de janelas, cada qual adequado a determinadas divisões ou propósitos. A tako-mado, por exemplo, só se encontra na cozinha ou nas instalações sanitárias. Seja na sala de recepção, seja na entrada, a maru-mado, a janela circular, é sobretudo visível no mais belo exemplo da arquitectura tradicional japonesa: a casa de chá – sukiya – essa “estrutura efémera, construída para abrigar um impulso poético.” (Kakuzo Okakura).


Maru-mado da sukiya do Kodaiji.

Mais uma sukiya com maru-mado.


O espírito que preside à construção da sukiya é o wabi, um conceito estético e filosófico polissémico extremamente complexo e de difícil tradução (já o abordei no primeiro post deste blogue). A beleza triste do Outono é wabi. A solidão, a desolação de uma paisagem são wabi. A simplicidade, a sobriedade, a sombra, a recusa de ostentação, é wabi. O sentimento da melancolia é wabi. Assim, o estilo sukiya revela uma profunda afeição pelos materiais naturais e pela assimetria: ”É um domicílio do assimétrico, na medida em que se consagra à adoração do imperfeito, deixando propositadamente algo inacabado para que seja completado pelo jogo da imaginação.” (Kakuzo Okakura).




A chaleira no chão.




O inconfundível estilo sukiya: a materialização do génio estético nipónico.

A sukiya evoca a natureza, a sua imprevisibilidade, mas mantendo, ao mesmo tempo, a harmonia e o equilíbrio. Desde logo, o portão é assimétrico tanto no seu design como na sua posição. O acesso à casa (roji) é encurvado; no caso de ser rectilíneo, será construído em diagonal, impossibilitando a visão da casa para quem se encontra no portão. Este caminho tem geralmente um aspecto informal, de natureza em bruto e com a presença da pedra. Constitui o primeiro estádio da meditação, a primeira quebra com o mundo profano – a sukiya, na sua arquitectura e no seu propósito, a cerimónia do chá, está intimamente ligada ao budismo zen.



Portão de uma sukiya.


A sukiya - onde “a brandura da idade cai sobre tudo” (Kauzo Okakura) - não deve impressionar de forma óbvia. É menor do que as mais pequenas casas japonesas (no estilo puro, a sua dimensão é de quatro tatami e meio) e os seus materiais devem sugerir pobreza, embora refinada. Foi elaborada, no entanto, com mais cuidado e originou mais despesas do que uma mansão de abastados. Os carpinteiros das sukiya formam uma classe aparte, distinta e honrada, entre os demais artesãos.
As linhas exteriores de uma composição sukiya (uma casa inspirada neste estilo) devem ser rectas e contínuas e as aberturas (geralmente shoji) espaçosas, de modo a unificar o espaço interior e o mundo exterior da natureza em redor. Como protecção contra o sol de verão, penduram-se nessas aberturas estores de tabuinhas de bambu fendidas ou de junco. Também podem pender dos beirais do telhado.

Urakuen-joan. Esta sukiya é um tesouro nacional do Japão.


Por baixo dos telhados, é por vezes construída uma varanda-corredor (espaços simultaneamente exteriores e interiores) com chão revestido de madeira ou bambu, para reforçar a ligação do edifício com o exterior. A sensação dos pés nus a caminhar sobre o chão de madeira no verão é inesquecível: um contacto de uma frescura e, simultaneamente, de uma verdade calorosa como só é possível experimentar na própria natureza.


Corredores-varanda no Shugaku-in, em Kyoto.

Tudo, as cores suaves, a luz moderada, deve inspirar neutralidade e sossego. No interior, não se avista uma única peça de mobiliário. O estilo sukiya é um hino ao vazio. Apenas ocuparão o espaço os seres humanos, essas figuras condenadas à transitoriedade. Esse facto realça a importância da construção e do material utilizado. “A beleza de uma divisão japonesa, produzida unicamente por um jogo sobre o grau de opacidade da sombra, dispensa quaisquer acessórios. O ocidental, vendo isso, fica surpreendido com este despojamento e julga tratar-se apenas de paredes cinzentas desprovidas de qualquer ornamento, interpretação perfeitamente legítima do seu ponto de vista, mas que prova que ele não conseguiu desvendar o enigma da sombra.(…) Para nós, essa claridade numa parede, ou antes, essa penumbra, vale por todos os ornamentos do mundo e vê-la não nos cansa nunca.” (Junichiro Tanizaki).



A cor sukiya.

O brilho, o excesso, a ordem previsível, o óbvio, a exibição, choca o espírito japonês. Sentem-se desconfortáveis nas casas ocidentais, onde reina uma claridade crua, onde há excesso de mobiliário e decoração e onde as peças de metal foram polidas à exaustão e reluzem furiosamente: “…amamos as cores e o lustro de um objecto maculado pelo uso, pela fuligem ou pelas intempéries, ou que o parece estar, e viver num edifício, ou no meio de utensílios que possuem esta qualidade, apazigua-nos curiosamente o coração e acalma-nos os nervos.” (Junichiro Tanizaki).



Bibl: Isabel Quelhas de Lima, A Casa Tradicional Japonesa, Ed. Civilização /Kakuzo Okakura, O Livro do Chá, Cotovia /Junichiro Tanizaki, Elogio da Sombra, Relógio de Água/

Fotografias: Japan: Zoom in Travel/Introducing Japan, Kodansha/Japão, O Império do Sol Nascente, Círculo de Leitores./Pictorial Encyclopedia of Japanese Culture, Gakken.

22 julho, 2007


O PAÍS DOS MATSURI (FESTIVAIS)



Matsuri em Miyasaki. Foto Asahi Shinbun.



Os japoneses não são considerados um povo especialmente divertido; bem pelo contrário, conhecemos melhor a sua faceta de trabalhadores compulsivos. No entanto, o Japão é provavelmente o país que mais festivais (matsuri) celebra durante o ano. Diz-se até que, seja qual for o dia, decerto haverá um festival em qualquer parte. Em certos dias, a celebração é nacional.
matsuri que envolvem milhares de pessoas e outros que envolvem apenas uma pequenina comunidade; há os que duram dias e os que duram somente horas; há os que acompanham celebrações rurais e os que acompanham celebrações urbanas; há-os solenes e há-os divertidos. Muitos matsuri relacionam-se com o cultivo do arroz porque este constitui a verdadeira fundação da cultura japonesa. Outros honram divindades guardiãs de clãs ou cidades, vilas, distritos. Outros ainda celebram a história ou cultura nacional.


Empoleirada nos ombros do pai, esta menina leva nas mãos feixes de arroz para apelar por uma colheita abundante. Festival Onda-sai, Quioto. Foto de Gorazd Vilhar.


A faceta séria e perfeccionista dos nipónicos, todavia, também se manifesta através dos matsuri. Estes são amiúde trabalhosos e prova de uma extrema exigência estética. Transpiram esforço e, muitas vezes, celebram o esforço. São uma exibição espectacular de cor, símbolos, trajes, antiquíssimos ritos. E são, sobretudo, uma forma de veneração, um encontro feliz do povo japonês com o divino. A palavra matsuri deriva do verbo matsuru, que significa precisamente venerar, adorar.
Originalmente, os matsuri eram uma prática xintoísta, mas acabaram por incorporar ritos ligados ao calendário de origem budista e chinesa. Elementos budistas e xintoístas estão vulgarmente presentes em qualquer um deles. Os matsuri ocupam um lugar de honra na vida dos japoneses e contribuem para a sua forte identidade espiritual. Menosprezando-os, não será possível uma compreensão profunda desse povo. Constituem a ocasião para conseguirem uma comunhão com os seus deuses e espíritos ancestrais; para reconhecerem um passado comum que recua até tempos míticos; para celebrarem a natureza e o renovar incessante das estações, que são excepcionalmente marcadas no seu país; e para, simplesmente, divertirem-se com a família e os vizinhos, reafirmando os laços comuns e providenciando uma pausa no trabalho e na vida regrada do dia-a-dia. O facto de os japoneses conseguirem manter vivas tantas tradições deve-se, em grande parte, a estas celebrações.



Crianças efectuando uma dança ritualizada de agradecimento aos deuses por uma boa colheita. Zuiki Mtasuri, Quito. Foto de Gorazd Vilhar.


O Xintoísmo (shinto, a Via dos Deuses) é visto pelos nipónicos como um modo de vida espiritualmente integrado. A sua origem perde-se na noite dos tempos. O tema central é a veneração pela força da vida, a natureza, e pela deusa Amaterasu Omikami, criadora da natureza e progenitora da linhagem imperial japonesa. É a Grande Divindade Iluminando o Céu, a Deusa do Sol. Os deuses xintoístas, cujo número é imenso, chamam-se kami. São manifestações presentes em todas as coisas, animadas e inanimadas e prevalecentes em todos os aspectos da vida humana. Estão inextrincavelmente ligados à psyche japonesa, de tal maneira que se diz que, sem o Japão, não haveria Xintoísmo e, sem o Xintoísmo, não haveria o Japão. É, portanto, um factor crucial de identidade nacional. O funcionamento do mundo é visto como sendo fruto da cooperação dos kami e dos seus crentes, em prol da harmonia social com a qual os deuses se comprazem.
A hegemonia do Xintoísmo começou por ser tão completa que nem sequer possuía um nome que o designasse. Apenas com a difusão do Budismo (através da China e da Coreia, no séc. VI d.C.) foi necessário baptizá-lo, de modo a diferenciá-lo da doutrina recém-chegada. Após uma rivalidade inicial, depressa o Xintoísmo e o Budismo estabeleceram a base para uma duradoura coexistência pacífica. Os deuses xintoístas são vistos, muitas vezes, como manifestações locais das divindades budistas, em vez de adversários. A linha que divide ambas as doutrinas nem sempre é clara, mas muitas diferenças as separam também. O reino do Xintoísmo é o do ciclo da natureza, das estações do ano e da vida quotidiana; o Budismo, esse, é marcadamente filosófico, com preocupações metafísicas relacionadas com a morte e o que jaz para além dela. O povo serve-se de ambos conforme as ocasiões; por exemplo, preferem os rituais xintoístas para os casamentos e os budistas para os funerais. Mas os grandes actos de adoração em relação aos deuses e divindades são os matsuri, através dos quais o povo lhes faz a oferenda das suas orações, dádivas, reverência e alegria.


Na beira do lago, uma criança efectua a oferenda de uma dança que representa borboletas brincando. Yawata Hachimangu, Quioto. Foto de Gorazd Vilhar.


Os matsuri ligados ao cultivo do arroz celebram-se todo o ano e em todo o país. Variam muito na forma mas estão unidos por uma causa comum: pede-se aos deuses que façam crescer os cereais em abundância e que evitem desastres naturais ou agradece-se uma colheita generosa.
Na Primavera, nos arredores de Nara, precedendo o cultivo do arroz, grupos de miko (donzelas dos santuários sagrados) inauguram o processo da plantação através de uma dança estilizada. A sua virgindade simboliza a fertilidade que é procurada pelos jovens rebentos de arroz. Por um acto de magia mimética, todos os estados de crescimento do arroz são representados ritualmente e elevados à sua plenitude, desse modo solicitando um desenvolvimento igualmente auspicioso para a verdadeira colheita.



Miko com feixes de arroz. Haru Matsuri (Festival da Primavera), Nara. Foto de Gorazd Vilhar.



Durante o Verão japonês, chuvoso e intensamente quente, pede-se aos deuses que protejam não só as sementeiras mas também a saúde dos habitantes. Em Chichibu, no Kawase Matsuri, o espírito da divindade, de ordinário guardada num relicário no Santuário Chichibu, é transferido para um mikoshi (andor, santuário portátil). Após transportá-lo numa parada até ao rio, os carregadores, com grande regozijo, banham-no na água para uma purificação ritual. A divindade retribuirá o favor, quando o dourado Outono trouxer consigo uma abundância de grãos de arroz.
No Outono abundam os matsuri ligados a Inari, a divindade dos grãos. Para o Xintoísmo, de matriz profundamente animista, certos animais são mensageiros dos deuses. Nos ubíquos santuários Inari, esse animal é a raposa branca. Comprovando a observância do sincretismo tão típica dos japoneses, celebra-se no templo budista Hojoji, na prefeitura de Yamaguchi, o festival de Outono Kitsune no Yomeiri (Procissão do Casamento das Raposas). Duas personagens envergando luxuosas indumentárias e usando máscaras de raposa - a noiva e o noivo - são casados ritualmente, de modo a celebrar um antigo milagre, quando um casal de velhas raposas morreu e atingiu o estado de Buda. Em honra da sua vida longa e fiel, jovens mulheres tomam parte na procissão, na esperança de que, desse modo, o seu próprio casamento venha a ser longo e alicerçado na fidelidade. Mas trata-se do país do arroz e a associação do Xintoísmo com as raposas é inescapável. Além disso, existe um pequeno santuário dedicado a Inari no próprio terreno do templo budista. O festival termina com os comuns procedimentos dos rituais xintoístas ligados às colheitas: os participantes rezam por elas e colocam oferendas de arroz novo no altar.




Kitsune no Yomeiri. Foto Asahi Shinbun.




No Inverno, as comunidades agrícolas de todo o Japão começam a praticar ritos primevos para invocar o favor dos deuses em relação ao labor que se avizinha. Em cada mês de Fevereiro, na prefeitura de Aomori, por exemplo, os camponeses de Hachinoche reúnem-se para a dança da fertilidade, pisando a terra coberta de neve, de modo a revificá-la: é o Emburi Matsuri. Os esplêndidos penteados usados pelos dançarinos trazem a imagem pintada de Inari e de Ebisu, o deus da prosperidade.
Nas comunidades piscatórias, implora-se às divindades, através dos matsuri, pescas abundantes. Em Ohara, durante o Hadaka Matsuri (o chamado Festival Nu), os pescadores da área, envergando apenas um fundoshi (tanga) carregam dezoito mikoshi (andores) com divindades até às ondas do oceano.




Hadaka Matsuri. Foto de Gorazd Vilhar.


Um matsuri orientado para a família e celebrado em todo o país no Verão, desde o séc. VII d. C., é o Festival dos Mortos, O-Bon, herdado do calendário budista chinês. Os espíritos dos antepassados são convidados a regressar aos lares numa visita de três dias. Para isso, alumiam-se os caminhos com lanternas ou fogueiras. As famílias reúnem-se para honrar os antepassados. Há danças folclóricas chamadas bon-odori em todas as cidades, vilas e aldeias. As pessoas usam alegres yukata (quimonos leves de Verão).




Bon-odori. Foto de Gorazd Vilhar.


O maior festival é o do Ano Novo. Como os japoneses actuais seguem o calendário ocidental, tem lugar de 1 a 3 de Janeiro, ao contrário do Ano Lunar chinês, que é móvel, podendo calhar em qualquer dia dos finais de Janeiro ou em Fevereiro. Os preparativos começam no final do ano velho. Por volta de 29 de Dezembro, os escritórios do Governo, os negócios privados e as indústrias fecham portas. Segue-se um êxodo gigantesco das pessoas em direcção às suas vilas, aldeias e cidades natais, tornando muito difícil arranjar lugar em qualquer meio de transporte. As casas, entretanto, foram cuidadosamente limpas. À entrada, foram colocados ramos de pinheiro e penduradas cordas sagradas. As refeições tradicionais de Ano Novo foram preparadas. Na véspera do Ano Novo, as famílias comem um tipo de massa de fios compridos e finos, como um desejo simbólico de uma longa vida. À meia-noite, os templos de todo o país fazem soar devagar os sinos 108 vezes, de modo a expiar os 108 desejos perniciosos de que temos de nos livrar para conseguir uma vida plena, segundo o Budismo. Muitas pessoas, no dia seguinte, vão aos templos e santuários rezar por saúde e prosperidade.




Primeira oração de Ano Novo num santuário xintoísta. Muitos visitantes compram papéis da fortuna, como fizeram estas duas raparigas.


As crianças recebem presentes em dinheiro (otoshi-dama), dentro de envelopes tradicionais. Em casa, as famílias regalam-se com a comida tradicional (ozoni) e divertem-se com os jogos de Ano Novo. Um deles é o jogo karuta (do português “carta”), introduzido pelos lusitanos no séc. XVI. As cartas, entretanto, niponizaram-se completamente, sendo decoradas 50 delas com poemas ou provérbios e outras 50 com figuras que os ilustram. O objectivo é conseguir o maior número de pares de cartas cujo dizer e ilustração condigam. Num outro jogo de cartas, Hyaku-nin-isshu, 50 cartas têm um poema completo (obra de poetas famosos do séc. VII ao séc. XII) e uma figura do seu autor. Outras 50 têm apenas o último verso dos mesmos poemas. O objectivo é conseguir achar rapidamente a carta que tem o último verso do poema que um outro participante começou a ler do princípio. Para quem tem um espaço aberto para onde ir, também faz parte da tradição o lançamento de papagaios de papel.




Cartas Hyaku-nin-isshu.


Mas o festival Gion de Quioto, berço da cultura nipónica, é talvez o mais célebre de todos. Teve origem numa súplica dirigida pelo Imperador Seiwa ao kami do Santuário Yasaka, no sentido de fazer parar a devastadora peste do Verão de 869 d.C.. Quando a prece foi ouvida, a cidade organizou um enorme festival de agradecimento ao kami, no qual se destacava um pavilhão com rodas puxado à mão em cujo topo se viam alabardas medievais. Em 970, instituiu-se o festival como um acontecimento anual. Através dos séculos, o Gion Matsuri foi ganhando maior esplendor, com mais pavilhões embelezados de maneira cada vez mais imaginativa e rica. A sua construção é hoje de um refinamento sem par e muitos exibem verdadeiros tesouros e antiguidades, figuras históricas mecanizadas, cenas elaboradas e bandas de músicos que tocam flauta, tambor e shamisen. Acompanham-nos centenas de homens, mulheres e crianças em trajes gloriosos.




Mikoshi no Gion Matsuri. Foto de Philip Gordon.



Bem alto no carro alegórico que lidera a parada, vai o chigo, a Criança Celestial, um rapazinho púbere cuidadosamente seleccionado e santificado ritualmente de modo a ser aceite pela divindade. Ele próprio encarna o kami durante o festival e executa o rito de cortar a corda sagrada que inaugura a procissão, assegurando assim a bênção da divindade sobre a cidade durante o ano que se segue.



O chigo. Foto de Gorazd Vilhar.



Quioto orgulha-se ainda daquele que se diz ser o mais antigo festival do país: o Aoi Matsuri. Durante uma época de grandes cheias no séc.VI d.C., os cidadãos imploraram à deusa da água (Tamayorihimeno Mikoto) e ao seu filho, o deus do trovão (Kamo Wakeikazuchino Kami) que parassem com a sua acção devastadora. Desde então, na Primavera, tem lugar uma procissão onde mãe e filho divinos são conduzidos simbolicamente desde o Palácio Imperial de Quioto até, respectivamente, ao santuário de Shimogamo e de Kamigamo. Ora-se por uma colheita abundante. Por todo o lado se coloca aoi (gengibre selvagem), um lendário detentor de tempestades.




Aoi Matsuri. Foto de Gorazd Vilhar.



O túmulo do xógum da era Edo, Tokugawa Ieyasu, unificador do Japão, encontra-se no famoso e resplandecente Santuário Toshogu, em Nikko. Aí foi Ieyasu deificado e venerado como um kami, como acontece amiúde no país com as personalidades de excepção. Em Maio e Outubro recria-se o cortejo que, em 1617 d.C., levou os seus restos mortais para Nikko. Colocam-se oferendas no altar, executam-se danças xintoístas e há uma exibição de tiro ao arco a cavalo no estilo antigo (yabusame), tudo para agradar às divindades. A parada começa com dignitários a cavalo liderando companhias de samurai e de guardas vestidos a rigor com armaduras e armas. Seguem-se homens carregando falcões ou empunhando estandartes, homens mascarados de leões, de macacos ou de personagens mitológicas, padres xintoístas, miko, pajens e músicos tradicionais. Os espectadores empilhados nos passeios das avenidas sentem então reviver a história ilustre do seu país.



Samurai no cortejo em honra de Tokugawa Ieyasu, em Nikko. Foto de Gorazd Vilhar.



As etapas da vida não são esquecidas. Os festivais dedicados às crianças são famosos. A 15 de Novembro festeja-se o bem-amado festival da infância Shichi-Go-San (Sete-Cinco-Três). Nesse dia, meninos de cinco anos e meninas de sete e de três, trajando quimonos luxuosos, são levados aos santuários xintoístas para serem abençoados pela sua divindade protectora. O Hina-Matsuri (Festival das Bonecas), a 3 de Março, é dedicado à felicidade das meninas pequenas. Exibem-se então em casa bonecas representando figuras da corte imperial.



Hina Matsuri.



A 5 de Maio é o Koi-Matsuri (Festival das Carpas), em honra dos meninos (hoje é considerado o dia de todas as crianças mas, na verdade, ainda está muito orientado apenas para os rapazes). Figuras de samurai são exibidas em casa e carpas feitas de tecido são postas a voar ao vento, atadas a postes ou cordas. Exprime-se assim o desejo de que os meninos se tornem tão vigorosos quanto as carpas, capazes de nadar teimosamente contra a corrente.




Koi-Matsuri.Foto Asahi Shinbun.


Celebram-se festivais em honra do florescimento das sakura (flores de cerejeira), da lua cheia de Outono, do longo sono do vulcão do Monte Fuji… Particularmente interessantes para nós, portugueses, são os festivais que evocam a nossa chegada ao país dos Japões, como o Festival da Espingarda de Tanegashima (Teppo Matsuri), sobre o qual escrevi no artigo "Japão! Japão! A Minha Primeira Viagem ao País do Sol Nascente", o primeiro post deste blogue. Os matsuri são sempre festas que alegram os olhos e os corações. Contudo, para que qualquer deles seja possível, tanto o local como os participantes têm de passar primeiro, isto é, antes de ir em busca de protecção divina, por um ritual de purificação. A divindade é convidada a descer ao local do festival, onde lhe são dirigidas preces. Oferendas generosas – sob a forma de comida e bebida de qualidade, música e dança sagrada ou peças de teatro – devem ser feitas ao longo de todo o festival no santuário dedicado à divindade em questão.




Oferenda de alimentos. Aoi Matsuri, Quioto. Foto de Gorazd Vilhar.


Os elaborados andores (mikoshi) são um dos pontos altos das paradas. Sob o incessante bater dos tambores, é considerado uma honra e um privilégio carregá-los pelas ruas, a despeito do seu peso, muitas vezes tremendo.




Homens carregando um mikoshi no Torigoe Matsuri, Tóquio. Foto Asahi Shinbun.


Partilhar esse peso tem um efeito catártico, provocando uma renovação espiritual tanto nos carregadores como nos espectadores entusiasmados. Nenhuma despesa é demais para venerar os deuses e são usados apenas os melhores materiais na confecção dos mikoshi e das indumentárias cerimoniais, em geral de seda pura.
O nível de qualidade dos festivais japoneses não tem rival em todo o mundo.



Imagens de outros matsuri:


Matsuri emTokushima. Foto Asahi Shinbun.





Caminhando sobre chamas num matsuri em Kumamoto. Foto Asahi Shinbun.




Outro festival em Kumamoto. Foto Asahi Shinbun.



Homens carregando mikoshi num matsuri em Fukuoka. Foto Asahi Shinbun.



Matsuri em Fukuoka. Foto Asahi Shinbun.



Matsuri em Fukuoka. Foto Asahi Shinbun.



Matsuri de Verão em Kita Kyushu. Foto Asahi Shinbun.



Natsu Matsuri (Festival de Verão), Kanagawa. Foto Asahi Shinbun.




Gion Matsuri em Narita, Chiba. Foto Asahi Shinbun.

Festival da Garça em Quioto, no qual se pede aos deuses boa sorte e longevidade.


Em Yamaguchi. Foto Asahi Shinbun.



Neste matsuri em Nagasaki, há uma competição entre bebés para ver quem chora com mais força. Foto Asahi Shinbun.




Bibliografia: Gorazd Vilhar & Charlotte Anderson, Matsuri, World of Japanese Festivals, Shufunotomo Co., Ltd, Tokyo, Japan, 1994.
Pictorial Encyclopedia of Japanes Culture. The Soul and Heritage of Japan, Gakke, Tokyo, 1987.
Shashinki. Matsuri., Asahi Shinbunsha, 1985.