É meu!

É meu!
Pare com o roubo de conteúdo!

17 dezembro, 2006

JAPÃO! JAPÃO!
A minha primeira viagem ao País do Sol Nascente


As cigarras cantam
Ignorando que é a morte
Que as escuta


Ervas de verão:
Eis o que resta
do sonho dos samurais

Haiku de Matsuo Basho



INTRODUÇÃO


É sabido que viajar num país estrangeiro e nele viver são situações bem diversas. A minha primeira estadia no Japão teve o carácter efémero de uma viagem de um mês. Segundo avisam, não só o autor do guia do Japão que utilizei (e que lá vivia havia mais de uma dezena de anos), como também, muito antes dele, o nosso Wenceslau de Moraes, o Japão é um país que enfeitiça até à obsessão os estrangeiros que por ele passaram em viagens de curta duração, mas que acaba por desiludir profundamente aqueles que resolvem por lá se estabelecer. É certo que esta evolução é susceptível de se desencadear em muitos outros países – talvez em todos – mas, segundo consta, tal experiência é ainda mais óbvia no Japão.
Nunca passei um ano sequer no Japão. Não tive ocasião de perceber ou sentir in loco os problemas do país, as suas contradições, a proverbial xenofobia do seu povo, os preconceitos e ideias feitas acerca dos estrangeiros e o inevitável choque de mentalidades. Estes factores conheço-os do convívio que tenho mantido com japoneses habitando temporariamente fora do seu território (foram alguns destes que me ofereceram a sua hospitalidade durante a viagem que aqui vou narrar), mas não houve oportunidade de os confirmar no Japão, a não ser superficialmente.
Os japoneses são mestres na arte da ilusão e uma das suas habilidades é fazerem crer aos turistas de passagem que o seu país se aproxima do paraíso. Atitude que parece que muda radicalmente no momento imediato em que tomam consciência de que o estrangeiro veio para ficar. Porque é claro que se trata de uma ilusão. As ilusões, porém, também são factos, e dão encanto e mistério à vida humana. Só posso, pois, estar reconhecida ao Japão em geral e aos meus amigos japoneses em particular que, com a sua mestria na arte de iludir, a sua infinita paciência e inexcedível amabilidade, me levaram a usufruir do seu país – sempre fascinante e sugestivo para olhos ocidentais – como se caminhasse num sonho.

EM OMACHI, DISTRITO DE SAGA – No primeiro dia de Julho de 1991, o Hide e eu tomámos o avião que liga Pequim à cidade japonesa de Fukuoka, na ilha de Kyushu.
Pelo fim da tarde, atingíamos Omachi, a aldeiazinha que abrigava a casa de Hide. A casa de Hide era também um templo dedicado ao grande mestre Kukai (sécs. VIII-XIX d.C.), o fundador da corrente Shingon (Palavra Pura) do budismo, além de calígrafo, poeta e artista. Formado em Filosofia Ocidental com uma tese sobre Nietzsche, o pai do Hide seguiu a tradição familiar e tornou-se monge budista. O seu filho, um dia, sucedê-lo-ia.
A casa-templo da família, como seria de esperar, era um exemplo de arquitectura tradicional japonesa, com amplos espaços em comunicação com um jardim exterior. Tudo era madeira e bambu, uma rara sensação de frescura no calor tórrido de Kyushu, uma das quatro ilhas principais do arquipélago. O Japão é, por excelência, o país da madeira e do bambu. Utilizam estes materiais com tal mestria que transformam os artefactos mais prosaicos em objectos estéticos de enorme delicadeza: vedações, portõezinhos, torneirinhas.
Era a primeira vez que vivia com uma família japonesa, numa casa japonesa. Comer em mesas baixas, dormir sobre o tatami (as esteiras que cobrem o chão das casas japonesas), correr – e não abrir – as portas shoji e janelas onde o vidro é substituído pelo papel, tudo eram gestos com sabor a descoberta.
Acordava às sete da manhã ao som das rezas budistas do Hide e do pai, que se evolavam até mim vindas do altar a Buda: Namuamida! Namuamida!
Habituei-me ainda ao modo nipónico de tomar banho. Utilizam para se esfregar, não esponjas, mas toalhitas e sentam-se em banquinhos minúsculos. Por isso, o chuveiro está colocado a um nível muito baixo, como se fosse servir uma criança. Existe ainda o furo, uma espécie de banho de imersão a ferver para relaxar após o duche. A mesma água é sucessivamente usada por todos os membros da família, o que se compreende porque primeiro lavaram-se no duche. O furo reveste-se de importância ritual para os japoneses e é-lhes difícil entender a facilidade com que os ocidentais o dispensam. O banho é um rito que se paga nos famosos onsen, ou hot-springs. Como bons japoneses, a família do Hide rejubilava com uma ida a um onsen. Certo dia, após uma escalada aventurosa a uma montanha de Omachi, entre cerradas concentrações de bambus, também os acompanhei a um onsen em Ureshi-no, seguido de um kari-raice (caril rice) em Takeo.
Passava quase todos os dias por Takeo, nos passeios de carro com o Hide. Em Takeo eu comprava gelados e o Hide alugava C.D.’s dos Southern All Stars, o nosso grupo rock japonês preferido, o que teve maior sucesso e mais duradouro no país. Descrevem-nos como os Beatles japoneses. Agora já entraram na fase de declínio. Eu e os meus amigos japoneses éramos todos fãs dos Southern All Stars.
Íamos a Fukuoka, a maior cidade da ilha de Kyushu e um porto internacional há vários séculos, com uma longa tradição de trocas comerciais com a China e a Coreia. Há quem afirme que é a cidade mais velha do Japão, devido a essa proximidade com o continente. Foi o local escolhido pelos mongóis de Cublai Cã para as invasões do Japão no séc. XIII. A palavra kamikaze, associada hoje em dia aos pilotos suicidas da Segunda Guerra Mundial, foi usada nessa época para designar o tufão que obrigou os Mongóis a recuar, salvando os japoneses, que estavam em séria desvantagem numérica. Kamikaze significa “vento divino”.
Agora, porém, Fukuoka é uma grande cidade moderna, de onde é originária a maioria dos músicos pop do país. Ia com o Hide aos enormes depato (centros comerciais) e passávamos horas nas suas longas livrarias. As livrarias japonesas não deixam de ser uma experiência porque, para os olhos estrangeiros, as capas dos livros japoneses parecem todas indicar tratar-se de obras destinadas a crianças e adolescentes. Exibem desenhos multicolores semelhantes aos das manga, com rostos e expressões estereotipadas. Como é sabido, a par do requinte tradicional, os japoneses cultivam ainda um gosto acerbo pelo kitsch e pelo infantilizante, o kawaii (o amoroso, o queridinho, o fofinho). Kawaii é, de longe, o adjectivo favorito dos nipónicos.
As manga são consumidas às toneladas. Por toda a parte, no Metro, no autocarro, os japoneses dos 7 aos 77 anos enfiam o nariz nos seus calhamaços de manga. A maior parte deles são editados em papel reciclado, pois a prática comum é lê-los e deitá-los fora.
Nos depato as atracções eram muitas. Só por si, a secção de electrónica era um espectáculo. Nas agências de viagem, os clientes sentavam-se a ver vídeos (a era DVD ainda não chegara) sobre os países que desejassem conhecer.
Regressávamos ao fim do dia em camionetas luxuosas, o comum no Japão. Os carros e camionetas eram muito modernos e impecavelmente limpos, brancos na sua maioria. Os japoneses preferem carros brancos (o branco é uma cor estimada, em geral) porque, assim, a sujidade não passa desapercebida. Não a querem disfarçar, querem eliminá-la. Deslizávamos por auto-estradas, túneis sem fim e inúmeras portagens (os japoneses pagam caro a qualidade da sua rede rodoviária). Nas auto-estradas, o ambiente é de ficção científica, tal é o papel da electrónica. Reentrar, após uma viagem, no interior das casas de madeira com o chão coberto de tatami é um contraste inesquecível. Tornou-se um lugar-comum afirmar que o Japão é um país e contrastes, mas continua a ser verdade.
Em Arita visitámos o templo do avô do Hide e apreciámos exposições da louça da região. A cerâmica de Arita, com cerca de 400 anos, sobretudo a de motivos azuis sobre fundo branco, é famosa no mundo inteiro. E visitámos Sasebo, a praia de Shirahama e o mar barrento de Ariakekai, onde, segundo me informou o Hide, habitam espécies marinhas raras. Entre Sasebo e Hirado, existe uma cena natural maravilhosa, as 99 ilhas verdejantes de Kujukushima. Na verdade, são 208 ilhas espalhadas por vinte e cinco quilómetros.
À noite lia o Budô Shoshinshu (“Manual de Iniciação à Via do Guerreiro”), de Daidoji Yuzan Shigesuke e o Hagakure (“Por detrás da folhagem” ou “À sombra das folhas”) de Yamamoto Tsunetomo, dois célebres códigos de honra dos samurais. O Hagakure foi escrito precisamente em Saga, pois Yamamoto aí nasceu em 1659. Nessas obras capta-se a essência do espírito samurai que, de algum modo, impregnará ainda o Japão actual: “A Via do Guerreiro é realizada na presença da morte. (…) A Via do Guerreiro é-o em desespero. (…) Os grandes empreendimentos não podem ser levados a cabo com sensatez. Há que tornar-se louco e desesperado.”

Um dia, o pai do Hide, monge aficcionado do golf (o golf era então a última obsessão japonesa e um meio de promoção social) e, sobretudo, do jogo (o mahjong), levou-nos a Takeo para ver jogar pachinko. Nos salões de pachinko reina uma barulheira e uma iluminação estonteantes. No entanto, os jogadores sentam-se frente às máquinas em profunda concentração.
Estreei-me num restaurante japonês típico, onde comemos sentados sobre tatami e as refeições eram servidas em caixas finamente decoradas. Envergando um quimono, o dono do restaurante recebia os clientes, saudando-os com vénias.

Omachi é uma aldeiazinha simpática. Tudo parece de brinquedo, um conjunto de construções infantis. Casinhas frágeis e ruazinhas sempre cheias de bandeiras coloridas a publicitar os mais variados produtos (cerveja Kirin, etc.). Mas possui alguns santuários xintoístas e templos budistas, um dos quais era o templo zen onde o Hide aprendera a fazer zazen (meditação zen) antes ainda de ingressar na escola primária. Nos arredores de Omachi encontram-se imensos arrozais onde brancas garças esvoaçam. Dispersas, belíssimas moradias de madeira, algumas rematadas com tectos de colmo. De um lado, avistam-se montanhas ao longe; do outro, avista-se ao longe o mar. E, encimando tudo, o revolto céu do Japão, paleta de cor em movimento.

Quando me preparava para deixar Kyushu, fui convidada pelo Rotary Club, do qual o pai do Hide era membro, para o seu almoço mensal. Estavam presentes os 50 membros do clube – todos homens. A única mulher, além de mim, era uma senhora encarregada de preparar as mesas. Eu, claro, era a única estrangeira. Os membros do clube principiaram por cantar o hino do Rotary Club. De seguida, divulgaram os resultados das partidas de golf disputadas entre eles durante o mês anterior e recordaram os aniversários que se aproximavam. Após o almoço, fui chamada ao púlpito. De microfone à frente, houve que responder às perguntas dos presentes: onde fica Portugal? A língua nacional é o inglês? Qual é a sua opinião sobre o Japão? Podia falar-nos um pouco da história de Portugal? À despedida, o Rotary Club da aldeia de Omachi ofereceu-me uma esferográfica Mont Blanc.

A casa-templo do Hide-san: sala.




A casa-templo do Hide-san: tokonoma (a parte sagrada da sala).



A casa-templo do Hide-san: corredor.


A casa-templo do Hide-san: o bambu através das janelas.

Imagem de Kukai no jardim da casa-templo do Hide. Omachi, Saga-ken.

Hide-san.


O pai e a mãe do Hide-san.


Omachi.



Omachi.


Omachi.



Casa em construção. Omachi.


Torii. Omachi.


Rua de Omachi.

Bambu. Omachi.


Riacho. Omachi.

Mansão em Saga-ken.


Casa de Saga-ken.


Casa de Saga-ken.


Templo zen. Saga-ken.


Sino no mesmo templo.


Pequenos deuses com oferendas na Cascata da Longa-vida. Saga-ken.

Salão de pachinko em Takeo. em primeiro plano, o pai do Hide.


Salão de pachinko em Takeo.

Sasebo: a praia de Shirahama.


Miradouro das 99 ilhas, perto de Sasebo.
As 99 ilhas.



As 99 ilhas.

NAGASAKI – No meu segundo dia no Japão, fui sozinha à cidade para mim mais comovente do país: Nagasaki. Nagasaki situa-se muito perto do distrito de Saga. Claro que foi uma das cidades-vítima de uma das bombas atómicas. Claro que é o local onde se desenrola a acção da ópera de Puccini, “Madame Butterfly”. Mas Nagasaki foi ainda o porto mais importante das trocas comerciais entre Portugal e o Japão – através do entreposto de Macau – após a nossa “descoberta” daquele. Foi fundada em 1500 mas só ganhou importância histórica depois da chegada dos portugueses em 1542. Os nossos antepassados estabeleceram ali o seu posto comercial em 1571. Durante um curto período de tempo do Japão medieval, a cidade foi uma colónia jesuíta. Os jesuítas detinham o controle administrativo e militar. A feroz resposta ao domínio ocidental da área do general Hideyoshi Toyotomi, que unificou o Japão no séc. XVI, encontra-se bem patente no Museu dos 26 Mártires Cristãos- convertidos e missionários-, mandados crucificar por ele em 5 de Fevereiro de 1596. Tornaram-se, assim, nos primeiros mártires da Igreja no Japão. Todavia, ainda hoje Nagasaki permanece a cidade mais cristã do país. Estando tão longe de Portugal, foi com comoção que deparei, logo à entrada, com um vitral representando o Infante Dom Henrique. Na bilheteira, havia uma bandeira de Portugal e uma fotografia ampliada de um grupo de japoneses frente à Torre de Belém. O museu contava com várias relíquias portuguesas. A que mais me emocionou foi o grande chapéu negro que pertencera a um português do séc. XVI. Podia ver-se diversas estátuas de São Francisco Xavier e reproduções de caravelas portuguesas.
Quantas ressonâncias provoca Nagasaki numa alma portuguesa! Foi naquela cidade que veio a falecer, em 1532, o lisboeta Luís Fróis, missionário e primeiro historiador ocidental do Japão – o autor da “História de Japam”. O Padre Luís Fróis desembarcou no Japão em 1563 e viria a desenvolver a sua acção em Tokushima (onde viveria, quatro séculos depois, outro português, o escritor Wenceslau de Moraes), Kyoto e Oita. Nagasaki evoca sobretudo João Rodrigues, o Intérprete, que chegou ao Japão em 1577, com vinte anos de idade, e ali permaneceria até 1610. João Rodrigues, missionário e Procurador da Missão, foi ainda intérprete (aprendeu japonês com enorme facilidade) de Hideyoshi Toyotomi e de Oda Nobunaga, tendo como difícil função conciliar os interesses dos vultos mais poderosas da sociedade japonesa com os dos mercadores portugueses de Nagasaki. Nesta cidade foi publicada pela primeira vez a obra deste homem-ponte entre dois mundos, a “Gramática Portuguesa da Língua Japonesa”. Ainda hoje dela se socorrem os estudiosos japoneses para investigar a sua própria língua, tal como era no séc. XVI!
A ilha de Kyushu, onde se situam Nagasaki e Fukuoka, testemunha em pleno a grandeza desses bravos portugueses de outrora. Em Oita, na costa leste, exerceu a sua profissão durante anos o médico jesuíta lisboeta Luís de Almeida. Mal chegou a Oita, cujo nome então era Funai, impressionado com a alta mortalidade infantil provocada por alimentação deficiente, mandou construir uma creche com uma vacaria anexa. Em 1556, o ano seguinte, criou o primeiro hospital japonês de medicina ocidental. Mais tarde, fundou uma escola de medicina. Deste modo, os portugueses introduziram no Japão, entre muitas outras coisas, a espingarda, que mata, e a medicina, que cura; a acção missionária, mas também a acção científica. O hospital então erguido era grande, com leprosaria, orfanato e sala de operações. Luís de Almeida era também cirurgião; os portugueses desenvolveram sobretudo a cirurgia no Japão. O seu trabalho e o dos demais médicos portugueses em prol da humanidade sofredora e do desenvolvimento da ciência criaram raízes fundas no coração dos Japoneses. A estima destes pelos portugueses ainda não esmoreceu. No entanto, que pouco faz Portugal para não deixar que isso aconteça! Mete dó encontrar tantos japoneses, sobretudo nas províncias, que desconhecem que Portugal ainda existe, que há descendentes dos portugueses que estimaram e que a língua portuguesa sobreviveu! O proverbial desleixo consigo próprio de Portugal, tornando-o naquilo que não é, um país obscuro e irrelevante na cena mundial! A Índia e o Japão, dois países hoje de importância crucial, são precisamente aqueles onde mais se projectou a acção pioneira portuguesa do séc. XVI. As maiores contribuições científicas do Japão registam-se no campo da medicina ocidental e foram os portugueses que a deram lá a conhecer.
Em Oita existe o Hospital Luís de Almeida, assim como um busto seu. Oita possui uma série de monumentos aos portugueses como, no principal jardim da cidade, uma estátua com jesuítas a ensinar música a jovens japoneses e um monumento a Francisco Xavier, que ali chegou em 1551.
Passeei em seguida pela área adjacente ao museu, visitando pequenos santuários xintoístas e cemitérios budistas, avistando o porto com as suas embarcações de mastros embandeirados.
Hoje em dia, apesar da ferida infligida nos anos 40 do séc. XX, Nagasaki é uma cidade aprazível, com algumas calçadas à portuguesa e uma enorme estátua de Kannon, a Deusa da Misericórdia, o Avalokistewara dos hindus.
Evitando embora expressar-se em inglês, a população de Nagasaki foi extremamente prestável a indicar-me o caminho, como é vulgar entre os japoneses, capazes de puxar de uma caneta e de uma folha papel e nela desenhar o percurso a seguir com uma precisão milimétrica.
Cheguei assim ao epicentro da bomba atómica. É um local desolador: a areia ganhou um tom metálico e sombrio. Nos arredores, situa-se o Museu da Bomba Atómica. Um museu onde o horror foi colocado em vitrinas, exposto até ao mais ínfimo pormenor. 9 de Agosto de 1945. 11 horas e 2 minutos da manhã. 73 884 mortos. 74 909 feridos. 12 820 doentes crónicos. As educadas crianças japonesas, suplicavam por água e, quando lha davam, murmuravam arigato antes de morrer! A sua última palavra: obrigado. Estranhamente, pareceu-me que os poucos visitantes daquele dia olhavam o Museu com ar distraído.
Para descomprimir, visitei a Chinatown. As Chinatowns são raras no Japão e os artigos que eu comprava na China a tostão (eu vivia então em Pequim) vendiam-se por ali ao triplo do preço de origem.


Nagasaki e o seu porto.


As suaves colinas de Nagasaki.


Ruela de Nagasaki.



Janela. Nagasaki.


À porta de uma loja estava este boneco representando um nanbanjin, um português do séc. XVI. Nagasaki.


Igreja dos 26 Mátires Cristãos. Nagasaki.



Museu dos 26 Mártires Cristãos: as 26 figuras encontram-se esculpidas à entrada do museu. Nagasaki.


Entre os 26 mártires encontravam-se três adolescentes. Nagasaki.


Museu dos 26 Mártires Cristãos: lista de mártires portugueses em Nishizaka. Nagasaki.


Museu dos 26 Mártires Cristãos: pintura representando a crucificação dos mártires. Nagasaki.


Imagem de São Francisco Xavier.

Museu dos 26 Mártires Cristãos: modelos das embarcações portuguesas das rotas comerciais com o Japão. Nagasaki.

Museu dos 26 Mártires Cristãos: vitral representando o Infante Dom Henrique. Nagasaki.



Museu dos 26 Mártires Cristãos: chapéu nanban, provavelmente pertencente a um comerciante português. Nagasaki.

Estátua de Kannon, a deusa da Misericórdia. Nagasaki.





No epicentro da bomba atómica de Nagasaki.

Rua da Chinatown de Nagasaki.
TANEGASHIMA – Escolhi Julho para começar as minhas viagens pelo Japão porque tinha o sonho antigo de assistir ao Festival da Espingarda (Teppô Matsuri) em honra aos portugueses que, nessa pequena ilha do sul do país, deram a conhecer a existência da espingarda aos japoneses. E isso transformaria para sempre o país. O festival realiza-se anualmente no último fim-de-semana de Julho.

Hide e eu tomámos o comboio JR (a única companhia a operar em Kyushu) para Kagoshima, a cidade no extremo sul da ilha, com o seu vulcão Sakurajima sempre a fumegar frente ao porto. Foi em Kagoshima que desembarcou São Francisco Xavier, o fundador da cristandade no Japão, em 1549. Chegámos de madrugada e, poucas horas depois, subíamos a bordo do ferry-boat para Nishino-omote, a principal cidade de Tanegashima. Para entrar no ferry-boat formara-se uma bicha compacta e desordenada, como se a influência portuguesa começasse desde ali a fazer-se sentir.
A viagem de barco de mais de quatro horas foi surpreendentemente enriquecedora. Os passageiros sentavam-se no chão, depois de descalçarem os sapatos num estreito corredor. De súbito, senti-me perto da vida japonesa, pois presenciei naquele espaço fechado e apinhado de famílias muitos desses pequenos gestos e atitudes que unem e tornam semelhante toda a humanidade. Mães gorduchas e risonhas que despiam o seu próprio casaco para cobrir os filhos adormecidos; mães cansadas estendidas ao lado dos bebés; crianças a pedincharem dinheiro para comprar guloseimas; pais embevecidos com as pequenas proezas dos seus filhos; homens a jogar cartas; bebés chorando por colo. Era a vida comprimida num barco.
Mesmo em frente do porto de Nishino-omote tive uma surpresa. Havia uma estátua representando a figura do Infante, no meio de um tanque artificial. Era, como se podia ler em japonês e português numa placa de azulejos, a Praça da Amizade Japão-Portugal.
O dono do minshuku (pequena estalagem privada) onde ficámos instalados veio buscar-nos ao porto na sua carrinha, pois chovia torrencialmente. Suspeitava-se da aproximação de um tufão.
Depois de nos termos desenvencilhado das mochilas no minshuku, saímos para a rua. Por todo a parte, havia bandeirinhas de Portugal e do Japão, colocadas lado a lado. Nas montras viam-se cartazes a anunciar o festival e também a Fesuta Porutogaru (Festa Portugal), o espectáculo de domingo à noite com a participação de Rão Kyao e outros artistas portugueses (fadistas e um rancho folclórico). Não podia crer que eu, que nunca tinha ido a um concerto do Rão Kyao em Portugal, o fosse afinal ver nas remotas paragens de Tanegashima!
Na primeira loja de recordações em que entrámos, deparámos logo com o dono – um japonês muito típico, de pernas arqueadas – e a sua mulher, envergando t-shirts portuguesas com o Galo de Barcelos e uma caravela estampados!
Dirigimo-nos para o Museu da Espingarda, cujo edifício tem a forma de uma lorcha, uma embarcação que é um híbrido de navio português e junco chinês. Mal entrei vi o Rão Kyao, que acabara precisamente de visitar o museu.
Em especial para um português, o Museu da Espingarda é fantástico. Pode ver-se uma espingarda portuguesa da época em que os portugueses chegaram à ilha e a réplica que dela fizeram os japoneses. No espaço de um ano, tinham invadido todo o território. Há um palcozinho giratório, onde marionetas mecanizadas vão ilustrando a história da chegada de Fernão Mendes Pinto à ilha, o seu encontro com o jovem daimyo de 16 anos, Tokikata, e a paixão entre a filha do ferreiro que forjou a primeira espingarda japonesa e o próprio Fernão Mendes Pinto (trata-se de uma lenda sem confirmação histórica; Fernão Mendes Pinto parece não ter estado presente nesse encontro inicial, embora lá tenha ido pouco depois). E mostram-se exemplares das armaduras reforçadas que os samurais passaram a usar após a introdução da espingarda no país. Numa sala, podemos deleitar-nos com espingardas de todo o mundo.
No dia seguinte, domingo, havia os desfiles. Mas o Hide começou a sentir-se mal e teve de ficar no minshuku. Tudo começou com uma demorada cerimónia xintoísta num pequeno santuário, que contou com a presença do embaixador português no Japão. Além dele, de mais um ou dois membros da embaixada e do Rão Kyao e demais artistas, era eu a única portuguesa em Nishino-omote. A meio da manhã, surgiram três americanos. A presença de portugueses é infelizmente tão rara naquele festival e naquela ilha que, quando eu passava, a multidão sussurrava: amerikajin (americana)!
O desfile da manhã era sobretudo constituído pelos padres xintoístas e por vários omikoshi, altares ambulantes, um dos quais encimava um tambor no qual dois homens batiam, frenéticos, dando gritos selvagens. Eram seguidos pelos carregadores, todos homens e vestindo muito sumariamente de branco. A dada altura, os carregadores viravam o omikoshi para um lado e os carregadores do lado oposto trepavam para cima dele num ápice. De quando em vez, pequenas tendas debruavam as bermas dos caminhos: ofereciam chá, água, onigiri e rebuçados aos participantes no desfile. Como eu era a única estrangeira por ali, também me ofereciam de tudo.
Havia também um homem vestido de Tengu. Os Tengu são deuses menores, ligados tanto à mitologia budista quanto à mitologia xintoísta. São os patronos das artes marciais. Este era um Yamabushi Tengu (um Tengu monge das montanhas), que habita nas montanhas densas de pinheiros e hinoki (nogueira japonesa), essa árvore fabulosa de folhas em leque que tanto se vê no Japão. Os Yamabushi Tengu reconhecem-se pelo enorme nariz, que simboliza o seu ódio aos preconceituosos e aos arrogantes.
Entre a multidão apinhada nas bermas das ruas, muita gente empunhava bandeirinhas de Portugal. Enquanto eu passava, preocupada em fotografar a par e passo o desfile, ia ouvindo gritinhos furtivos de gaijin! (estrangeira). Os habitantes de Tanegashima não estão acostumados a ver estrangeiros.
À hora do almoço deu-se um acontecimento inesperado. Caminhava eu com um gelado de chocolate na mão, quando uma senhora de quimono me interpelou. De tudo quanto ela me disse só percebi “ocha ocha” (eu tinha havia pouco tempo apenas começado a aprender japonês), e apontava para uma porta ao lado. Em face de tanta insistência, resolvi aceder a tomar a tal chávena de chá. Fui recebida por um senhor de meia-idade, envergando um elegante quimono negro e que me fez repetidas vénias. Confusa, consegui distinguir atrás dele vários casais, todos muitíssimo distintos nos seus quimonos. O senhor encaminhou-me para uma mesinha e fez-me sentar. Lancei uma olhadela para trás de mim: os casais tinham-se sentado em longas mesas dispostas horizontalmente. Falando-me sempre em japonês, o senhor levou consigo o meu gelado de chocolate. Compreendi uma palavra: hazukashii (“não fica bem”, “é vergonhoso”). Reparei numa mesa colocada perpendicularmente à minha. Uma senhora de quimono, dando pequenos passinhos estudados, dirigiu-se a ela. E foi assim que começou a minha gloriosa participação num chado (cerimónia do chá), sentada no lugar de honra! Quando dei por ela, já era tarde demais… Ainda por cima, havia fotógrafos e uma câmara de televisão! A minha ignorância iria ser filmada!
Após complicados e ritualistas gestos em volta de uma taça de chá, a senhora ergueu-se e, nos seus passinhos miúdos, veio na minha direcção. Curvou-se numa profunda vénia e colocou-me à frente uma espécie de biscoito (okashi). Engoli o biscoito, esperando que fosse a única coisa possível de se fazer com um biscoito. Nova vénia e a senhora ofereceu-me então a taça de chá que estivera a preparar tão aturadamente. Nervosa, olhei à minha volta. Acudiu-me o senhor do quimono negro. Pegou nas minhas mãos e fê-las voltear várias vezes a taça, lançando-me uma catadupa de instruções em japonês. Por fim, pude, em três ou quatro goles rituais, beber o verde e amargo chá japonês. Durante todo o processo, as câmaras disparavam sobre mim. De novo o senhor do quimono negro tomou as minhas mãos e fê-las voltear a taça. A senhora veio então buscá-la, o que constituiu para mim enorme alívio. Nessa altura, surgiram duas meninas que principiaram a servir os casais, até ali aguardando que eu – convidada de honra de pólo e calções – terminasse de beber o meu chá. Quando me foi possível escapar dali, entre vénias vindas de todos os lados e casais com quimonos estonteantes, lancei-me de novo, meia zonza, às ruas de Nishino-omote. E que vergonha a redobrar ao descobrir, no reflexo de uma montra, que a minha cara estava completamente borrada de gelado de chocolate! Ficaria traumatizada com a cerimónia do chá, se não tivesse regressado ao Japão no ano seguinte e participado em mais duas, sem ser convidada de honra e sem gelado de chocolate!
Pela tarde houve o desfile nanban (à letra, “bárbaros do sul”, termo que designava os portugueses). É divertidíssimo, em especial para um português. Iniciou-se com vários grupos de homens vestidos como antigos artilheiros. Competindo entre si, dispararam espingardas que eram réplicas das que os portugueses lhes mostraram em 1543.
O encontro em Tanegashima dos lusitanos e dos nipónicos e subsequente introdução da espingarda foi um acontecimento crucial na história do Japão. A palavra Tanegashima passou a ser de uso coloquial no Japão para designar qualquer espingarda. A alma do samurai era a sua espada. A guerra da espada era honrosa. Mas eis que surgiu um instrumento que disparava balas e matava à distância. Os samurais conservadores pareciam incapazes de o aceitar. No entanto, a espingarda abriu o seu caminho e a guerra no Japão nunca mais foi a mesma.
Duas enormes caravelas pintadas com a palavra “Macau”, reproduziam as do tempo das grandes navegações. Automóveis camuflados no seu interior transportavam-nas pelas ruas da cidade. Numa das caravelas via-se um grupo de japoneses adultos com trajes a imitar os dos navegadores de outrora – um representava Fernão Mendes Pinto, outro o capitão, um terceiro o intérprete chinês; e uma rapariga de quimono era a namorada de Fernão Mendes Pinto. Na outra caravela, as personagens eram as mesmas mas em versão infantil: os tripulantes eram crianças.
Em volta das caravelas pululavam muitos rapazes vestidos à moda dos portugueses de antanho, empunhando as espingardas. As indumentárias faziam rir qualquer um. Pareciam antes palhaços. Mas realmente, as vestes daquela época tinham certo ar apalhaçado. Havia ainda a comitiva dos “chineses” (o comércio com o Japão fazia-se através do entreposto de Macau), sempre a lançar foguetes; a comitiva dos arqueiros japoneses, com lindas vestes largas; a comitiva de mulheres que dançavam o bon-odori de Tanegashima, etc. A cavalo deslocava-se o jovem daimyo Tokikata que teria recebido Mendes Pinto; atrás, o ferreiro que forjara a primeira réplica japonesa da espingarda. E muitos outros grupos, cada qual com seu propósito. O desfile terminou com uma nova competição entre os artilheiros.
Um grupo de garotas entre os nove e os onze anos rodeou-me. Começaram a falar comigo através de perguntas simples. Era óbvio que nunca tinham estado tão próximas de um ocidental. Tocavam-me nos cabelos para ver se eram de verdade; faziam-me cócegas e davam-me beliscões para verificar se eu reagia de modo idêntico aos japoneses; testaram a minha agilidade manual. Pediam-me que as acompanhasse aqui e ali, decerto por lugares onde desejavam ser vistas, e deitavam a língua de fora às outras crianças que passavam, orgulhosas do seu troféu.
À tardinha, começou a Festa Portugal. Rodeada pelas rapariguinhas, era eu a única estrangeira entre a assistência. O Hide sentia-se melhor e juntara-se a nós. Rão Kyao e a sua banda subiram ao palco todos de vestes brancas à indiana. Ver rostos portugueses naquele recanto do mundo! E ouvir a bela língua portuguesa a ressoar no auditório! Excelente espectáculo. Quando o concerto terminou e me encaminhei para o minshuku, as melodias do meu país, reavivadas na minha memória, ainda se faziam ouvir por dentro de mim. Principiara a chover.
A chuva era provocada pela aproximação do tufão. No dia seguinte não pudemos regressar a Kagoshima. Ficámos retidos em Nishino-omote. Foi o primeiro tufão da minha vida.
Este não é o único festival de temática portuguesa no Japão. Realiza-se um outro em Nagasaki.
Quando regressei a Portugal resolvi enviar o relato da minha experiência em Tanegashima à Associação de Amizade Portugal-Japão. O Dr. Pedro Canavarro, muito simpaticamente, acusou a recepção do texto e das fotografias. No ano seguinte, na Universidade de Línguas Estrangeiras de Kyoto, qual não é a minha surpresa ao deparar com o Dr. Pedro Canavarro, a Dra. Helena Vaz da Silva – então Directora do Centro Nacional de Cultura - e demais comitiva a caminho do Festival da Espingarda, iniciativa tomada no âmbito das comemorações dos 450 anos da chegada dos portugueses ao Japão. Fiquei muito feliz por, nesse ano, ao contrário do anterior, o povo de Tanegashima poder comemorar o seu festival contando com bastante mais presença portuguesa.












A Praça da Amizade Japão-Portugal em Nishino-omote, Tanegashima.
Estátua do Senhor Tokikata. Nishino-omote, Tanegashima.


O Museu da Espingarda de Tanegashima, em forma de lorcha, embarcação luso-chinesa. Reparar nas bandeiras de Portugal e do Japão no topo do edifício.