É meu!

É meu!
Pare com o roubo de conteúdo!

17 dezembro, 2006

JAPÃO! JAPÃO!
A minha primeira viagem ao País do Sol Nascente


As cigarras cantam
Ignorando que é a morte
Que as escuta


Ervas de verão:
Eis o que resta
do sonho dos samurais

Haiku de Matsuo Basho



INTRODUÇÃO


É sabido que viajar num país estrangeiro e nele viver são situações bem diversas. A minha primeira estadia no Japão teve o carácter efémero de uma viagem de um mês. Segundo avisam, não só o autor do guia do Japão que utilizei (e que lá vivia havia mais de uma dezena de anos), como também, muito antes dele, o nosso Wenceslau de Moraes, o Japão é um país que enfeitiça até à obsessão os estrangeiros que por ele passaram em viagens de curta duração, mas que acaba por desiludir profundamente aqueles que resolvem por lá se estabelecer. É certo que esta evolução é susceptível de se desencadear em muitos outros países – talvez em todos – mas, segundo consta, tal experiência é ainda mais óbvia no Japão.
Nunca passei um ano sequer no Japão. Não tive ocasião de perceber ou sentir in loco os problemas do país, as suas contradições, a proverbial xenofobia do seu povo, os preconceitos e ideias feitas acerca dos estrangeiros e o inevitável choque de mentalidades. Estes factores conheço-os do convívio que tenho mantido com japoneses habitando temporariamente fora do seu território (foram alguns destes que me ofereceram a sua hospitalidade durante a viagem que aqui vou narrar), mas não houve oportunidade de os confirmar no Japão, a não ser superficialmente.
Os japoneses são mestres na arte da ilusão e uma das suas habilidades é fazerem crer aos turistas de passagem que o seu país se aproxima do paraíso. Atitude que parece que muda radicalmente no momento imediato em que tomam consciência de que o estrangeiro veio para ficar. Porque é claro que se trata de uma ilusão. As ilusões, porém, também são factos, e dão encanto e mistério à vida humana. Só posso, pois, estar reconhecida ao Japão em geral e aos meus amigos japoneses em particular que, com a sua mestria na arte de iludir, a sua infinita paciência e inexcedível amabilidade, me levaram a usufruir do seu país – sempre fascinante e sugestivo para olhos ocidentais – como se caminhasse num sonho.

EM OMACHI, DISTRITO DE SAGA – No primeiro dia de Julho de 1991, o Hide e eu tomámos o avião que liga Pequim à cidade japonesa de Fukuoka, na ilha de Kyushu.
Pelo fim da tarde, atingíamos Omachi, a aldeiazinha que abrigava a casa de Hide. A casa de Hide era também um templo dedicado ao grande mestre Kukai (sécs. VIII-XIX d.C.), o fundador da corrente Shingon (Palavra Pura) do budismo, além de calígrafo, poeta e artista. Formado em Filosofia Ocidental com uma tese sobre Nietzsche, o pai do Hide seguiu a tradição familiar e tornou-se monge budista. O seu filho, um dia, sucedê-lo-ia.
A casa-templo da família, como seria de esperar, era um exemplo de arquitectura tradicional japonesa, com amplos espaços em comunicação com um jardim exterior. Tudo era madeira e bambu, uma rara sensação de frescura no calor tórrido de Kyushu, uma das quatro ilhas principais do arquipélago. O Japão é, por excelência, o país da madeira e do bambu. Utilizam estes materiais com tal mestria que transformam os artefactos mais prosaicos em objectos estéticos de enorme delicadeza: vedações, portõezinhos, torneirinhas.
Era a primeira vez que vivia com uma família japonesa, numa casa japonesa. Comer em mesas baixas, dormir sobre o tatami (as esteiras que cobrem o chão das casas japonesas), correr – e não abrir – as portas shoji e janelas onde o vidro é substituído pelo papel, tudo eram gestos com sabor a descoberta.
Acordava às sete da manhã ao som das rezas budistas do Hide e do pai, que se evolavam até mim vindas do altar a Buda: Namuamida! Namuamida!
Habituei-me ainda ao modo nipónico de tomar banho. Utilizam para se esfregar, não esponjas, mas toalhitas e sentam-se em banquinhos minúsculos. Por isso, o chuveiro está colocado a um nível muito baixo, como se fosse servir uma criança. Existe ainda o furo, uma espécie de banho de imersão a ferver para relaxar após o duche. A mesma água é sucessivamente usada por todos os membros da família, o que se compreende porque primeiro lavaram-se no duche. O furo reveste-se de importância ritual para os japoneses e é-lhes difícil entender a facilidade com que os ocidentais o dispensam. O banho é um rito que se paga nos famosos onsen, ou hot-springs. Como bons japoneses, a família do Hide rejubilava com uma ida a um onsen. Certo dia, após uma escalada aventurosa a uma montanha de Omachi, entre cerradas concentrações de bambus, também os acompanhei a um onsen em Ureshi-no, seguido de um kari-raice (caril rice) em Takeo.
Passava quase todos os dias por Takeo, nos passeios de carro com o Hide. Em Takeo eu comprava gelados e o Hide alugava C.D.’s dos Southern All Stars, o nosso grupo rock japonês preferido, o que teve maior sucesso e mais duradouro no país. Descrevem-nos como os Beatles japoneses. Agora já entraram na fase de declínio. Eu e os meus amigos japoneses éramos todos fãs dos Southern All Stars.
Íamos a Fukuoka, a maior cidade da ilha de Kyushu e um porto internacional há vários séculos, com uma longa tradição de trocas comerciais com a China e a Coreia. Há quem afirme que é a cidade mais velha do Japão, devido a essa proximidade com o continente. Foi o local escolhido pelos mongóis de Cublai Cã para as invasões do Japão no séc. XIII. A palavra kamikaze, associada hoje em dia aos pilotos suicidas da Segunda Guerra Mundial, foi usada nessa época para designar o tufão que obrigou os Mongóis a recuar, salvando os japoneses, que estavam em séria desvantagem numérica. Kamikaze significa “vento divino”.
Agora, porém, Fukuoka é uma grande cidade moderna, de onde é originária a maioria dos músicos pop do país. Ia com o Hide aos enormes depato (centros comerciais) e passávamos horas nas suas longas livrarias. As livrarias japonesas não deixam de ser uma experiência porque, para os olhos estrangeiros, as capas dos livros japoneses parecem todas indicar tratar-se de obras destinadas a crianças e adolescentes. Exibem desenhos multicolores semelhantes aos das manga, com rostos e expressões estereotipadas. Como é sabido, a par do requinte tradicional, os japoneses cultivam ainda um gosto acerbo pelo kitsch e pelo infantilizante, o kawaii (o amoroso, o queridinho, o fofinho). Kawaii é, de longe, o adjectivo favorito dos nipónicos.
As manga são consumidas às toneladas. Por toda a parte, no Metro, no autocarro, os japoneses dos 7 aos 77 anos enfiam o nariz nos seus calhamaços de manga. A maior parte deles são editados em papel reciclado, pois a prática comum é lê-los e deitá-los fora.
Nos depato as atracções eram muitas. Só por si, a secção de electrónica era um espectáculo. Nas agências de viagem, os clientes sentavam-se a ver vídeos (a era DVD ainda não chegara) sobre os países que desejassem conhecer.
Regressávamos ao fim do dia em camionetas luxuosas, o comum no Japão. Os carros e camionetas eram muito modernos e impecavelmente limpos, brancos na sua maioria. Os japoneses preferem carros brancos (o branco é uma cor estimada, em geral) porque, assim, a sujidade não passa desapercebida. Não a querem disfarçar, querem eliminá-la. Deslizávamos por auto-estradas, túneis sem fim e inúmeras portagens (os japoneses pagam caro a qualidade da sua rede rodoviária). Nas auto-estradas, o ambiente é de ficção científica, tal é o papel da electrónica. Reentrar, após uma viagem, no interior das casas de madeira com o chão coberto de tatami é um contraste inesquecível. Tornou-se um lugar-comum afirmar que o Japão é um país e contrastes, mas continua a ser verdade.
Em Arita visitámos o templo do avô do Hide e apreciámos exposições da louça da região. A cerâmica de Arita, com cerca de 400 anos, sobretudo a de motivos azuis sobre fundo branco, é famosa no mundo inteiro. E visitámos Sasebo, a praia de Shirahama e o mar barrento de Ariakekai, onde, segundo me informou o Hide, habitam espécies marinhas raras. Entre Sasebo e Hirado, existe uma cena natural maravilhosa, as 99 ilhas verdejantes de Kujukushima. Na verdade, são 208 ilhas espalhadas por vinte e cinco quilómetros.
À noite lia o Budô Shoshinshu (“Manual de Iniciação à Via do Guerreiro”), de Daidoji Yuzan Shigesuke e o Hagakure (“Por detrás da folhagem” ou “À sombra das folhas”) de Yamamoto Tsunetomo, dois célebres códigos de honra dos samurais. O Hagakure foi escrito precisamente em Saga, pois Yamamoto aí nasceu em 1659. Nessas obras capta-se a essência do espírito samurai que, de algum modo, impregnará ainda o Japão actual: “A Via do Guerreiro é realizada na presença da morte. (…) A Via do Guerreiro é-o em desespero. (…) Os grandes empreendimentos não podem ser levados a cabo com sensatez. Há que tornar-se louco e desesperado.”

Um dia, o pai do Hide, monge aficcionado do golf (o golf era então a última obsessão japonesa e um meio de promoção social) e, sobretudo, do jogo (o mahjong), levou-nos a Takeo para ver jogar pachinko. Nos salões de pachinko reina uma barulheira e uma iluminação estonteantes. No entanto, os jogadores sentam-se frente às máquinas em profunda concentração.
Estreei-me num restaurante japonês típico, onde comemos sentados sobre tatami e as refeições eram servidas em caixas finamente decoradas. Envergando um quimono, o dono do restaurante recebia os clientes, saudando-os com vénias.

Omachi é uma aldeiazinha simpática. Tudo parece de brinquedo, um conjunto de construções infantis. Casinhas frágeis e ruazinhas sempre cheias de bandeiras coloridas a publicitar os mais variados produtos (cerveja Kirin, etc.). Mas possui alguns santuários xintoístas e templos budistas, um dos quais era o templo zen onde o Hide aprendera a fazer zazen (meditação zen) antes ainda de ingressar na escola primária. Nos arredores de Omachi encontram-se imensos arrozais onde brancas garças esvoaçam. Dispersas, belíssimas moradias de madeira, algumas rematadas com tectos de colmo. De um lado, avistam-se montanhas ao longe; do outro, avista-se ao longe o mar. E, encimando tudo, o revolto céu do Japão, paleta de cor em movimento.

Quando me preparava para deixar Kyushu, fui convidada pelo Rotary Club, do qual o pai do Hide era membro, para o seu almoço mensal. Estavam presentes os 50 membros do clube – todos homens. A única mulher, além de mim, era uma senhora encarregada de preparar as mesas. Eu, claro, era a única estrangeira. Os membros do clube principiaram por cantar o hino do Rotary Club. De seguida, divulgaram os resultados das partidas de golf disputadas entre eles durante o mês anterior e recordaram os aniversários que se aproximavam. Após o almoço, fui chamada ao púlpito. De microfone à frente, houve que responder às perguntas dos presentes: onde fica Portugal? A língua nacional é o inglês? Qual é a sua opinião sobre o Japão? Podia falar-nos um pouco da história de Portugal? À despedida, o Rotary Club da aldeia de Omachi ofereceu-me uma esferográfica Mont Blanc.

4 comentários:

Laurent disse...

Konnichiwa,Okawa Ryuko san
Tout dabord merci beaucoup pour la petite visite sur mon espace perso et le sympatique commentaire que vous avez laissé sur mon livre d'or,cela fait toujours plaisir d'avoir des contacts avec des personnes ayant la passion du Japon comme moi.
Les photos de votre blog sont formidables,vous avez fait un fantastique voyage qui je pense vous a comblé de bonheur.
Le Japon est un pays vraiment fantastique.
Je suis vraiment déçu de ne pas comprendre le Portugais car je n'ai pas pu lire le récit de votre voyage,mais en regardant les photos j'ai réussi un peu à comprendre.
Je vous souhaite une excelente soirée,de bonnes fêtes de fin d'année et dômo arigatôgozaïmassou pour la visite sur mon blog.
Sayônara, Laurent.

ROADRUNNER disse...

Espectacular! Estou a descobrir através das tuas palavras e fotos coisas que desconhecia e que revelam ainda mais a ligação Portugal-Japão.
Não sei se confessas o Cristianismo, caso não, mas se comungas pelo menos do espírito natalício, e apesar de não ser preciso ser Natal para desejar tais coisas, um Feliz Natal com muita paz e saúde.
Saudações!

Laurent disse...

sKonnichiwa,Okawa Ryuko San
Un petit bonjour avant que l'année 2006 ne s'acheve!!
L'art du Kyudo est une discipline vraiment fantastique qui demande énormément de patience et une maîtrise de soi maximum.Depuis quand pratiques tu cet art? (j'éspere que le tutoiement ne te dérange pas car je trouve cela plus sympatique).
J'aurais bien volu pratiquer le Iaïdo ou le Kendo mais mon emploi du temps professionnel ne me le permet pas dommage!! :-(
Va voir ce site qui est tres interessant sur l'histoire du Japon féodal et qui traite des sujets les plus divers,l'adresse est: samouraïs.free.fr cela devrait t'interesser.
Je suis retourné voir les photos de ton blog et le kimono te va à ravir :-)
Combien de temps es tu restée au Japon?
en ésperant que l'année 2006 se termine bien pour toi pour mieux commencer 2007 je te souhaite une bonne année et te dit à l'année prochaine!!!...
Sayônara,Laurent.

Anónimo disse...

Konbanwa,Okawa Ryuko San
eh bien voila nous y sommes en 2007 alors meilleurs voeux pour cette année qui commence :-)
alors cela fait un mois que tu pratiques le kyudo,donc c'est tout récent j'éspere que tu es patiente et que tu as un caractere assez calme, car pour arriver à assimiler un certain niveau il faut du temps et de la perséverance comme tout les arts martiaux !!
Donc tu es partie en chine également pour étudier ce doit etre également un pays extraordinaire mais certainement différent du Japon.Pékin doit etre une ville gigantesque avec des millions de personnes qui grouillent de partout,ce doit etre tres animé.
Tu devrais expliquer sur ton blog l'art du kyudo je pense que cela pourrait interésser du monde ,moi le premier ;-)
En ce qui concerne le Kendo comme je te l'ai écrit la derniere fois je n'ai pas le temps de le pratiquer car si je commence quelque chose c'est pour me consacrer à fond dans cette voie et ça demande beaucoup d'entrainement et donc du temps!! (comme le kyudo)Mais on peut etre un Samouraï meme sans pratiquer le Kendo,tout est dans la philosophie de vie et dans son comportement de tout les jours mais le Bushido (la voie du guerrier)est également tres dur à appliquer!!
Je te souhaite une excellente soirée,à bientôt amicalement,Laurent.