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09 dezembro, 2006

KAMAKURA – Se eu morasse no Japão, creio que escolheria Kamakura, para viver à sombra da estátua do Grande Buda. Kamakura é uma fortaleza natural, rodeada de montanhas por três lados e desaguando no mar pelo quarto. Foi o local do primeiro governo do xogunato, inaugurado por Yoritomo Minamoto, da família Genji, ao destruir a família Heike no séc. XII e, durante séculos, o centro político, diplomático e cultural do país.
Kamakura é adorável, polvilhada de templos de uma beleza indizível. Aqui e ali, figuras de monges, nas suas vestes largas, quebram a rotina das ruas.
O Kencho-ji foi o primeiro templo zen Rinzai do Japão e é o número um de Kamakura. Ficou terminado em 1253. O fundador foi Hojo Tokiyori, o quinto regente da cidade. Este solicitou a um eminente mestre zen (em chinês chan, meditação) chinês, Lanxi Daolong (Rankei Doryu) que se tornasse no seu primeiro abade. Sob a sua batuta e a dos abades que lhe sucederam, o templo ganhou renome, formando mais de mil monges. O sino do templo data da fundação e diz-se que as inscrições que apresenta são obra do próprio Lanxi Daolong. As árvores em frente ao pavilhão de Buda vieram da China há muitos séculos atrás. Para além de tudo isso, por detrás do Kencho-ji existe uma colina que conduz ao santuário de Hansobo. Essa colina é absolutamente inesquecível porque se encontra polvilhada de estátuas de Tengu, o patrono das artes marciais: Yamabushi Tengu (Tengu eremitas das montanhas, de longo nariz) e Karasu Tengu (Tengu com feições de pássaro), cada qual com sua arma, em poses guerreiras, dão vida à vegetação e atraem o nosso olhar e o nosso sorriso.
O santuário mais importante da cidade é o Hachimangu. Hachiman é o deus xintoísta da guerra e o protector divino do Japão e dos japoneses (sobretudo dos samurais), como não podia deixar de ser com um povo guerreiro por excelência. Também era o deus patrono do clã Minamoto e foi fundado por Minamoto Yoriyoshi em 1063 e alargado por Minamoto Yoritomo, o primeiro xógum de Kamakura.
O referido xógum, diz-se, teve um dia um sonho. Apareceu-lhe um deus que lhe recomendou a construção de um santuário de modo a conseguir paz para o país. Esse sonho ocorreu no dia da Serpente, no mês da Serpente e no ano da Serpente. Minamoto Yoritomo obedeceu ao deus e mandou construir o Zeniarai Benten. Zeniarai significa “lavar moedas”. E é por isso que o santuário é tão popular. Está sempre cheio de gente a lavar dinheiro nas suas águas. Assim, acredita-se, ele duplicará. Devido à sua ligação com a serpente, também foi dedicado à deusa Benten, uma deusa budista associada às serpentes. Este santuário demonstra bem a convivência pacífica entre o xintoísmo e o budismo. Para chineses e japoneses, nada há de mais esquisito do que guerras por razões (ou desculpas) religiosas. Na vida do japonês típico, xintoísmo, budismo e confucionismo – e até cristianismo (é comum casarem-se também à moda ocidental) – estão presentes na sua vida, dependendo das ocasiões.
É a estátua da deusa Kannon com onze cabeças, cada qual representando uma das suas características, e mais de nove metros de altura, que dá fama ao Templo Hase, da seita Jodo. Trata-se da maior estátua em madeira do país.
Além dos templos há, claro, a estátua do Grande Buda, que me apaixonou mais do que o Grande Buda de Nara, igualmente famoso. Tenho visto incontáveis estátuas de Buda, de variados tamanhos e proveniências, por toda a China, Tibete, Tailândia, Coreia, variando de expressão e de aparência de país para país e de época para época, algumas muito maiores do que o Buda de Kamakura e quem sabe? até mais belas. Mas a funda serenidade e força que transmite o Buda de Kamakura, do alto dos seus onze metros, sentado na posição de lótus, as mãos repousando no mudra da meditação, talvez me tenha impressionado mais do que todos os outros. O templo que o albergava foi varrido por um tsunami (palavra japonesa que faz agora parte do vocabulário internacional) no séc. XV. Mas a estátua resistiu como se Buda tivesse escolhido permanecer ao ar livre.

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