É meu!

É meu!
Pare com o roubo de conteúdo!

15 dezembro, 2006

KYOTO – Kyoto, a Miaco dos Portugueses do séc. XVI, é uma cidade baixa que, além dos seus famosos templos (1660) e santuários (400), exibe ainda um leque de recantos anónimos inesperadamente encantadores. É Património Mundial e considerado o centro cultural do país. Alberga quarenta universidades, uma das quais eu viria a frequentar durante um mês no ano seguinte, a Universidade de Línguas Estrangeiras de Kyoto. Foi a capital do Japão e a residência do Imperador durante mil anos, do séc. VIII até 1868, ao advento da Era Meiji. Kyoto significa isso mesmo “cidade capital”. Tóquio significa “capital do leste”. Kyoto foi destruída várias vezes por guerras e fogos, mas foi poupada ao destino - por um triz e devido ao seu inestimável valor histórico-cultural - de ser o alvo de uma das bombas atómicas lançadas pelos americanos na Segunda Grande Guerra. Por conseguinte, trata-se da única cidade do país que ainda se pode vangloriar de possuir em abundância edifícios anteriores a essa guerra nefanda.
Em Kyoto, a Yoshida-san e eu morámos no minúsculo e atravancado apartamento da sua avó, em Fukakusa, na área da estação de Tobakaido. Logo após o pequeno-almoço, lançávamos um ittekimasu! (expressão usada pelas pessoas cada vez que saem de casa; à letra “vou e volto”) e partíamos em demanda dos templos de Kyoto. Regressávamos depois do jantar ao apartamento, onde nos aguardava o sorriso sempre acolhedor daquela velhinha japonesa.
A Yoshida-san trabalhara como guia turística, de maneira que a minha passagem pela área de Kyoto teve a marca do seu toque profissional. Éramos capazes de bater o recorde de visitar onze locais históricos num só dia. Claro que a excelente organização dos transportes e do tráfico no Japão não contrariava os nossos propósitos.
Na minha adolescência, devorei muitos livros de Yukio Mishima, o escritor japonês que, em 1970, cometeu harakiri (a palavra correcta é seppuku, mas ambas significam rasgar a barriga) e um dos mais traduzidos no ocidente. Após ter lido o seu romance “Kinkakuji” (“O Templo Dourado”), prometi a mim mesma que um dia teria de o visitar. O primeiro templo que visitei em Kyoto foi, pois, o Templo Dourado. E não me desiludiu. Completamente revestido de folhas de ouro puro, a sua beleza é tão extrema que se torna difícil de suportar. Compreendi o drama do monge que, em 1950, enfeitiçado pelo Templo Dourado, acabou por lhe deitar fogo para que a sua perfeição fosse extinta pelas chamas. O Kinkakuji foi construído pela primeira vez em 1397, pelo xógum Ashikaga Yoshimitsu, como um local de retiro e descanso. O filho converteu-o num templo zen da escola Rinzai. Foi arrasado várias vezes devido a guerras e fogo. A construção actual data de 1955.
Como a maioria dos japoneses, a Yoshida-san preferia o Ginkakuji (“Templo Prateado”). Tinha mais wabi sabi, disse.
Eu exultava ao ouvir aquele termo, wabi sabi, sobre o qual havia lido, a sair verdadeiramente de bocas japonesas. Em poucas palavras, wabi sabi é um conceito que exprime uma visão estética baseada na aceitação da transitoriedade de tudo quanto existe. Assim, o belo é aquilo que é imperfeito, efémero ou incompleto, tal como a vida: nada permanece, nada está completo, nada é perfeito. Aquilo que tem wabi sabi, sendo irregular, despretensioso e ambíguo, desperta no nosso interior um sentimento de melancolia serena, como o do eremita que se desligou dos bens materiais e se afastou da vida mundana. Várias manifestações da cultura japonesa são expressões de wabi sabi: o ikebana (o arranjo de flores), os jardins de pedra e gravilha, o chado (cerimónia do chá), o kyudo (tiro ao arco), a poesia – em especial o haiku – a cerâmica japonesa. O wabi sabi encontra-se directamente ligado ao mono no aware, à sensibilidade em relação às coisas, à sua efemeridade, que os japoneses crêem ser um exclusivo seu.
Naquele dia, porém, Yoshida-san render-se-ia à solidão esplendorosa do Templo Dourado.

O Templo Prateado devia ter sido revestido a prata mas não chegou a sê-lo, devido à guerra. Ao contrário do Templo Dourado, ficou incompleto, imperfeito, daí ter mais wabi sabi. Foi erigido pelo neto de Ashikaga Yoshimitsu, o xógum Ashikaga Yoshimasu. Assim, não intencionalmente, mas devido às restrições da guerra, o Templo Prateado é hoje um modelo arquitectónico de contenção e simplicidade. No seu peculiar jardim de areia e pedra existe um cone de barro com o topo cortado que representa o Monte Fuji.

Além do Templo Dourado e do Templo Prateado, visitei um sem número de templos budistas (otera) e santuários xintoístas (jinja). Ryoanji, o templo onde se encontra o mais célebre dos jardins zen (termo muito impreciso que é utilizado no Ocidente para designar os jardins de pedras e gravilha do Japão, os karesansui): pedras dispostas num jogo enigmático por entre areia desenhando estrias. São quinze rochas colocadas num rectângulo de gravilha branca mas, seja qual for o ângulo de visão, apenas se pode lobrigar 14 de uma vez. Tudo convida a uma contemplação distraída mas helas! impossível, devido à presença de turistas e às intermináveis informações provenientes de altifalantes. Uma pequena fonte de pedra tem a forma de uma moeda antiga, daquelas furadas para se enfiar num cordão. A abertura do fosso é um quadrado que faz parte dos quatro caracteres que se encontram inscritos em volta. Conforme o local por onde se começar a ler esses quatro caracteres, obtém-se as seguintes frases: “Apenas eu sei quanto baste” ou “Eu apenas sei quanto baste”.
Após ter completado a sua épica travessia do deserto australiano, Robyn Davidson, a escritora de viagens, recebeu cartas de leitores de todo o mundo. Uma delas, a de um homem esquizofrénico, comentava: “Dizem-me que as areias de Ryoanji são ainda mais infinitas.”

Quanto ao fabuloso Templo da Água Límpida, o Kyomizudera, é um colosso que se equilibra sobre 139 pilares no declive da montanha Otowayama e é uma das maravilhas do mundo. Está associado à escola Honso, uma das mais antigas do budismo japonês. De um dos seus varandins, os visitantes tentam alcançar a água com propriedades terapêuticas que cai de uma cascata sagrada. Como acontece com a maior parte das obras arquitectónicas japonesas, não se utilizou, na sua construção, um único prego. As traves simplesmente encaixam umas nas outras, sem necessidade de lhes ferir a carne. Quando se passeia nos terraços de madeira do Kyomizudera e se contempla a beleza de Kyoto para lá das colinas recheadas de pagodes e pavilhões, agradecemos à raça humana o gesto de ter erguido templos.
O Sanjyosangendo tem um pavilhão com 120 metros onde se exibem 1001 estátuas da deusa Kannon. Fundado em 1164, do exterior, o aspecto é austero. Todavia, no interior, brilham no escuro, gravadas em madeira de cipreste japonês e revestidas a folha de ouro, 1000 estátuas da deusa Kannon. Estão sentadas em fila e são do tamanho de um ser humano (japonês e dos antigos, isto é, bastante baixo) mas com 40 braços e cada um, crê-se, capaz de salvar vinte e cinco mundos. Ao centro, destaca-se a Grande Kannon, com onze caras e nada menos do que mil braços, tesouro nacional. Em volta, existem ainda 28 estátuas de variadas divindades.
O santuário Fushimi-inari Taisha é dedicado ao deus xintoísta do arroz, Inari. Povoam-no inúmeras estátuas de raposas porque são elas as mensageiras de Inari. Este local é ainda conhecido pelo seu corredor de torii, os pórticos vermelho-laranja e negro, oferecidos pelos crentes. É uma experiência única percorrer os corredores de torii, como por entre uma barreira de fogo sagrado.
Visitei o santuário Yasaka-jinja, epicentro do Festival de Gion. Também o Nishi-honganji e o contíguo Higashi-honganji: o primeiro, exemplar notável do estilo Momoyama, foi erguido como sede da escola Honganji da seita budista Jodo-shin, uma das mais populares do Japão, em 1272. É também o mausoléu do fundador da seita, Shinran Shonin. Contém múltiplos tesouros, como um dos mais antigos palcos de teatro Nô do Japão. Pode ainda ver-se uma corda feita com cabelos das mulheres devotas. Tokugawa Ieyasu, o fundador do xogunato Tokugawa que deteria o poder desde a Batalha de Sekigahara até ao dealbar da era Meiji, para refrear o crescente poder da seita, dividiu-a, mandando construir ao lado o Higashi-honganji. Ambos os templos possuem vastas áreas ajardinadas. Vimos o Toji, o Templo do Leste, que é o guardião da cidade desde 794, ano em que Kyoto se tornou capital do Japão, com o seu pagode de cinco andares elevando-se a 57 metros, o mais alto do país. O Chionin – templo principal da seita Jodo (Terra Pura), apresenta o maior sino e o maior pórtico de entrada, com 27 metros de altura. O Nanzenji é um belo templo zen no sopé dos montes a leste da cidade e sede da escola Rinzai. Começou por ser uma vivenda imperial em 1264 e tornou-se templo em 1291. O edifício principal, o Seiryo-den é célebre pelo seu jardim de pedra e fusuma (portas de correr), decoradas com pinturas da Escola Kano. E vários outros, que se tornaria fastidioso aqui enumerar.
Kyoto alberga bairros de recorte antigo, onde passear é um prazer, como a área que rodeia o templo Kyomizudera ou o bairro de Gyon. Gyon é o bairro das casas de chá, as moradas das maiko (à letra, “jovens dançarinas”). As maiko são aprendizes de geisha (à letra, “artista”). Na verdade, elas é que se tornaram o protótipo das geishas no ocidente, com o seu pó de arroz branco, indumentária elaborada e perucas complexas. É emocionante fotografar as maiko, porque surgem de repente como grandes borboletas coloridas, em quimonos luxuosos, e somem-se no instante seguinte em automóveis dispendiosos ou em portas que se entreabrem para logo se voltarem a fechar. Yoshida-san, em toda a vida, apenas havia conseguido vislumbrar uma maiko; e a sua irmã, que estudara em Kyoto, nunca vira nenhuma. Naquele dia, porém, consegui fotografar não uma, mas várias maiko. Fotografei também um monge itinerante, sob um grande chapéu redondo, que recitava sutras budistas na ponte sobre o Kamogawa (rio Kamo), que atravessa Kyoto.
Tendo estudado Filosofia, é óbvio que não poderia deixar de percorrer o Caminho da Filosofia. Ganhou esse nome porque o filósofo Kitaro Nishida (1870-1945), fundador da escola de Filosofia de Kyoto, costumava meditar passeando nele. É uma ruazita de dois quilómetros, ladeada de famosas sakura, as flores de cerejeira, símbolo do Japão e dos samurais. A flor de cerejeira é uma metáfora da vida bela e efémera. As lindíssimas flores rosa-pálido e branco surgem na Primavera mas, passadas cerca de duas semanas, as suas pétalas já jazem todas sobre os caminhos. Assim devia ser a vida do samurai, supremamente estética: heróica, portanto, bela, e breve. Constituía uma desonra para um samurai morrer de velho. Ir ver as flores de cerejeira é uma obrigação de Primavera no Japão.
Em Kyoto, fui ainda ao Palácio Imperial, residência do Imperador até 1860, cuja entrada estava vedada aos japoneses mas era permitida aos estrangeiros. Tratava-se de uma situação humilhante tanto para os estrangeiros, que tinham de abandonar os amigos japoneses à entrada, como para os japoneses que ficavam à espera dos amigos estrangeiros. Desconheço se esta prática continua. Felizmente, os japoneses não perdem grande coisa com isso, pois muitos outros lugares em Kyoto são mais interessantes do que o Palácio Imperial.
No santuário Shimogamo-jinja, situado entre o rio Kamo e o rio Takano num denso parque florestal, assisti a um festival xintoísta nocturno – o Nagoshi-no-matsuri – em que os padres agradecem ao kami (“o espírito”) que habita no riacho do santuário a chegada das colheitas.
Sabendo do meu interesse pelos samurais e pelo cinema japonês, a Yoshida-san propôs-me uma visita ao Toei Eigamura. Aí pode-se assistir à rodagem de filmes de samurais e passear numa cidade feudal modelo em tamanho natural e figurantes vestidos à moda dos samurais. Infelizmente, é um local sem atmosfera, um parque de diversões comercial. E para quem, como eu, acredita que o cinema japonês produziu e produz das maiores obras-primas do cinema mundial, é um pouco desolador assistir ao circo samurai do Toei Eigamura.
Em Kyoto, comi a melhor tempura (palavra que entrou no vocabulário japonês através dos missionários portugueses do séc. XVI), vegetais e animais marinhos fritos, do Japão, num restaurantezinho típico do bairro de Gyon, preparada com mestria à nossa frente por um velhinho de lindos cabelos brancos.
Enquanto permaneci em Kyoto, fiz excursões a Hikone, Himeji, Kobe e Nara. O Japão é um país pequeno, mas as suas cidades são tão grandes que dão a impressão de serem contíguas umas às outras.

Sem comentários: