É meu!

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10 dezembro, 2006

MATSUMOTO – Certo dia à noite, parti para Matsumoto, cidade natal da minha amiga Nakajima Noriko. No comboio, calhou-me em sorte um assento ao lado de um grupo de homens já meio-bêbedos. Um deles sabia falar inglês. Perguntou-me se eu ia a Matsumoto escalar os Alpes Japoneses que é o nome da cordilheira de montanhas que rodeia a cidade. O comboio estava repleto de alpinistas amadores. Eu respondi que não tinha tempo para tal, que ia visitar uma amiga, ver a cidade e que me interessava em especial o castelo de Matsumoto. O homem retorquiu que castelos como aquele havia em muitos outros lugares e que o que as pessoas iam fazer a Matsumoto era escalar montanhas. Felizmente, o cobrador deu conta da cena e, prestável, pôs à minha disposição um banco só para mim.
Atingi Matsumoto pouco depois das quatro da manhã. Embora tivesse ficado combinado que me viriam buscar à estação às oito, a Noriko-san e a mãe já lá estavam a essa hora da madrugada!
De manhã, a mãe da Noriko-san conduziu-nos até ao Museu Japonês de Ukiyo-e (à letra, estampas do mundo flutuante), as xilografias japonesas nascidas no período Edo. A colecção da família Sakai (Sakai Yoshiaki começou-a há cerca de trezentos anos) conta com mais de 100 000 obras. Isto faz dela uma das maiores colecções privadas de arte do mundo. O museu mostra apenas uma pequena parte mas tive a felicidade de ver muitas obras dos grandes mestres Hokusai, Utamaro, Hiroshige.
Em seguida visitámos a Escola Kaichi, uma escola-primária (agora museu da educação) da era Meiji (1879) – a era em que a ocidentalização do Japão começou em força e a escolarização deixou de ser tarefa exclusiva dos templos. A arquitectura da escola demonstra a influência ocidental.
Só então nos dirigimos ao castelo de Matsumoto que, ao contrário do que afirmara o passageiro no comboio, se distingue de quase todos os restantes doze castelos do país por ser pintado de negro. Colocado a meio de um lago, a sua cor negra escolhida para contrastar com a brancura nevada das montanhas ao fundo é, sem dúvida, um dos mais requintados. E dos mais belos edifícios militares a nível mundial. Himeji, Matsumoto, Kumamoto, são os três castelos principais do Japão. A exposição que se pode ver no seu interior é também das mais interessantes – armas e armaduras desde a chegada dos portugueses até à Era Meiji. Construído de 1592 a 1614, as suas origens datam do Período dos Estados em Guerra (Sengoku). Foi pertença do clã Takeda, de Tokugawa Ieyasu e, sob as ordens de Hideyoshi Toyotomi, de Ishikawa Norimasa que, com o seu filho Yasunaga, fizeram os principais acrescentos ao castelo.
Ao almoço, não podíamos deixar de escolher um restaurante de soba, pois a soba de Matsumoto tem fama de ser a melhor de todo o Japão. Sentámo-nos numa mesa com outros clientes, que pediram carne de cavalo crua. Noriko-san e eu contentámo-nos – e bem – com a nossa soba, servida em cinco caixas de bambu empilhadas em andares, cada uma com o seu acompanhamento próprio.
Estávamos em Nakamachi, antigo bairro dos mercadores, nos arredores do castelo. As casas típicas são caiadas, com frisos com veios desenhando losângos ou quadrados negros, no estilo dozo. Recorta-se em volta a silhueta escarpada dos Alpes japoneses chegando aos 3000 metros de altura. Quão cativante é Matsumoto!
Ao fim da tarde, a família Nakajima (mãe, pai, Noriko e dois irmãos, todos muito bem parecidos) preparara uma surpresa para mim: a minha participação e da Noriko-san no festival Bom-bon infantil. Para tal fim, a mãe e a avó da Noriko-san, na sala principal, sob o olhar complacente de um enorme Buda dourado, afadigaram-se à nossa volta (seguindo atentamente livros de instruções) e vestiram-nos yukatas (quimonos de verão). Vestir uma yukata é tarefa complexa e, devido à faixa espessa e apertada que se enrola várias vezes em volta da cintura, também pouco confortável. A isto se acrescenta a dificuldade de andar sobre as altíssimas geta, as socas de madeira japonesas.
Conseguimos, todavia, equilibrarmo-nos bem e, empunhando pequenas lanternas de papel, juntámo-nos a um rancho de crianças vestidas com yukata coloridas, as meninas com flores no cabelo, os rapazinhos com faixas brancas à volta da cabeça. Éramos as únicas adultas a acompanhar o cortejo. Começámos por seguir as meninas, que iam cantando pelas ruelas estreitas do bairro, até um santuário xintoísta precedido pelo costumeiro torii (o pórtico alto e pintado geralmente de vermelho-laranja e negro que simboliza a iniciação no espaço sagrado do santuário). Seguimos depois os meninos. Dois deles seguravam um omikoshi (andor) e lançavam-no ao ar soltando gritos rudes. Enquanto isso, os outros batiam às portas das casas a pedir qualquer coisa.
Decidimos comer gelados numa gelataria caseira. Tanto aí, como enquanto passeávamos pelas ruas, os habitantes de Matsumoto revelaram-se a meus olhos como sendo dos mais discretos no que respeita à reacção em face dos estrangeiros. Por todo o Japão, excepto nas megapólis como Osaka e Tóquio, os nipónicos reagiam vivamente aos estrangeiros. Muitas vezes, não conseguiam conter um gaijin! (“pessoa de fora”, isto é, estrangeiro; mas designa apenas os ocidentais, não os negros, os árabes ou os outros asiáticos) ou um hero! (hello). Desde a era Meiji, no séc. XIX, que os japoneses são ávidos importadores de costumes e invenções ocidentais, e hábeis em adaptá-los ao seu país, mas ainda não se haviam habituado, à beira do séc. XXI, à presença física de estrangeiros no Japão. Em Matsumoto, porém, nem uma vez ouvi o gritinho, entre divertido e assustado, de gaijin!, apesar de estar vestida à japonesa, o que chamava ainda mais a atenção sobre mim. Ao regressar à bela moradia dos Nakajima, não pude deixar de elogiar a correcção dos habitantes de Matsumoto, o que deixou a família visivelmente satisfeita.
No dia seguinte, o pai da Noriko-san levou-nos a passear de carro pelos arredores da cidade. Vimos uma mansão luxuosa que era propriedade dos yakusa, a célebre Máfia japonesa. No templo de Manganji, rezámos todos segundo o ritual budista, batendo as palmas e puxando uma corda grossa que pendia do tecto do pavilhão principal.
À tarde, parti para Tóquio de camioneta, deixando na estação as silhuetas gentis daquela família de Matsumoto.

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