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17 dezembro, 2006

NAGASAKI – No meu segundo dia no Japão, fui sozinha à cidade para mim mais comovente do país: Nagasaki. Nagasaki situa-se muito perto do distrito de Saga. Claro que foi uma das cidades-vítima de uma das bombas atómicas. Claro que é o local onde se desenrola a acção da ópera de Puccini, “Madame Butterfly”. Mas Nagasaki foi ainda o porto mais importante das trocas comerciais entre Portugal e o Japão – através do entreposto de Macau – após a nossa “descoberta” daquele. Foi fundada em 1500 mas só ganhou importância histórica depois da chegada dos portugueses em 1542. Os nossos antepassados estabeleceram ali o seu posto comercial em 1571. Durante um curto período de tempo do Japão medieval, a cidade foi uma colónia jesuíta. Os jesuítas detinham o controle administrativo e militar. A feroz resposta ao domínio ocidental da área do general Hideyoshi Toyotomi, que unificou o Japão no séc. XVI, encontra-se bem patente no Museu dos 26 Mártires Cristãos- convertidos e missionários-, mandados crucificar por ele em 5 de Fevereiro de 1596. Tornaram-se, assim, nos primeiros mártires da Igreja no Japão. Todavia, ainda hoje Nagasaki permanece a cidade mais cristã do país. Estando tão longe de Portugal, foi com comoção que deparei, logo à entrada, com um vitral representando o Infante Dom Henrique. Na bilheteira, havia uma bandeira de Portugal e uma fotografia ampliada de um grupo de japoneses frente à Torre de Belém. O museu contava com várias relíquias portuguesas. A que mais me emocionou foi o grande chapéu negro que pertencera a um português do séc. XVI. Podia ver-se diversas estátuas de São Francisco Xavier e reproduções de caravelas portuguesas.
Quantas ressonâncias provoca Nagasaki numa alma portuguesa! Foi naquela cidade que veio a falecer, em 1532, o lisboeta Luís Fróis, missionário e primeiro historiador ocidental do Japão – o autor da “História de Japam”. O Padre Luís Fróis desembarcou no Japão em 1563 e viria a desenvolver a sua acção em Tokushima (onde viveria, quatro séculos depois, outro português, o escritor Wenceslau de Moraes), Kyoto e Oita. Nagasaki evoca sobretudo João Rodrigues, o Intérprete, que chegou ao Japão em 1577, com vinte anos de idade, e ali permaneceria até 1610. João Rodrigues, missionário e Procurador da Missão, foi ainda intérprete (aprendeu japonês com enorme facilidade) de Hideyoshi Toyotomi e de Oda Nobunaga, tendo como difícil função conciliar os interesses dos vultos mais poderosas da sociedade japonesa com os dos mercadores portugueses de Nagasaki. Nesta cidade foi publicada pela primeira vez a obra deste homem-ponte entre dois mundos, a “Gramática Portuguesa da Língua Japonesa”. Ainda hoje dela se socorrem os estudiosos japoneses para investigar a sua própria língua, tal como era no séc. XVI!
A ilha de Kyushu, onde se situam Nagasaki e Fukuoka, testemunha em pleno a grandeza desses bravos portugueses de outrora. Em Oita, na costa leste, exerceu a sua profissão durante anos o médico jesuíta lisboeta Luís de Almeida. Mal chegou a Oita, cujo nome então era Funai, impressionado com a alta mortalidade infantil provocada por alimentação deficiente, mandou construir uma creche com uma vacaria anexa. Em 1556, o ano seguinte, criou o primeiro hospital japonês de medicina ocidental. Mais tarde, fundou uma escola de medicina. Deste modo, os portugueses introduziram no Japão, entre muitas outras coisas, a espingarda, que mata, e a medicina, que cura; a acção missionária, mas também a acção científica. O hospital então erguido era grande, com leprosaria, orfanato e sala de operações. Luís de Almeida era também cirurgião; os portugueses desenvolveram sobretudo a cirurgia no Japão. O seu trabalho e o dos demais médicos portugueses em prol da humanidade sofredora e do desenvolvimento da ciência criaram raízes fundas no coração dos Japoneses. A estima destes pelos portugueses ainda não esmoreceu. No entanto, que pouco faz Portugal para não deixar que isso aconteça! Mete dó encontrar tantos japoneses, sobretudo nas províncias, que desconhecem que Portugal ainda existe, que há descendentes dos portugueses que estimaram e que a língua portuguesa sobreviveu! O proverbial desleixo consigo próprio de Portugal, tornando-o naquilo que não é, um país obscuro e irrelevante na cena mundial! A Índia e o Japão, dois países hoje de importância crucial, são precisamente aqueles onde mais se projectou a acção pioneira portuguesa do séc. XVI. As maiores contribuições científicas do Japão registam-se no campo da medicina ocidental e foram os portugueses que a deram lá a conhecer.
Em Oita existe o Hospital Luís de Almeida, assim como um busto seu. Oita possui uma série de monumentos aos portugueses como, no principal jardim da cidade, uma estátua com jesuítas a ensinar música a jovens japoneses e um monumento a Francisco Xavier, que ali chegou em 1551.
Passeei em seguida pela área adjacente ao museu, visitando pequenos santuários xintoístas e cemitérios budistas, avistando o porto com as suas embarcações de mastros embandeirados.
Hoje em dia, apesar da ferida infligida nos anos 40 do séc. XX, Nagasaki é uma cidade aprazível, com algumas calçadas à portuguesa e uma enorme estátua de Kannon, a Deusa da Misericórdia, o Avalokistewara dos hindus.
Evitando embora expressar-se em inglês, a população de Nagasaki foi extremamente prestável a indicar-me o caminho, como é vulgar entre os japoneses, capazes de puxar de uma caneta e de uma folha papel e nela desenhar o percurso a seguir com uma precisão milimétrica.
Cheguei assim ao epicentro da bomba atómica. É um local desolador: a areia ganhou um tom metálico e sombrio. Nos arredores, situa-se o Museu da Bomba Atómica. Um museu onde o horror foi colocado em vitrinas, exposto até ao mais ínfimo pormenor. 9 de Agosto de 1945. 11 horas e 2 minutos da manhã. 73 884 mortos. 74 909 feridos. 12 820 doentes crónicos. As educadas crianças japonesas, suplicavam por água e, quando lha davam, murmuravam arigato antes de morrer! A sua última palavra: obrigado. Estranhamente, pareceu-me que os poucos visitantes daquele dia olhavam o Museu com ar distraído.
Para descomprimir, visitei a Chinatown. As Chinatowns são raras no Japão e os artigos que eu comprava na China a tostão (eu vivia então em Pequim) vendiam-se por ali ao triplo do preço de origem.

2 comentários:

gicacoca disse...

É muito bonito o que escreveste! Parabéns! Um dia gostaria também de visitar Nagasaki!

ryuko@iol.pt disse...

Obrigada! Espero que tenhas essa oportunidade!