É meu!

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Pare com o roubo de conteúdo!

10 dezembro, 2006

NARA – Nara, onde morava a família Yoshida e mesmo ao lado de Kyoto, aguardava-nos no dia seguinte. Foi a primeira capital permanente do Japão e o epicentro do Período Yamato. A sua fundação data do ano de 710 d.C. e teve como modelo Chang’an, a capital chinesa da Dinastia Tang (actual Xi’an). Como Kyoto, fervilha de relíquias históricas classificadas como Património Mundial.
Passámos a maior parte do tempo em Nara Koen (o Parque de Nara). Este parque estende-se por uma área de 4 quilómetros de leste a oeste e 2 quilómetros de norte a sul. O seu belo cenário, onde veados – mensageiros dos deuses – vagueiam em liberdade, apresenta vistas meio escondidas de templos e santuários. O pavilhão de Daibutsuden do Templo Todaiji é a estrutura de madeira mais longa do mundo e tesouro nacional. É abrigo do Grande Buda de Nara, com mais de 15 metros de altura e pesando 25 toneladas. Os imperadores do período Nara eram devotos budistas e o Grande Buda foi erguido como forma de propagar o budismo, tentando fazer deste um meio de estabilizar o país. No entanto, nesta época, o budismo seria adoptado apenas pela nobreza, sem se disseminar ainda por entre a massas.
O pagode do Templo Kofukuji, reconstruído pela última vez em 1426, após várias guerras civis, com cinco andares e mais de cinquenta metros de altura, é o símbolo do Parque.
Tivemos a sorte de surpreendermos, no santuário de Kasuga-taisha, uma cerimónia xintoísta, com padres envergando belas e complicadas vestes. O Kasuga-taisha (710 d.C.), santuário do poderoso clã Fujihara, inclui um jardim onde se encontram mais de trezentas espécies de árvores e plantas – todas referidas na mais antiga colecção de poesia japonesa, o Manyoshu.

Jantámos em casa da Yoshida-san. O pai dela era o japonês que encontrei que mais informação tinha sobre Portugal. Embora Portugal seja um país tão importante na história do Japão, a maioria dos japoneses, em especial os da província, não sabia que Portugal ainda existia, que tinha a sua própria língua e pensava que a língua nacional de quase todos os países ocidentais era inglês. O pai da Yoshida-san não tinha essas ideias erradas sobre Portugal. Grande apreciador de vinho, conhecia o Porto, o Madeira, o Mateus. Sabia que Portugal era o primeiro exportador de cortiça do mundo; que Vasco da Gama, Fernão Mendes Pinto e Fernão de Magalhães eram portugueses; que pan (pão), koppu (copo), karuta (carta de jogar), kasutera (castela, um pão-de-ló japonês que se obtém batendo os ovos em castela) tabako (cigarros), compeito (confeito) e tempura, palavras que hoje fazem parte do japonês corrente, derivavam do português. Nós também assimilámos do japonês palavras como biombo (byobo), catana (katana, o sabre japonês), banzé (banzai, “viva!” em japonês; à letra, “dez mil anos” – faz-se uma grande algazarra quando se dá vivas a alguém, faz-se um grande banzé!), sacana (sakana, “peixe” em japonês; o significado distorcido que adquiriu em português resulta, aparentemente, do facto de o peixe e quem lida com ele cheirar mal, a palavra, tornando-se, assim, num insulto) bonzo (bonzo, os monges) ...
O que acontece é que Portugal, devido também em parte à sua pelintrice crónica, não desenvolve suficientes acções no Oriente que afirmem sem margens para dúvida a sua existência. E atente-se que os japoneses são um dos povos mais cultos do mundo, um povo para o qual o desejo de aprender faz parte da sua cultura profunda – como é apanágio dos países influenciados pelo confucionismo. Há décadas que a escolaridade até ao 12º ano é obrigatória, sendo o ensino extremamente exigente, como o atestam as repetidas notícias de crianças e jovens que se suicidam por falharem nos estudos. A maioria da população tem estudos universitários. A sua inteligência bem treinada é evidente. Além da boa formação escolar, são ainda um povo com uma educação cívica de topo, que não cospe no chão nem deita lixo fora ao acaso. São pontuais e limpos. E isso porque têm permanente consciência da existência dos outros. Não lhes dão encontrões, não passam à frente nas bichas e usam uma máscara de gaze na face quando estão engripados, para evitar o contágio. Nas lojas e nos restaurantes, o atendimento é exemplar. Em comparação com os outros países, é um povo muito rico, e consideraríamos que a maioria das pessoas pertence à classe média alta. O roubo de rua era muito raro, pois todos tinham mais ou menos tudo. Ainda em Fukuoka, o Hide largara o seu computador portátil – isto no início dos anos noventa! – numa mesa da estação de comboios e partíramos a dar uma volta pela cidade. Admirada, claro que o adverti para o perigo de roubo. Ele sorriu e disse que não haveria decerto problema nenhum. De facto, quando regressámos ao final da tarde, o portátil aguardava-o precisamente no mesmo local onde o havia deixado. Os japoneses são um povo admirável, com uma cultura elaborada que, reduzido à miséria após a Segunda Guerra Mundial e depois de séculos de feudalismo, sacrificou-se arduamente em prol do seu país para que, em apenas cinquenta anos, ascendesse à vanguarda do mundo. Os seus valores ensinam-lhes a não terem vistas curtas, a não se cingirem a interesses meramente individuais, mas a perceber que, com o progresso e bem-estar dos outros cada um lucrará. E trabalharam, trabalharam e trabalharam (atingindo tais paroxismos que a sua língua exigiu uma nova palavra, karoshi, que significava um novo fenómeno, a morte por excesso de trabalho). Com a derrota na guerra, o seu adorado país perdera a face. Havia que reganhá-la a todo o custo. Não podia ser em vão que o mito fundador do Japão narrava que aquele era o País dos Deuses e que o povo japonês era o protegido de um Imperador que era descendente da deusa solar Amaterasu, da qual toda a luz emana.

Chegou depois o dia em que tive de me despedir da Yoshida-san e de lhe agradecer a sua incansável boa-vontade em me mostrar a zona de Kyoto. No entanto, foi ela ainda que me presenteou com estas palavras: “Quem agradece sou eu, porque ao mostrar-te esta área e ao ouvir os teus comentários, fiquei eu própria a conhecer melhor o meu país. Existem coisas em que jamais repararíamos se não fossem olhos estrangeiros a despertar a nossa atenção.”

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