É meu!

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Pare com o roubo de conteúdo!

17 dezembro, 2006

TANEGASHIMA – Escolhi Julho para começar as minhas viagens pelo Japão porque tinha o sonho antigo de assistir ao Festival da Espingarda (Teppô Matsuri) em honra aos portugueses que, nessa pequena ilha do sul do país, deram a conhecer a existência da espingarda aos japoneses. E isso transformaria para sempre o país. O festival realiza-se anualmente no último fim-de-semana de Julho.

Hide e eu tomámos o comboio JR (a única companhia a operar em Kyushu) para Kagoshima, a cidade no extremo sul da ilha, com o seu vulcão Sakurajima sempre a fumegar frente ao porto. Foi em Kagoshima que desembarcou São Francisco Xavier, o fundador da cristandade no Japão, em 1549. Chegámos de madrugada e, poucas horas depois, subíamos a bordo do ferry-boat para Nishino-omote, a principal cidade de Tanegashima. Para entrar no ferry-boat formara-se uma bicha compacta e desordenada, como se a influência portuguesa começasse desde ali a fazer-se sentir.
A viagem de barco de mais de quatro horas foi surpreendentemente enriquecedora. Os passageiros sentavam-se no chão, depois de descalçarem os sapatos num estreito corredor. De súbito, senti-me perto da vida japonesa, pois presenciei naquele espaço fechado e apinhado de famílias muitos desses pequenos gestos e atitudes que unem e tornam semelhante toda a humanidade. Mães gorduchas e risonhas que despiam o seu próprio casaco para cobrir os filhos adormecidos; mães cansadas estendidas ao lado dos bebés; crianças a pedincharem dinheiro para comprar guloseimas; pais embevecidos com as pequenas proezas dos seus filhos; homens a jogar cartas; bebés chorando por colo. Era a vida comprimida num barco.
Mesmo em frente do porto de Nishino-omote tive uma surpresa. Havia uma estátua representando a figura do Infante, no meio de um tanque artificial. Era, como se podia ler em japonês e português numa placa de azulejos, a Praça da Amizade Japão-Portugal.
O dono do minshuku (pequena estalagem privada) onde ficámos instalados veio buscar-nos ao porto na sua carrinha, pois chovia torrencialmente. Suspeitava-se da aproximação de um tufão.
Depois de nos termos desenvencilhado das mochilas no minshuku, saímos para a rua. Por todo a parte, havia bandeirinhas de Portugal e do Japão, colocadas lado a lado. Nas montras viam-se cartazes a anunciar o festival e também a Fesuta Porutogaru (Festa Portugal), o espectáculo de domingo à noite com a participação de Rão Kyao e outros artistas portugueses (fadistas e um rancho folclórico). Não podia crer que eu, que nunca tinha ido a um concerto do Rão Kyao em Portugal, o fosse afinal ver nas remotas paragens de Tanegashima!
Na primeira loja de recordações em que entrámos, deparámos logo com o dono – um japonês muito típico, de pernas arqueadas – e a sua mulher, envergando t-shirts portuguesas com o Galo de Barcelos e uma caravela estampados!
Dirigimo-nos para o Museu da Espingarda, cujo edifício tem a forma de uma lorcha, uma embarcação que é um híbrido de navio português e junco chinês. Mal entrei vi o Rão Kyao, que acabara precisamente de visitar o museu.
Em especial para um português, o Museu da Espingarda é fantástico. Pode ver-se uma espingarda portuguesa da época em que os portugueses chegaram à ilha e a réplica que dela fizeram os japoneses. No espaço de um ano, tinham invadido todo o território. Há um palcozinho giratório, onde marionetas mecanizadas vão ilustrando a história da chegada de Fernão Mendes Pinto à ilha, o seu encontro com o jovem daimyo de 16 anos, Tokikata, e a paixão entre a filha do ferreiro que forjou a primeira espingarda japonesa e o próprio Fernão Mendes Pinto (trata-se de uma lenda sem confirmação histórica; Fernão Mendes Pinto parece não ter estado presente nesse encontro inicial, embora lá tenha ido pouco depois). E mostram-se exemplares das armaduras reforçadas que os samurais passaram a usar após a introdução da espingarda no país. Numa sala, podemos deleitar-nos com espingardas de todo o mundo.
No dia seguinte, domingo, havia os desfiles. Mas o Hide começou a sentir-se mal e teve de ficar no minshuku. Tudo começou com uma demorada cerimónia xintoísta num pequeno santuário, que contou com a presença do embaixador português no Japão. Além dele, de mais um ou dois membros da embaixada e do Rão Kyao e demais artistas, era eu a única portuguesa em Nishino-omote. A meio da manhã, surgiram três americanos. A presença de portugueses é infelizmente tão rara naquele festival e naquela ilha que, quando eu passava, a multidão sussurrava: amerikajin (americana)!
O desfile da manhã era sobretudo constituído pelos padres xintoístas e por vários omikoshi, altares ambulantes, um dos quais encimava um tambor no qual dois homens batiam, frenéticos, dando gritos selvagens. Eram seguidos pelos carregadores, todos homens e vestindo muito sumariamente de branco. A dada altura, os carregadores viravam o omikoshi para um lado e os carregadores do lado oposto trepavam para cima dele num ápice. De quando em vez, pequenas tendas debruavam as bermas dos caminhos: ofereciam chá, água, onigiri e rebuçados aos participantes no desfile. Como eu era a única estrangeira por ali, também me ofereciam de tudo.
Havia também um homem vestido de Tengu. Os Tengu são deuses menores, ligados tanto à mitologia budista quanto à mitologia xintoísta. São os patronos das artes marciais. Este era um Yamabushi Tengu (um Tengu monge das montanhas), que habita nas montanhas densas de pinheiros e hinoki (nogueira japonesa), essa árvore fabulosa de folhas em leque que tanto se vê no Japão. Os Yamabushi Tengu reconhecem-se pelo enorme nariz, que simboliza o seu ódio aos preconceituosos e aos arrogantes.
Entre a multidão apinhada nas bermas das ruas, muita gente empunhava bandeirinhas de Portugal. Enquanto eu passava, preocupada em fotografar a par e passo o desfile, ia ouvindo gritinhos furtivos de gaijin! (estrangeira). Os habitantes de Tanegashima não estão acostumados a ver estrangeiros.
À hora do almoço deu-se um acontecimento inesperado. Caminhava eu com um gelado de chocolate na mão, quando uma senhora de quimono me interpelou. De tudo quanto ela me disse só percebi “ocha ocha” (eu tinha havia pouco tempo apenas começado a aprender japonês), e apontava para uma porta ao lado. Em face de tanta insistência, resolvi aceder a tomar a tal chávena de chá. Fui recebida por um senhor de meia-idade, envergando um elegante quimono negro e que me fez repetidas vénias. Confusa, consegui distinguir atrás dele vários casais, todos muitíssimo distintos nos seus quimonos. O senhor encaminhou-me para uma mesinha e fez-me sentar. Lancei uma olhadela para trás de mim: os casais tinham-se sentado em longas mesas dispostas horizontalmente. Falando-me sempre em japonês, o senhor levou consigo o meu gelado de chocolate. Compreendi uma palavra: hazukashii (“não fica bem”, “é vergonhoso”). Reparei numa mesa colocada perpendicularmente à minha. Uma senhora de quimono, dando pequenos passinhos estudados, dirigiu-se a ela. E foi assim que começou a minha gloriosa participação num chado (cerimónia do chá), sentada no lugar de honra! Quando dei por ela, já era tarde demais… Ainda por cima, havia fotógrafos e uma câmara de televisão! A minha ignorância iria ser filmada!
Após complicados e ritualistas gestos em volta de uma taça de chá, a senhora ergueu-se e, nos seus passinhos miúdos, veio na minha direcção. Curvou-se numa profunda vénia e colocou-me à frente uma espécie de biscoito (okashi). Engoli o biscoito, esperando que fosse a única coisa possível de se fazer com um biscoito. Nova vénia e a senhora ofereceu-me então a taça de chá que estivera a preparar tão aturadamente. Nervosa, olhei à minha volta. Acudiu-me o senhor do quimono negro. Pegou nas minhas mãos e fê-las voltear várias vezes a taça, lançando-me uma catadupa de instruções em japonês. Por fim, pude, em três ou quatro goles rituais, beber o verde e amargo chá japonês. Durante todo o processo, as câmaras disparavam sobre mim. De novo o senhor do quimono negro tomou as minhas mãos e fê-las voltear a taça. A senhora veio então buscá-la, o que constituiu para mim enorme alívio. Nessa altura, surgiram duas meninas que principiaram a servir os casais, até ali aguardando que eu – convidada de honra de pólo e calções – terminasse de beber o meu chá. Quando me foi possível escapar dali, entre vénias vindas de todos os lados e casais com quimonos estonteantes, lancei-me de novo, meia zonza, às ruas de Nishino-omote. E que vergonha a redobrar ao descobrir, no reflexo de uma montra, que a minha cara estava completamente borrada de gelado de chocolate! Ficaria traumatizada com a cerimónia do chá, se não tivesse regressado ao Japão no ano seguinte e participado em mais duas, sem ser convidada de honra e sem gelado de chocolate!
Pela tarde houve o desfile nanban (à letra, “bárbaros do sul”, termo que designava os portugueses). É divertidíssimo, em especial para um português. Iniciou-se com vários grupos de homens vestidos como antigos artilheiros. Competindo entre si, dispararam espingardas que eram réplicas das que os portugueses lhes mostraram em 1543.
O encontro em Tanegashima dos lusitanos e dos nipónicos e subsequente introdução da espingarda foi um acontecimento crucial na história do Japão. A palavra Tanegashima passou a ser de uso coloquial no Japão para designar qualquer espingarda. A alma do samurai era a sua espada. A guerra da espada era honrosa. Mas eis que surgiu um instrumento que disparava balas e matava à distância. Os samurais conservadores pareciam incapazes de o aceitar. No entanto, a espingarda abriu o seu caminho e a guerra no Japão nunca mais foi a mesma.
Duas enormes caravelas pintadas com a palavra “Macau”, reproduziam as do tempo das grandes navegações. Automóveis camuflados no seu interior transportavam-nas pelas ruas da cidade. Numa das caravelas via-se um grupo de japoneses adultos com trajes a imitar os dos navegadores de outrora – um representava Fernão Mendes Pinto, outro o capitão, um terceiro o intérprete chinês; e uma rapariga de quimono era a namorada de Fernão Mendes Pinto. Na outra caravela, as personagens eram as mesmas mas em versão infantil: os tripulantes eram crianças.
Em volta das caravelas pululavam muitos rapazes vestidos à moda dos portugueses de antanho, empunhando as espingardas. As indumentárias faziam rir qualquer um. Pareciam antes palhaços. Mas realmente, as vestes daquela época tinham certo ar apalhaçado. Havia ainda a comitiva dos “chineses” (o comércio com o Japão fazia-se através do entreposto de Macau), sempre a lançar foguetes; a comitiva dos arqueiros japoneses, com lindas vestes largas; a comitiva de mulheres que dançavam o bon-odori de Tanegashima, etc. A cavalo deslocava-se o jovem daimyo Tokikata que teria recebido Mendes Pinto; atrás, o ferreiro que forjara a primeira réplica japonesa da espingarda. E muitos outros grupos, cada qual com seu propósito. O desfile terminou com uma nova competição entre os artilheiros.
Um grupo de garotas entre os nove e os onze anos rodeou-me. Começaram a falar comigo através de perguntas simples. Era óbvio que nunca tinham estado tão próximas de um ocidental. Tocavam-me nos cabelos para ver se eram de verdade; faziam-me cócegas e davam-me beliscões para verificar se eu reagia de modo idêntico aos japoneses; testaram a minha agilidade manual. Pediam-me que as acompanhasse aqui e ali, decerto por lugares onde desejavam ser vistas, e deitavam a língua de fora às outras crianças que passavam, orgulhosas do seu troféu.
À tardinha, começou a Festa Portugal. Rodeada pelas rapariguinhas, era eu a única estrangeira entre a assistência. O Hide sentia-se melhor e juntara-se a nós. Rão Kyao e a sua banda subiram ao palco todos de vestes brancas à indiana. Ver rostos portugueses naquele recanto do mundo! E ouvir a bela língua portuguesa a ressoar no auditório! Excelente espectáculo. Quando o concerto terminou e me encaminhei para o minshuku, as melodias do meu país, reavivadas na minha memória, ainda se faziam ouvir por dentro de mim. Principiara a chover.
A chuva era provocada pela aproximação do tufão. No dia seguinte não pudemos regressar a Kagoshima. Ficámos retidos em Nishino-omote. Foi o primeiro tufão da minha vida.
Este não é o único festival de temática portuguesa no Japão. Realiza-se um outro em Nagasaki.
Quando regressei a Portugal resolvi enviar o relato da minha experiência em Tanegashima à Associação de Amizade Portugal-Japão. O Dr. Pedro Canavarro, muito simpaticamente, acusou a recepção do texto e das fotografias. No ano seguinte, na Universidade de Línguas Estrangeiras de Kyoto, qual não é a minha surpresa ao deparar com o Dr. Pedro Canavarro, a Dra. Helena Vaz da Silva – então Directora do Centro Nacional de Cultura - e demais comitiva a caminho do Festival da Espingarda, iniciativa tomada no âmbito das comemorações dos 450 anos da chegada dos portugueses ao Japão. Fiquei muito feliz por, nesse ano, ao contrário do anterior, o povo de Tanegashima poder comemorar o seu festival contando com bastante mais presença portuguesa.

9 comentários:

SurFeliX disse...

exelentee! um dia também irei visitar esse festivall!=) deve ser um espetaculo!!parabens pelo blog

Hernani Cardoso disse...

parei com este belissimo texto quando andava a procurar informaçao sobre o festival de Tanegashima. Vou fazer uma volta ao Mundo, em bicicleta, visitando locais "ocupados" pelos portugueses: Médio Oriente, India, Malásia, macau, Japao, Timor e Austrália,a lém do continente Americano e Africano.
Este texto foi muito útil para mim, coli uma quantidade enorme de informaçao que me vai ser muito útil. Obrigado!

Okawa Ryuko disse...

Boa viagem, entao! E nao se esqueça de ir à minha terra natal, em Angola, o Lubango!

Canil da Vinheira disse...

Boa tarde, foi com muita nostalgia que li este testemunho, fui um dos intervenientes deste Festival de Tanegashima.

Foi linda a nossa digressão pelo Japão.

Fernando Custódio Borges - Rancho Folclórico do Cartaxo

Okawa Ryuko disse...

Que engraçado ter lido isto, tantos anos depois! Sim , lembro bem um rancho folclórico na quele espectáculo! Grandes tempos!

Canil da Vinheira disse...

Andei a fazer uma pesquisa sobre a nossa ida ao Japão e encontrei este testemunho fabuloso.

Se tiver fotos gostaria de ver, eu tenho algumas mas poucas.

Se não se incomodar deixo o meu email cusbor@gmail.com

Cumprimentos

FCBorges

Canil da Vinheira disse...

Bom Dia e muito obrigado pelas fotos.

Adorei rever algumas imagens que marcaram esse dia inesquecivel.

Recordo-me agora também do senhor, grande abraço.

FCBorges

Okawa Ryuko disse...

Ainda bem que gostou. Mas eu não aparecia nessas fotos (e não sou senhor, sou senhora). Eu sou portuguesa, o nome Okawa Ryuko é só um nome japonês que escolhi para os meus blogues. Cumprimentos!

Canil da Vinheira disse...

Ok peço desculpa, pensei que fosse um dos senhores que apareçe numa das fotos, de qualquer das maneiras muito obrigado na mesma.

Cumprimentos