É meu!

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Pare com o roubo de conteúdo!

10 dezembro, 2006

TÓQUIO – Mais uma vez dentro das confortáveis camionetas, eu olhava a alucinatória paisagem japonesa, com suaves colinas de variados tons de verde, confundindo-se ao longe com um céu revolto e vasto. Parecia irreal. Quantas aventuras, outrora, tiveram como cenário aquelas paisagens, imaginava eu, quando, em vez de veículos motorizados, cavalgavam por ali os bravos samurais, ostentando na cabeça os seus temíveis kabuto (elmos).
Ocupava o assento a meu lado uma senhora. Mal entrei na camioneta, cumulou-me de inúmeras atenções. A certa altura, a camioneta parou. Todos os passageiros desceram, excepto eu. Quando a senhora regressou, ofereceu-me, sorrindo, uma lata de chá Woolong!
Na estação esperava-me a minha amiga Tokita Sawako. Dirigimo-nos de imediato para casa da sua avó, onde ficaríamos instaladas. Naquela capital gigantesca de arranha-céus esmagadores, tive a sorte incrível de habitar numa velha casa tipicamente japonesa, uma relíquia construída muito antes da Segunda Guerra Mundial, que escapara milagrosamente a todos os bombardeamentos. Nela criara a avó todos os seus sete filhos. Que encanto! Rodeava-a um jardim com um alegre riacho onde serpenteavam carpas Koi vermelhas e amarelas e com a tradicional lanterna de pedra por entre a verdura! E que prazer deslocarmo-nos através dos seus longos corredores, ouvindo a madeira estalar sob os nossos pés descalços!
Aguardavam-nos não só a minúscula velhinha e o marido, mas uma profusão de tios, tias e primos pequenos que ali tinham ido passar uns dias. As crianças rodopiavam à minha volta, ensaiando frases simples em inglês. À noite, estenderam os colchões em nosso redor sobre o tatami. Certa noite, num jardinzito público, as endiabradas crianças resolveram presentear-me com uma sessão de hanabi (fogo de artifício, à letra “fogo em flor”). No Japão, tanto como na China, o fogo de artifício é uma paixão e faz parte do espírito estival.
Com as suas extensas avenidas comerciais, os seus enormes depato (department stores), a sua faiscante iluminação nocturna, Tóquio parece não ser o local ideal para quem procura o antigo Japão. Mas há que não esquecer que Tóquio é a antiga Edo dos xóguns e, para os japoneses, ela conserva ainda toda a sua aura histórica e romântica. No séc. XVIII, tinha um milhão de habitantes e duplicava em grandeza Londres ou Paris. Para Edo confluía a rota de Tokkaido, que a ligava ao oeste, à cidade-museu de Kyoto. A rota de Tokkaido consubstanciava um engenhoso sistema de controlo, por parte do Xógum, sobre os seus vassalos com feudos nas províncias. Para evitar qualquer revolta, tinham de viver ano sim ano não em Edo. As suas famílias permaneciam em Edo, como reféns, de modo a incentivar o bom comportamento. Assim, a estrada de Tokkaido assistiu a inúmeras idas e vindas e, para ir ao encontro das necessidades dos viajantes, nela começaram a pulular estações e áreas de serviço. Hiroshige, o grande artista de Ukiyo-e, gravou “As 53 estações da Tokkaido”. Ainda hoje é a rota mais frenética de todo o Japão, ligando Tóquio/Yokohama a Kyoto/Osaka/Kobe. A capital é, pois, uma cidade avassaladora e interessante à sua maneira. Possui riquíssimos museus. Visitei o Museu do Sumo e o Museu de Shitamachi, entre outros, mas o Museu Nacional de Tóquio é que é uma obrigação para aquele que se desloca à cidade. Que festim de cultura japonesa e não só! Caligrafia, pintura, cerâmica, armaduras samurai, são maravilhas e maravilhas sala após sala. É considerado um dos melhores museus do mundo no seu género.
O santuário Meiji-jingu é dedicado às almas divinas do Imperador Meiji (falecido em1912) e da sua consorte, a Imperatriz Shoken (falecida dois anos depois). Inclui o santuário, a Galeria de Pintura em Memória de Meiji e o Pavilhão-mausoléu em Memória de Meiji. O edifício original foi arrasado durante a Segunda Grande Guerra e reconstruído em 1958. Encontra-se cercado por uma floresta de 120 000 árvores de 365 espécies diferentes, doação de súbditos provenientes de todo o Japão.
Em Hasakusa e Akihabara, mergulhei num banho cintilante de electrónica japonesa, em Ginza num banho de moda. Mas senti um contraste entre os empregados de loja de Tóquio – secos, pouco hospitaleiros – e os do restante Japão, tão amáveis e corteses. Quase sempre é assim nas cidades capitais.

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