A minha primeira viagem ao País do Sol Nascente
As cigarras cantam
Ignorando que é a morte
Que as escuta
Ervas de verão:
Eis o que resta
do sonho dos samurais
Haiku de Matsuo Basho
INTRODUÇÃO
É sabido que viajar num país estrangeiro e nele viver são situações bem diversas. A minha primeira estadia no Japão teve o carácter efémero de uma viagem de um mês. Segundo avisam, não só o autor do guia do Japão que utilizei (e que lá vivia havia mais de uma dezena de anos), como também, muito antes dele, o nosso Wenceslau de Moraes, o Japão é um país que enfeitiça até à obsessão os estrangeiros que por ele passaram em viagens de curta duração, mas que acaba por desiludir profundamente aqueles que resolvem por lá se estabelecer. É certo que esta evolução é susceptível de se desencadear em muitos outros países – talvez em todos – mas, segundo consta, tal experiência é ainda mais óbvia no Japão.
Nunca passei um ano sequer no Japão. Não tive ocasião de perceber ou sentir in loco os problemas do país, as suas contradições, a proverbial xenofobia do seu povo, os preconceitos e ideias feitas acerca dos estrangeiros e o inevitável choque de mentalidades. Estes factores conheço-os do convívio que tenho mantido com japoneses habitando temporariamente fora do seu território (foram alguns destes que me ofereceram a sua hospitalidade durante a viagem que aqui vou narrar), mas não houve oportunidade de os confirmar no Japão, a não ser superficialmente.
Os japoneses são mestres na arte da ilusão e uma das suas habilidades é fazerem crer aos turistas de passagem que o seu país se aproxima do paraíso. Atitude que parece que muda radicalmente no momento imediato em que tomam consciência de que o estrangeiro veio para ficar. Porque é claro que se trata de uma ilusão. As ilusões, porém, também são factos, e dão encanto e mistério à vida humana. Só posso, pois, estar reconhecida ao Japão em geral e aos meus amigos japoneses em particular que, com a sua mestria na arte de iludir, a sua infinita paciência e inexcedível amabilidade, me levaram a usufruir do seu país – sempre fascinante e sugestivo para olhos ocidentais – como se caminhasse num sonho.
EM OMACHI, DISTRITO DE SAGA – No primeiro dia de Julho de 1991, o Hide e eu tomámos o avião que liga Pequim à cidade japonesa de Fukuoka, na ilha de Kyushu.
Pelo fim da tarde, atingíamos Omachi, a aldeiazinha que abrigava a casa de Hide. A casa de Hide era também um templo dedicado ao grande mestre Kukai (sécs. VIII-XIX d.C.), o fundador da corrente Shingon (Palavra Pura) do budismo, além de calígrafo, poeta e artista. Formado em Filosofia Ocidental com uma tese sobre Nietzsche, o pai do Hide seguiu a tradição familiar e tornou-se monge budista. O seu filho, um dia, sucedê-lo-ia.
A casa-templo da família, como seria de esperar, era um exemplo de arquitectura tradicional japonesa, com amplos espaços em comunicação com um jardim exterior. Tudo era madeira e bambu, uma rara sensação de frescura no calor tórrido de Kyushu, uma das quatro ilhas principais do arquipélago. O Japão é, por excelência, o país da madeira e do bambu. Utilizam estes materiais com tal mestria que transformam os artefactos mais prosaicos em objectos estéticos de enorme delicadeza: vedações, portõezinhos, torneirinhas.
Era a primeira vez que vivia com uma família japonesa, numa casa japonesa. Comer em mesas baixas, dormir sobre o tatami (as esteiras que cobrem o chão das casas japonesas), correr – e não abrir – as portas shoji e janelas onde o vidro é substituído pelo papel, tudo eram gestos com sabor a descoberta.
Acordava às sete da manhã ao som das rezas budistas do Hide e do pai, que se evolavam até mim vindas do altar a Buda: Namuamida! Namuamida!
Habituei-me ainda ao modo nipónico de tomar banho. Utilizam para se esfregar, não esponjas, mas toalhitas e sentam-se em banquinhos minúsculos. Por isso, o chuveiro está colocado a um nível muito baixo, como se fosse servir uma criança. Existe ainda o furo, uma espécie de banho de imersão a ferver para relaxar após o duche. A mesma água é sucessivamente usada por todos os membros da família, o que se compreende porque primeiro lavaram-se no duche. O furo reveste-se de importância ritual para os japoneses e é-lhes difícil entender a facilidade com que os ocidentais o dispensam. O banho é um rito que se paga nos famosos onsen, ou hot-springs. Como bons japoneses, a família do Hide rejubilava com uma ida a um onsen. Certo dia, após uma escalada aventurosa a uma montanha de Omachi, entre cerradas concentrações de bambus, também os acompanhei a um onsen em Ureshi-no, seguido de um kari-raice (caril rice) em Takeo.
Passava quase todos os dias por Takeo, nos passeios de carro com o Hide. Em Takeo eu comprava gelados e o Hide alugava C.D.’s dos Southern All Stars, o nosso grupo rock japonês preferido, o que teve maior sucesso e mais duradouro no país. Descrevem-nos como os Beatles japoneses. Agora já entraram na fase de declínio. Eu e os meus amigos japoneses éramos todos fãs dos Southern All Stars.
Íamos a Fukuoka, a maior cidade da ilha de Kyushu e um porto internacional há vários séculos, com uma longa tradição de trocas comerciais com a China e a Coreia. Há quem afirme que é a cidade mais velha do Japão, devido a essa proximidade com o continente. Foi o local escolhido pelos mongóis de Cublai Cã para as invasões do Japão no séc. XIII. A palavra kamikaze, associada hoje em dia aos pilotos suicidas da Segunda Guerra Mundial, foi usada nessa época para designar o tufão que obrigou os Mongóis a recuar, salvando os japoneses, que estavam em séria desvantagem numérica. Kamikaze significa “vento divino”.
Agora, porém, Fukuoka é uma grande cidade moderna, de onde é originária a maioria dos músicos pop do país. Ia com o Hide aos enormes depato (centros comerciais) e passávamos horas nas suas longas livrarias. As livrarias japonesas não deixam de ser uma experiência porque, para os olhos estrangeiros, as capas dos livros japoneses parecem todas indicar tratar-se de obras destinadas a crianças e adolescentes. Exibem desenhos multicolores semelhantes aos das manga, com rostos e expressões estereotipadas. Como é sabido, a par do requinte tradicional, os japoneses cultivam ainda um gosto acerbo pelo kitsch e pelo infantilizante, o kawaii (o amoroso, o queridinho, o fofinho). Kawaii é, de longe, o adjectivo favorito dos nipónicos.
As manga são consumidas às toneladas. Por toda a parte, no Metro, no autocarro, os japoneses dos 7 aos 77 anos enfiam o nariz nos seus calhamaços de manga. A maior parte deles são editados em papel reciclado, pois a prática comum é lê-los e deitá-los fora.
Nos depato as atracções eram muitas. Só por si, a secção de electrónica era um espectáculo. Nas agências de viagem, os clientes sentavam-se a ver vídeos (a era DVD ainda não chegara) sobre os países que desejassem conhecer.
Regressávamos ao fim do dia em camionetas luxuosas, o comum no Japão. Os carros e camionetas eram muito modernos e impecavelmente limpos, brancos na sua maioria. Os japoneses preferem carros brancos (o branco é uma cor estimada, em geral) porque, assim, a sujidade não passa desapercebida. Não a querem disfarçar, querem eliminá-la. Deslizávamos por auto-estradas, túneis sem fim e inúmeras portagens (os japoneses pagam caro a qualidade da sua rede rodoviária). Nas auto-estradas, o ambiente é de ficção científica, tal é o papel da electrónica. Reentrar, após uma viagem, no interior das casas de madeira com o chão coberto de tatami é um contraste inesquecível. Tornou-se um lugar-comum afirmar que o Japão é um país e contrastes, mas continua a ser verdade.
Em Arita visitámos o templo do avô do Hide e apreciámos exposições da louça da região. A cerâmica de Arita, com cerca de 400 anos, sobretudo a de motivos azuis sobre fundo branco, é famosa no mundo inteiro. E visitámos Sasebo, a praia de Shirahama e o mar barrento de Ariakekai, onde, segundo me informou o Hide, habitam espécies marinhas raras. Entre Sasebo e Hirado, existe uma cena natural maravilhosa, as 99 ilhas verdejantes de Kujukushima. Na verdade, são 208 ilhas espalhadas por vinte e cinco quilómetros.
À noite lia o Budô Shoshinshu (“Manual de Iniciação à Via do Guerreiro”), de Daidoji Yuzan Shigesuke e o Hagakure (“Por detrás da folhagem” ou “À sombra das folhas”) de Yamamoto Tsunetomo, dois célebres códigos de honra dos samurais. O Hagakure foi escrito precisamente em Saga, pois Yamamoto aí nasceu em 1659. Nessas obras capta-se a essência do espírito samurai que, de algum modo, impregnará ainda o Japão actual: “A Via do Guerreiro é realizada na presença da morte. (…) A Via do Guerreiro é-o em desespero. (…) Os grandes empreendimentos não podem ser levados a cabo com sensatez. Há que tornar-se louco e desesperado.”
Um dia, o pai do Hide, monge aficcionado do golf (o golf era então a última obsessão japonesa e um meio de promoção social) e, sobretudo, do jogo (o mahjong), levou-nos a Takeo para ver jogar pachinko. Nos salões de pachinko reina uma barulheira e uma iluminação estonteantes. No entanto, os jogadores sentam-se frente às máquinas em profunda concentração.
Estreei-me num restaurante japonês típico, onde comemos sentados sobre tatami e as refeições eram servidas em caixas finamente decoradas. Envergando um quimono, o dono do restaurante recebia os clientes, saudando-os com vénias.
Omachi é uma aldeiazinha simpática. Tudo parece de brinquedo, um conjunto de construções infantis. Casinhas frágeis e ruazinhas sempre cheias de bandeiras coloridas a publicitar os mais variados produtos (cerveja Kirin, etc.). Mas possui alguns santuários xintoístas e templos budistas, um dos quais era o templo zen onde o Hide aprendera a fazer zazen (meditação zen) antes ainda de ingressar na escola primária. Nos arredores de Omachi encontram-se imensos arrozais onde brancas garças esvoaçam. Dispersas, belíssimas moradias de madeira, algumas rematadas com tectos de colmo. De um lado, avistam-se montanhas ao longe; do outro, avista-se ao longe o mar. E, encimando tudo, o revolto céu do Japão, paleta de cor em movimento.
Quando me preparava para deixar Kyushu, fui convidada pelo Rotary Club, do qual o pai do Hide era membro, para o seu almoço mensal. Estavam presentes os 50 membros do clube – todos homens. A única mulher, além de mim, era uma senhora encarregada de preparar as mesas. Eu, claro, era a única estrangeira. Os membros do clube principiaram por cantar o hino do Rotary Club. De seguida, divulgaram os resultados das partidas de golf disputadas entre eles durante o mês anterior e recordaram os aniversários que se aproximavam. Após o almoço, fui chamada ao púlpito. De microfone à frente, houve que responder às perguntas dos presentes: onde fica Portugal? A língua nacional é o inglês? Qual é a sua opinião sobre o Japão? Podia falar-nos um pouco da história de Portugal? À despedida, o Rotary Club da aldeia de Omachi ofereceu-me uma esferográfica Mont Blanc.



















































