É meu!

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Pare com o roubo de conteúdo!

17 fevereiro, 2007


O MUNDO MARAVILHOSO DE HASEGAWA MACHIKO



Hasegawa Machiko


Toda a gente conhece os manga japoneses, mas poucos saberão qual a mais popular série de sempre no próprio Japão. Ora, é interessante verificar que tal série não partilha de muitas das características a que estamos habituados: super-poderes, cenários futuristas, samurais ou vampiros. O próprio traço não se assemelha de todo ao que produz aquelas figuras estilizadas de cabelos esvoaçantes e grandes olhos inexpressivos que povoam os livros de manga que se encontram à venda em todo o mundo. Nada de samurais resolutos, de cenários futuristas e de poderes para-normais. Temos antes uma família típica do Japão destroçado do pós-guerra, cuja heroína é uma mulher jovem e estouvada, chamada Sazae e que dá o nome à série. Provavelmente, não há nenhum japonês que não conheça “Sazae-san”, a menos que não tenha ainda idade para isso. Além do conteúdo ser inesperado para nós, ocidentais, o facto de a autora ser uma mulher, tal como a sua heroína, foi um facto inesperado para os próprios japoneses. Hoje em dia, existem muitíssimas autoras de manga mas, na primeira metade do séc. XX, a maioria das japonesas estava ainda destinada a ser filha, esposa, mãe, sogra e nada mais.
As primeiras tiras de “Sazae-san” apareceram publicadas no jornal diário “Yukan Funichi” de Fukuoka, na ilha de Kyushu, em Abril de 1946, ou seja, quase um ano após Hiroshima e Nagasaki. A autora chamava-se Machiko Hasegawa (na verdade, Hasegawa Machiko; Hasegawa é o sobrenome e Machiko o nome próprio. No Japão, tal como na China, o sobrenome surge em primeiro lugar. No entanto, costuma mudar-se essa ordem quando se escreve numa língua ocidental) e nascera a 30 de Janeiro de 1920, no mesmo ano em que, por exemplo, a nossa Amália Rodrigues. Em Portugal, porém, não surgiu ainda uma única autora de banda-desenhada digna de destaque.
Natural de Taku, distrito de Saga, na ilha de Kyushu, Machiko tinha mais duas irmãs, um pai engenheiro muito chegado às filhas e a mãe, dona de casa. Devido à morte do pai, quando Machiko tinha apenas doze anos, a família mudou-se para Tóquio. Com quinze anos, ainda aluna de liceu, começou a sua carreira de desenhadora. Aos dezasseis, tornou-se aprendiz de Suiho Tagawa (1899-1989), considerado o maior autor de B.D. anterior à Guerra e criador da série “Norakuro” (1933-35), com um cãozinho que se alistava no Exército Imperial. Mas a rapariga depressa começou a forjar o seu próprio caminho. Um dia em que caminhava pela praia com uma das irmãs, surgiu-lhe a ideia para a série que havia de torná-la rica e famosa – “Sazae-san”. Talvez por isso, os nomes das personagens sejam também os de vários frutos do mar. Por exemplo, Sazae significa rodovalho, Kazuo, nome do irmão de Sazae, significa bonito seco (uma espécie de atum, utilizado no okonomiyaki), Wakame, nome da irmãzinha, é também o de uma alga usada na confecção da sopa miso e Tarao (Tara), o filho de Sazae, partilha o nome com o bacalhau.



A jovem Hasegawa Machiko


A série começou depois a ser publicada diariamente no conhecido jornal Asahi Shinbum, desde 1949, e assim continuaria por mais 28 anos, até Fevereiro de 1974, perfazendo um total de 6 477 capítulos. Cada um destes consiste num relato curto e independente. O êxito foi instantâneo. Os japoneses do pós-guerra e das posteriores gerações identificavam-se de imediato com aquela família da classe média e com as situações cómicas mas banais que protagonizavam.
“Sazae-san” debruça-se sobre a vida quotidiana de uma vulgar família alargada (três gerações na mesma casa), os Isono. O destaque vai para a filha mais velha, Sazae, mas há ainda o pai, Namihei, a mãe Fune, o irmão Kazuo e a irmã Wakame, assim como aquele que, pouco tempo depois de criada a série, se torna seu marido, Fuguta Masuo e o filhito de ambos, Tarao.
Árvore genealógica de Sazae-san
Os Isono começam por viver em Kyushu mas mudam-se rapidamente para Tóquio. Machiko Hasegawa viveu muito tempo no bairro Setagaya, na capital, e fez com que a maioria das cenas da série também se passassem ali. Por essa razão, uma das ruas do bairro, até então chamada Naka-dori, tomou o nome de Sazae-san em 1987.


Hasegawa Machiko frente a um desenho com o rosto de Sazae

Como é comum na banda desenhada, os tempos vão passando e a sociedade mudando, mas as personagens conservam sempre a mesma idade. O conteúdo é apropriado para famílias e pouco controverso. Trata-se de um humor que não provoca gargalhadas, mas antes origina um sorriso permanente e boa disposição para o resto do dia. Aborda situações familiares a muitos de nós, como dizer uma inconveniência por não nos termos apercebido de que havia visitas presentes ou pregar partidas para se conseguir ficar com a guloseima da irmã.
Kazuo e dois amigos partiram um vidro a jogar à bola. O dono da casa dá-lhes uma tremenda reprimenda. Sazae, que assiste à cena comovida, comenta: "Meu Deus, tanta coisa por causa de um vidro partido!" Dirige-se ao homem e declara: "Quanto custa? Eu pago!" Responde o homem: "Hoje em dia um vidro destes custa 80 ienes!" (Sazae dá-lhe a nota, tremendo). Mal o homem vai para dentro de casa, desata ela a ralhar com os rapazes!

A jovem Sazae é falha de super-poderes, o seu QI é banal, fisicamente é prosaica e não prima pelo bom-gosto. Mas o leitor começa logo a render-se à sua alegria, ao seu sentido de humor, ao bom coração, modos arrapazados (por causa deles, a mãe receava que nunca viesse a arranjar marido), distracções, gaffes e, por vezes, espalhafato. A maneira estouvada como lida com as adversidades do pós-guerra (falta de alimentos, senhas de racionamento, pobreza, órfãos de guerra, mas também novas ideias e atitudes trazidas pelos ocupantes americanos) ofereceu aos japoneses de então um sentimento de conforto e ajudou-os a superá-las com um sorriso.
Uma pequena orfã de guerra pede esmola. Sazae comove-se e prepara-se para lhe dar uma moeda mas verifica que a carteira está vazia. Nesse instante, surge um velho senhor que dá uma nota à orfã. Sazae de imediato faz-lhe uma vénia, dizendo: "Muito obrigada!"

O pai de Sazae-san, como é típico dos homens japoneses, pouco faz em casa. Mas é afável e atencioso, longe do pai japonês tirânico anterior à guerra: “Há três coisas a temer na vida: os terramotos, os incêndios e os pais (plural de pai)”, era então um dito popular. Em “Sazae-san”, janta-se às seis em família, seguindo o costume tradicional. A disposição à mesa também é tradicional – no lugar de honra sentam-se os homens: o pai e o marido. Sazae e a mãe sentam-se do lado mais próximo da cozinha, porque lhes cabe a elas servir os pratos. Mas a atmosfera é descontraída e partilham todos os mesmos alimentos simples, não ficando reservados aos homens as melhores iguarias, como acontecia antes da Guerra. A tradição ditava ainda que fosse a noiva a ir viver com a família do marido. No entanto, é antes o marido de Sazae que vai viver para casa dela. A mistura do tradicional e do moderno, tão característica do Japão, também é visível através das roupas: os pais preferem quimonos, as gerações mais novas adoptam os trajes ocidentais.
Sazae vai com o pai e os irmãos ao cinema. Kazuo encontra pelo caminho um amigo e diz-lhe: "Vamos ao cinema!" Chegados lá, o pai vira-se para Sazae: "Está aqui tanta gente que é melhor darmos as mãos." "Ok", responde Sazae, e dá a mão ao pai. O pai surpreende-se: "A mim não! A Wakame!" Envergonhada, Sazae, que tem 27 anos, ouve-o prosseguir: "É tempo de começares a crescer!"

E assim prosseguiu Sazae pelos anos cinquenta e sessenta adiante, cada vez mais feminista e alegre, vestindo já calças à boca-de-sino e até mini-saia. “Sazae-san” não ajudou apenas os japoneses a suportarem as agruras da época do pós-guerra, mas ajudou-os também a promover no país uma maior igualdade entre homens e mulheres, quando o peso da mentalidade tradicional era ainda muito importante.
Uma senhora ralha com um empregadito de escritório: "Que modos para um empregado de escritório! Escandaloso!" Um homem que vai a passar dá uma bengalada na cabeça da senhora, exclamando: "Você não está a ser democrática!" Mas este homem leva também com um guarda-chuva na cabeça. É de Sazae-san, que o admoesta: "A maltratar as mulheres! E então a igualdade de direitos?"

A série conservou-se sempre tão popular que foi editada numa colecção de 68 livros, saltou para a rádio nos anos cinquenta, para o écran de cinema em nove filmes de sucesso e acabou a passar na televisão em desenhos animados desde 1966 até aos nossos dias! Machiko Hasegawa, todavia, desaprovava os desenhos animados, tendo comentado: “A série Sazae-san emitida agora na televisão difere tanto da minha Sazae-san que não tenho nada a ver com ela.” Talvez assim fosse porque os desenhos animados servem de veículo publicitário para os vários patrocinadores e recusam qualquer episódio mais satírico ou com um humor um pouco mais negro. Existem no You Tube vários vídeos de Sazae, incluindo o episódio nº 1.
Quanto à edição japonesa dos livros de “Sazae-san”, publicada pela editora Shimaisha (“Irmãs”, dirigida pela própria Machiko Hasegawa e irmãs) e pela Asahi Shinbum, já vendeu mais de 86 milhões de exemplares.
Em 1974, Hasegawa resolveu terminar a série. A forma de vida retratada na obra – comunidades agradáveis de famílias vizinhas, com costumes frugais, praticando a entre-ajuda e gozando de tranquilidade – tinha praticamente terminado no Japão da alta tecnologia, do ritmo de vida acelerado, do consumo desenfreado e das famílias nucleares. No entanto, continua a atrair o povo japonês, nostálgico dessa vida de outrora, e também os ocidentais que anseiam por entender a história do Japão do séc. XX.
Um proprietário mostra uma casa a um possível comprador, informando: "Tem gás e água. O preço é 400 000 ienes." E acrescenta, dirigindo-se para o quintal: "Partilha o poço com os vizinhos." Acontece que a vizinha é Sazae, que está nesse momento ali a lavar roupa com Tarao às costas e cantando estridentemente a canção em voga em 1947, "Tokyo Boogie Woogie". O possível comprador afasta-se: "A casa é razoável. Mas os arredores..."

A desenhadora, que nunca se casou nem teve filhos, dedicou-se depois a consolidar o êxito da sua maior obra. Em 3 de Novembro de 1985, com a irmã Mariko, abriu no seu bairro (e das suas personagens), Setagaya (a sete minutos a pé da estação de Sakurashinmachi da linha Tokyu Shin-Tamagawa do Metro), o Museu Hasegawa Machiko, onde se pode contemplar, além dos desenhos originais da série e demais trabalho da autora, a colecção privada de arte das irmãs, com obras de Chagall, entre outras.



Mapa com a localização do Museu Hasegawa Machiko, em Tóquio


Hasegawa Machiko morreu em 1992, após ter reinado durante cinquenta anos, numa sociedade onde a BD desempenha um papel de enorme relevância, representando a cultura popular e a mentalidade japonesa do pós-guerra. No ano da sua morte, foi-lhe dado um prémio, infelizmente póstumo, pelo então Primeiro-Ministro.


Hasegawa Machiko

Ao longo dos tempos, a série "Sazae-san" levantou questões e dúvidas nos seus leitores. Por isso, o professor Kenkichiro Iwamatsu, da prestigiosa Universidade Keio Gijuku e dirigente da Associação de Sazae de Tóquio, publicou um livro, em 1992, para as tentar esclarecer, chamado “69 Mistérios Escondidos em Sazae-san”. Vendeu mais de dois milhões de exemplares até hoje. “Sazae-san” é tão representativa da cultura japonesa e da vida das três décadas que se seguiram à Segunda Grande Guerra, que apenas em 1997 se aventuraram a traduzi-la para inglês, sob o título “The Wonderful World of Sazae-san”, cinco anos após a morte da autora.




No entanto, revelou ser uma leitura apaixonante também para os ocidentais, porque se trata de um bom meio para entender precisamente essa vida e cultura e um óptimo veículo para se começar a ler em japonês, visto os diálogos serem curtos e simples. Além disso, apesar das idiossincrasias da vida japonesa (o que só torna a série mais atraente), o leitor ocidental, tal como o nipónico, adere de imediato a “Sazae-san” porque encontra nela uma ressonância da vida simples do dia-a-dia - recheada de situações cómicas oferecendo muitas razões para ser feliz – vida essa que se assemelha por toda a parte.

Sazae-san

3 comentários:

Laurent disse...

Konbanwa Ryuko-san,
Un petit "coucou" du samouraï qui est en visite sur ton blog :-)
Comment vas tu depuis ces derniers jours?
Je ne connaissais pas du tout Hasegawa Machiko,j'ai appris plein de choses en allant chercher sur le net concernant la premiere femme créatrice de manga et de sa petite héroïne Sazae-san et tout ça grace à toi dômo arigatô:-)
Il va absolument falloir que je prenne des cours de Portugais afin de pouvoir lire tes billets :-)) mais bon déja que le Japonais n'est pas évident,alors pas tout à la fois ;-)
J'allais oublier,si tu veux m'écrire sans passer par mon espace perso je te donne ma boîte mail comme ça si tu veux joindre des fichiers,photos,images etc... ce sera possible,mon mail est shogunatlolo@yahoo.fr
A part ça comment vont tes cours de kyudo? je suis sur que ta détermination et ta volonté t'aides à progresser fur et à mesure de tes leçons :-)
Je te souhaite une bonne soirée et à bientôt,amicalement,sayônara.
Laurent

JG disse...

Se não fosse o meu imóvel "O Rosto da Cidade", provavelmente não teria tido conhecimento destes maravilhosos blogs. O meu conhecimento da cultura japonesa é muito deficiente. Sobretudo no que respeita a arte do século XX, talvez por dificuldade na língua. Não estou suficientemente informado.

Como tenho um blog muito visitado de arte do século XX, há uma enorme lacuna no que respeita a arte japonesa actual. Talvez possa ter aqui alguma ajuda. Agradecia imenso.

Os desenhos aqui publicados, como não têm indicação da proveniência, presumo que sejam seus. São excelentes. Vou escolher um deles, juntar-lhe um dos poemas que publica e fazer um post no meu Blog da Sabedoria. Endereça-lo-ei para Japãp Pajan. Se não se importa, claro :-)))

Quanto ao "Rosto da Cidade", está nos meus planos voltar lá um dia destes. Tenho andado preguiçoso, o que é um dos meus principais defeitos, entre outros...

Também eu gostava muito de o fazer. Contudo, pensava que ninguém o visitava e, muito menos, o apreciava. Assim já tenho um incentivo para continuar. Obrigado.

Bom fim de semana

gdec disse...

Fiz uma nova visita aos seus blogs e,mais uma vez, me espantei com a profundidade dos seus conhecimentos e com a forma certeira e despretenciosa como no-los comunica.

gdec