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21 abril, 2007

Mobo-Moga & Japonismo


A renovação artística resultante do encontro das culturas ocidental e japonesa


Os japoneses têm, como povo, uma característica bem conhecida – a capacidade de adoptar com facilidade costumes ou práticas estrangeiros. Quando os portugueses chegaram ao Japão em 1543, logo notaram a curiosidade dos japões, a sua insaciável vontade de aprender. Ficaram tão intrigados com o mosquete (as armas dos samurai eram sobretudo as espadas – katana - e os arcos e flechas) que, de imediato, quiseram experimentá-lo e fabricá-lo eles próprios, o que fizeram bastante bem. Mais tarde, a sua mestria nas áreas da tecnologia e do cinema – importações ocidentais – seria notória.
Os japoneses reconhecem esta sua característica de adoptar aquilo que consideram bom em práticas alheias e chamam-na iitoko-dori. Longe de significar que rejeitam os seus próprios costumes ou práticas, significa antes que os sabem conservar a ambos: os antigos e os novos. O facto de se estruturar por camadas, adicionando o novo sem nunca rejeitar o velho, é uma das razões que torna o Japão tão apaixonante. A sua cultura apresenta uma destreza invejável. De tal maneira assim é que se pode visitar o país experimentando apenas o antigo, pois está lá tudo – a arquitectura tradicional, a cerimónia do chá, os quimonos, as geishas, os festivais tradicionais, a arte da espada, o sumo, o xintoísmo, o budismo, o zen, etc – ou experimentando apenas o novo, em direcção ao futuro – arquitectura arrojada, tecnologia de ponta, música experimental, cidades gigantescas e ultra-modernas, etc. Futuro e passado coexistem no presente de forma quase miraculosa. Deve-se isto à capacidade de absorção conhecida como iitoko-dori – adoptar os bons aspectos do antigo e do moderno.
O que habilitou os japoneses para tal foi o seu sistema de crenças religiosas. A religião nativa do Japão, o Xintoísmo, segundo a qual as divindades podem ser encontradas em elementos da natureza – rochas, montanhas, rios, árvores – e na veneração dos antepassados, não apresenta nenhum sistema de valores absolutos, semelhante aos Mandamentos Divinos judaico-cristãos. Essa inexistência facilitava a convivência do Xintoísmo com religiões mais complexas, como o Budismo, que chegou ao Japão através da China no séc VI d.C. A princípio, o Budismo punha em causa o sistema imperial, cujo apoio principal residia precisamente no Xintoísmo. No século seguinte, porém, o príncipe Shotoku ocupou a regência e superou a contradição, declarando: “O Xintoísmo é o tronco, o Budismo é os ramos e o Confucionismo é as folhas.” Os japoneses tornaram-se aptos a reconciliar as contradições teoréticas dessas religiões e acolheram-nas às três sem problemas. A partir daí, habituaram-se a adoptar para a sua realidade aquilo que lhes parecia mais útil em práticas estrangeiras. Os valores, para os japoneses, continuaram, pois, a não ser absolutos, mas relativos e flexíveis, isto é, dependentes da situação em questão. A mesma decisão pode ser errada num determinado contexto e correcta num outro.
A característica iitoko-dori foi bem visível durante as primeiras décadas do século XX, um período pouco familiar da cultura nipónica mas nem por isso menos fascinante que a era dos xóguns e samurai ou a dinâmica do pós-guerra. A capacidade iitoku-dori estava no auge nos anos dez, vinte e trinta do século passado, quando os japoneses urbanos abraçaram fervorosamente os modelos e atitudes da cultura ocidental, por vezes ao ponto de raiarem a excentricidade. Estava a surgir então, e com poderosa energia, uma nova sensibilidade. E era a juventude quem liderava o processo, um novo tipo urbano que ficou conhecido como mobo e moga, abreviatura de modern boy e modern girl (modaan boi e modaan gaaru, segundo a pronúncia japonesa). Os mobo eram rapazes de cabelo farto que frequentavam teatros onde se exibiam peças de Ibsen, liam romances ocidentais e obras marxistas e assistiam a concertos de música clássica também ocidental. Trocavam os quimonos por fatos e os socos de madeira por sapatos de couro. As moga eram raparigas que trabalhavam fora de casa, que também trocavam os quimonos e geta (socos de madeira) por vestidos, saias e sapatos de salto alto da última moda, usavam cabelo curto – quase um pecado mortal na sociedade tradicional – e frequentavam os cafés Art Deco do famoso bairro da moda, Ginza (lê-se guindza) em Tóquio. Ambos os sexos enchiam as salas de teatro, cinema e cafés. As suas maiores aspirações eram o individualismo e a auto-expressão, algo que parecia em total contradição com o espírito japonês da submissão ao grupo e do apagamento do ego. Os mobo e moga debatiam-se entre a sua latente criatividade e a consciência de estarem interligados com o mundo exterior, tornando movediço e ambíguo este período da história do país.

Mobos:






















À esquerda, Retrato de Nishimura Isaku, autor desconhecido, 1910. À direita, Retrato do Sr. S., Nojima Yasuzo, 1921.


Mogas:

















Mogas na praia e posando com automóvel, Japão, anos 20:



Ainda hoje, o povo japonês nutre um afecto especial por esses dias brilhantes e frágeis do Taisho Chic. Taisho é o nome do curto período de 15 anos e meio entre 1912 e 1926. A atmosfera romântica e algo decadente atrai as pessoas, de tal modo que existem restaurantes e hotéis no estilo Taisho, assim como estúdios de fotografia que tiram fotografias ao estilo da arte predominante no tempo (ver http://max-max.com/photoindex.html ). Tsigoineruwaizen é um filme de 1980, dirigido por Suzuki Seijun, que retrata a época. Um filme mais recente, Haru no Yuki (Neve da Primavera), baseado no romance de Yukio Mishima, situa-se igualmente na era Taisho.

Estilo Taisho.

Kawakami Sumio, Ginza, 1929.

Shimokawa Hekoten, Ginza em mudança. Temos desenhos muito semelhantes de Stuart e Almada Negreiros. Se não fosse a mulher de quimono no segundo plano, poderiam tratar-se de uma lisboeta com o seu fadista.

A mudança não provinha apenas do exterior, como durante a precedente era Meiji (1868-1912), mas do próprio interior dos japoneses. O país industrializava-se rapidamente após a guerra russo-japonesa, a população agrícola mudava-se para as cidades e Tóquio e Osaka transformavam-se em gigantescas capitais modernas. Varriam-nas novas ideias, como o individualismo, a democracia e o proletarianismo. A arte tornou-se tecnicamente e conceptualmente experimentalista. Inúmeros artistas estabeleciam-se nas capitais ocidentais da arte, sobretudo Paris, que fervilhava então de movimentos avant-garde: construtivismo, dada, futurismo, surrealismo... Os japoneses absorviam-nos todos e transportavam-nos depois para o seu país natal, para lá da grande circulação de informação sob a forma de livros, imprensa escrita e exposições que já existia. Os resultados, em matéria de arte, foram, na sua maior parte, um tanto híbridos e algo como “déjà vu mas de olhos em bico”. No entanto, residiu aqui o germe de toda a pujança exibida hoje pelo Japão e claramente sentida no ocidente – em matéria de arquitectura moderna, design industrial, desenho gráfico, cinema, moda e, cada vez mais, música e arte em geral. A partir de 1910, pois, os artistas de vanguarda japoneses afimaram-se através do empréstimo de novos estilos importados da Europa, combinando-os de forma eclética. Mas isso sucedeu num contexto onde a arte ocidental já se estava a tornar o estilo artístico dominante.

Nakamura Tsune, Rapariga desnuda. 1914. A la Renoir...

Umehara Ryuzaburo, Monte Sakura, 1935. A la Cézanne...

Kawakami Ryoka, Caminho de Ferro, 1912. A la Van Gogh...

Sakata Kazuo, Figura Cubista, 1925. A la cubistas...

Apesar do travo de optimismo incorporado pelos mobo e pelas moga, tratou-se de um período acossado por várias calamidades e tudo menos pacífico: a Primeira Grande Guerra, o Grande Terramoto de Kanto (1923), o surgimento de movimentos de trabalhadores e sua subsequente repressão, os motins do arroz, etc. E terminaria a meio dos anos trinta, com o ressurgimento em força do militarismo e do espírito ultra-nacionalista. Tais eventos tornavam consciente o facto de que a modernidade era, também ela, vulnerável.
A arte de então ocupava-se em mostrar essa modernidade, tanto nos seus aspectos brilhantes de vida citadina, como nos seus aspectos mais angustiantes, como a pobreza de certos bairros ou das zonas rurais. Faziam-no nos estilos prevalecentes nas artes visuais: yoga, influenciada pelo modo de pintar ocidental, o óleo e a aguarela, a perspectiva e o chiaroscuro; ou nihonga, a pintura neo-tradicionalista, a tinta, reacção à moda da pintura a óleo dos finais do séc. XIX.



Sugira Hisui, Loja de Quimonos Mitsukoshi, 1914. Estilo nihonga.

Machida Ryuho, poster da cerveja Kabuto, 1924. Estilo nihonga.

Takehisa Yumeji, 1926. Estilo nihonga.


Yasui Sotaro, Retrato de mulher, 1930. Óleo sobre tela. Estilo yoga.


A arte japonesa determinava o seu território enquanto arte que englobava tanto elementos japoneses como ocidentais, com artistas de vanguarda a usarem, por exemplo, o método tradicional de pintura com tinta. Ou seja, no âmbito da arte, começava a deixar de fazer sentido colar etiquetas nacionalistas, antecipando o que sucede hoje em dia, quando se torna absurdo falar de uma arte americana, francesa ou chinesa. Nesse sentido, a capacidade iitoko-dori é um traço “moderno” avant la lettre, já que os nipónicos o apresentam desde há muitíssimos séculos atrás. Os japoneses são modernos há já longo tempo. Talvez por isso se tenham adaptado tão bem àquilo que nós, no ocidente, chamamos modernidade. Na arte produzida no Japão deste período a modernidade está bem patente, pois esta afirmou-se precisamente através da incorporação de elementos descobertos noutras culturas: relembremos as máscaras africanas de Picasso e, anteriormente, o japonismo dos impressionistas de primeira e segunda geração.
Com efeito, uns trinta anos antes da era Taisho, na Europa, os artistas impressionistas apaixonavam-se pelas estampas e artes aplicadas japonesas. À atracção pela China (a moda das chinoiseries) dos sécs. XVIII e XIX, adicionou-se a atracção pelas formas de arte japonesas. Esta atracção foi muito mais do que mero exotismo. Foi uma força que estimulou de modo indelével o desenvolvimento da arte moderna.

A 31 de Março de 1854, Comodore Perry, da Armada dos Estados Unidos, abre os portos do Japão ao mundo, após dois séculos de isolamento. Trocas comerciais, económicas e culturais puderam então recomeçar.
Com o novo acesso às importações do Japão, os artistas europeus desenvolveram um culto pelo país, bem patente nas suas obras, nas pinturas de mulheres envergando quimonos, por exemplo, e também na escrita, em romances, ópera e peças de teatro. Toulouse Lautrec coleccionava netsuke (pequenas estatuetas japonesas) e kakemono (pinturas em rolo) e Emile Zola redigia comentários sobre arte japonesa. Van Gogh escrevia a seu irmão Theo: “Num certo sentido, todo o meu trabalho está fundado na arte japonesa”.
O naturalismo, com a sua ditadura da ilusão, foi então ultrapassado pelo entendimento da pintura como uma arte que consistia sobretudo na colocação de cor sobre uma superfície plana. A fragmentação sistemática passou a representar a profundidade, em vez da tradicional perspectiva que pressupunha um único ponto de vista. A vista parcial, a vista de uma grande altura, a vista de baixo, a suspensão de figuras no vácuo ou truncadas, foram adoptadas. A composição em diagonal foi experimentada. Valorizou-se o natural, o transitório e o móvel. O decorativo substituiu o imitativo. Ao claro-escuro sucedeu a luz sem sombra. Aos formatos quadrados e rectangulares das telas foram adicionados formatos diferentes de organizar a pintura, como o dos rolos (kakemono) da pintura oriental. Tudo isto foi aprendido através da contemplação das estampas japonesas. Claro que, muitas vezes, os resultados foram "déjà vu mas de nariz comprido". Todavia, o que importa é que, com o japonismo, mudaram os conteúdos, as técnicas e os pré-conceitos da pintura ocidental. E essa mudança profunda deu-se igualmente noutras áreas: na arte dos jardins, na arquitectura e nas artes aplicadas. A influência nipónica começou no séc.XIX (Manet, Degas, Monet, Van Gogh, Gauguin, Lautrec, Klimt) mas prolongar-se-ia pelo séc. XX, com artistas como Mark Tobey ou Franz Kline, para só citar estes. Quando culturas diversas entram em contacto e, em vez de se tentarem destruir, resolvem aprender umas com as outras, o resultado é um assombroso enriquecimento mútuo!



O fascínio pelo quimono:























À esquerda, Claude Monet, Madame Monet de quimono, 1876. À direita, Rapariga dançando de quimono vermelho, Japão, 1620.


O gosto pelas cenas e gestos do quotidiano:





































Em cima, Edgar Degas, Depois do banho, 1888. Em baixo, obra de Kitagawa Utamaro.



O caso Van Gogh:










































Em cima, Van Gogh, Japonaiserie, A árvore em floração, 1886. Em baixo, Hiroshige Ando, Cerejeira em flor no jardim Kameido, 1878.









































Em cima, Van Gogh, Japonaiserie, A ponte, 1886. Em baixo, Hiroshige Ando, A Ponte Ohashi sob a chuva, 1856.





































Os pormenores da natureza. Em cima, Van Gogh, Cigarras, 1888. Em baixo, pormenor de um manual de pintura japonês, 1878.





































A linha e o ponto. Em cima, Van Gogh, Casas de Saint-Marie, 1888. Em baixo, obra de Hokkey Totoya, Japão, 1856.



Objectos truncados e ângulos oblíquos:

































Em cima, Edouard Manet, 1874. Em baixo, Suzuki Harunobu, 1765.

Novos formatos:





















À direita, Gustav Klimt, Mulher de pé em frente de flores, 1898. À esquerda, Koryusai Isora, Cena nocturna, 1770.

A composição em diagonal:








































Em cima, Eugen Kirchner, Novembro, 1896; em baixo, Hiroshige Ando, 1853.

O desenho rápido e espontâneo a tinta:























Em cima, Toulouse-Lautrec, Jane Avril, 1893; em baixo, Sendai Gibon, Daruma.

Estilização e abstracção:






















Em cima, Gustav Moreau, Sketch; em baixo, Hokusai Katsushika, 1828.



A influência da caligrafia - durante o séc. XX muitos foram os artistas que se interessaram profundamente pela arte cimeira do Japão e da China, a caligrafia. A par disso, investigaram os preceitos do budismo zen, e a zenka ( a pintura zen) chegando mesmo a viver durante algum tempo no Japão, como Mark Tobey. Alguns exemplos:






Em cima, Hans Hartung, Desenho, 1937. Em baixo, Sendai Gibon, A Lua.

Em cima, Christian Dotremond, 1971. Em baixo, texto japonês.

Em cima, Mark Tobey, Estrutura caligráfica, 1958. Em baixo, Mokuan Soto, Caligrafia, 1670.

Julien Bissier, Caligrafia, 1937.

Gerd van Dulmen, Caligrafia. Óleo sobre tela.

Bibl: The Japanese Mind, vários autores, Tuttle.

Modern Boy Modern Girl. Modernity in Japanese Art, catálogo de exposição, Art Gallery NSW.

Japonisme, Siegfried Wichmann, Thames & Hudson