AS CASAS JAPONESAS
Fusuma, shoji, tatami... A partir do século passado, o número de casas de cimento aumentou, mas um toque de madeira é algo de que os japoneses são incapazes de prescindir. A maior parte dos interiores das casas de cimento continua a ser de madeira, nem que se trate apenas de painéis de madeira.
Existem certas partes das casas tradicionais a que podemos chamar paredes, komai-kabe. Consistem em camadas de argila, por si só decorativas e revestidas de finas tábuas de madeira nos locais expostos à chuva. O bambu, que além de belo é extremamente robusto e elástico, está presente nas cercas e nos tectos e serve ainda como suporte para as paredes de argila. São também utilizados como caleiras, beirais de telhado ou canos de água, visto serem ocos por dentro. A pedra, devido aos frequentes tremores de terra, não é utilizada como material de construção, mas surge amiúde como degraus ligando o edifício e o jardim.
Pedras encaminhando-se para a sukiya (casa de chá) de Senkeien, Yokohama.
A preocupação cimeira na construção da habitação japonesa tradicional é a não delimitação rigorosa do espaço interior e exterior:

Procura-se a mais profunda inserção do edifício no espaço circundante, reduzir ao máximo a interferência na natureza. Cercazinhas leves de bambu, portas corrediças, jardins exteriores e interiores…
Cerca de bambu, pedras no caminho, telhado de colmo - a natureza portas adentro.
Os nakaniwa (jardins interiores) estendem em direcção ao exterior os espaços interiores. De modo a impedir a obstrução da luz ou do ar, nos nakaniwa não se podem plantar árvores de grande porte ou em grande número. A escolha das plantas tem de ser cuidadosa. Geralmente, incluem uma lanterna de pedra ou uma bacia de pedra cuja função não é meramente decorativa, se o estilo for puro.
Sukiya (casa de chá) do Daidokuji: shoji velando um nakaniwa (jardim interior) com lanterna e bacia de pedra.
A parte de uma construção japonesa que mais chama a atenção é, sem dúvida, o telhado, ou os múltiplos telhados. Bem característica é a convivência de vários estilos de telhado (hisashi) no mesmo edifício. Seja qual for o tipo de telhado - kiri-zuma, yose-mune, iri-moya - apresentam beirais baixos e longos, de modo a resguardar as habitações das grandes chuvadas. A possibilidade de utilizar vários telhados diferentes facilita também a adição de novas assoalhadas.

Casa camponesa no distrito de Chabu, em estilo tradicional.
A maior diferença entre as casas ocidentais e as japonesas é a concepção das divisões. No Japão dividem-se os espaços com shoji ou fusuma, não existindo fechaduras. Shoji é uma divisória de correr, com uma moldura feita de madeira lacada e coberta com janelas de papel de arroz para deixar a luz entrar, ainda que esteja fechada. Existem também as divisórias fusuma, igualmente de correr, feitas de papel muito espesso emoldurado em madeira. Assim, uma divisória shoji ou fusuma é, a um tempo, arquitectura e decoração. As fusuma, por exemplo, são decoradas com pinturas ou caligrafia.

Cada divisão pode funcionar como sala de estar, sala de jantar ou quarto de dormir. E basta remover as shoji ou fusuma para se obter uma divisão maior. A casa japonesa é, pois, multi-funcional e extremamente versátil na sua concepção.
Hoje em dia, a maior parte das casas japonesas apresenta uma mistura de quartos com chão de madeira, tatami ou carpete. No entanto, a tradição japonesa é o revestimento do chão com tatami. Tatami são esteiras feitas de uma camada inferior de palha com cerca de 5 cm de espessura, tendo a superfície coberta com uma folha de junco entrançado. Tatami é fresco no verão e ajuda a manter o calor no inverno. Cada tatami tem cerca de 1,8 metro de comprimento e 90 cm de largura. A área de um tatami chama-se jo e é o jo que se usa para falar do tamanho de uma divisão, ou seja, diz-se “O meu quarto tem 8 jo” ou “O meu quarto tem 8 esteiras (tatami)."
Fusuma à esquerda, shoji à direita e tatami no chão.
Um tokonoma é um elemento essencial da casa tradicional japonesa. Consiste numa pequena alcova decorada com um rolo de pintura e pelo menos um ornamento, como um arranjo de flores ou peça esculpida em madeira. No entanto, a pintura ou ornamento, por mais valiosos, não devem atrair o olhar de forma grosseira, quedando mergulhados nessa parte particularmente sombria de uma divisão japonesa. Precede-o um pilar de madeira, por vezes um tronco escassamente trabalhado e preservado na sua original forma sinuosa.
O tokonoma é a alcova à direita.
Junichiro Tanizaki afirmou: “De cada vez que contemplo um tokonoma, essa obra-prima do requinte, fico maravilhado por constatar até que ponto os japoneses souberam utilizar os jogos de luz e sombra. (…) Numa palavra, sem outro suporte para além de simples madeira e paredes nuas, compôs-se um espaço recatado onde os raios de luz que aí deixamos penetrar produzem, aqui e além, recantos vagamente escurecidos. (…) Experimentamos a sensação de que, nesses locais, o ar encerra uma espessura de silêncio, que uma serenidade eternamente inalterável reina nessa escuridão.”
Tokonoma da Miyokian-taian, sukiya de Sen no Rikyu (o maior mestre do chá de sempre) em Kyoto.
As janelas (mado), para além da sua dimensão propriamente utilitária – ventilação, luminosidade, vigilância do jardim exterior – têm uma enorme importância estética. Existem vários tipos de janelas, cada qual adequado a determinadas divisões ou propósitos. A tako-mado, por exemplo, só se encontra na cozinha ou nas instalações sanitárias. Seja na sala de recepção, seja na entrada, a maru-mado, a janela circular, é sobretudo visível no mais belo exemplo da arquitectura tradicional japonesa: a casa de chá – sukiya – essa “estrutura efémera, construída para abrigar um impulso poético.” (Kakuzo Okakura).
Maru-mado da sukiya do Kodaiji.
Mais uma sukiya com maru-mado.
O espírito que preside à construção da sukiya é o wabi, um conceito estético e filosófico polissémico extremamente complexo e de difícil tradução (já o abordei no primeiro post deste blogue). A beleza triste do Outono é wabi. A solidão, a desolação de uma paisagem são wabi. A simplicidade, a sobriedade, a sombra, a recusa de ostentação, é wabi. O sentimento da melancolia é wabi. Assim, o estilo sukiya revela uma profunda afeição pelos materiais naturais e pela assimetria: ”É um domicílio do assimétrico, na medida em que se consagra à adoração do imperfeito, deixando propositadamente algo inacabado para que seja completado pelo jogo da imaginação.” (Kakuzo Okakura).
A chaleira no chão.


O inconfundível estilo sukiya: a materialização do génio estético nipónico.
Portão de uma sukiya.
As linhas exteriores de uma composição sukiya (uma casa inspirada neste estilo) devem ser rectas e contínuas e as aberturas (geralmente shoji) espaçosas, de modo a unificar o espaço interior e o mundo exterior da natureza em redor. Como protecção contra o sol de verão, penduram-se nessas aberturas estores de tabuinhas de bambu fendidas ou de junco. Também podem pender dos beirais do telhado.
Urakuen-joan. Esta sukiya é um tesouro nacional do Japão.
Por baixo dos telhados, é por vezes construída uma varanda-corredor (espaços simultaneamente exteriores e interiores) com chão revestido de madeira ou bambu, para reforçar a ligação do edifício com o exterior. A sensação dos pés nus a caminhar sobre o chão de madeira no verão é inesquecível: um contacto de uma frescura e, simultaneamente, de uma verdade calorosa como só é possível experimentar na própria natureza.
Corredores-varanda no Shugaku-in, em Kyoto.
Tudo, as cores suaves, a luz moderada, deve inspirar neutralidade e sossego. No interior, não se avista uma única peça de mobiliário. O estilo sukiya é um hino ao vazio. Apenas ocuparão o espaço os seres humanos, essas figuras condenadas à transitoriedade. Esse facto realça a importância da construção e do material utilizado. “A beleza de uma divisão japonesa, produzida unicamente por um jogo sobre o grau de opacidade da sombra, dispensa quaisquer acessórios. O ocidental, vendo isso, fica surpreendido com este despojamento e julga tratar-se apenas de paredes cinzentas desprovidas de qualquer ornamento, interpretação perfeitamente legítima do seu ponto de vista, mas que prova que ele não conseguiu desvendar o enigma da sombra.(…) Para nós, essa claridade numa parede, ou antes, essa penumbra, vale por todos os ornamentos do mundo e vê-la não nos cansa nunca.” (Junichiro Tanizaki).
A cor sukiya.
O brilho, o excesso, a ordem previsível, o óbvio, a exibição, choca o espírito japonês. Sentem-se desconfortáveis nas casas ocidentais, onde reina uma claridade crua, onde há excesso de mobiliário e decoração e onde as peças de metal foram polidas à exaustão e reluzem furiosamente: “…amamos as cores e o lustro de um objecto maculado pelo uso, pela fuligem ou pelas intempéries, ou que o parece estar, e viver num edifício, ou no meio de utensílios que possuem esta qualidade, apazigua-nos curiosamente o coração e acalma-nos os nervos.” (Junichiro Tanizaki).

Bibl: Isabel Quelhas de Lima, A Casa Tradicional Japonesa, Ed. Civilização /Kakuzo Okakura, O Livro do Chá, Cotovia /Junichiro Tanizaki, Elogio da Sombra, Relógio de Água/
Fotografias: Japan: Zoom in Travel/Introducing Japan, Kodansha/Japão, O Império do Sol Nascente, Círculo de Leitores./Pictorial Encyclopedia of Japanese Culture, Gakken.

43 comentários:
GOSTO MUITO E APRENDO MUITO.
OBRIGADO PELA SUA VISITA AO MEU BLOG E TEM RAZÃO. O ESTILO PERSEGUE-ME DESDE MUITO NOVO. NA VERDADE O POEMA "OLHOS DE MAR ALTO" FOI PUBLICADO QUANDO EU TINHA 21 ANOS MAS CREIO QUE FOI FEITO ANTES DE EU COMPLETAR OS VINTE.
A MINHA TEORIA QUANTO AO ESTILO É QUE ELE DIZ MUITO MAIS RESPEITO AO ASSUNTO DO QUE À PESSOA QUE ESCREVE . INFELIZMENTE É ESSENCIALMENTE UMA TEORIA ...
SEU
GERALDES DE CARVALHO
ola...
nossa fikei encantada com seu blog... muito lindo.
não vi quase nada ainda mas já virei fã. sou tb uma amante de culturas orientais mesmo não conhecendo muito...e agora arrumei mais uma fonte de pesquisa e gostei muito da maneira que vc coloca as coias aki.
tive vontade de ter uma casa assim...
parabens pelo blog, e pode ter certeza de que essa não será a ultima vez que verá comentarios meus por aki!
Obrigada! Fico contente por gostar! Pois é, quem não gostaria de uma casa assim?
Gostei imenso do seu blog. Por favor, não deixe de visitar o clube de literatura japonesa http://bungakuuu.blogspot.com
Excelente post e excelente blog. Parabéns!
Que pena não haverem casas assim cá por Portugal...
Cumprimentos
Pedro Santos
Japão Tradicional.Com
Poxa, gostei bastante do seu site, sou estudante de arquitetura e tava procurando material para entender e projetar uma casa em estilo tradicional japonês, seu blog ajudou um bocado, Obrigada.
Fantástica descoberta, este blog!!! Voltarei para aprender mais!
gostei muito de sua matéria sobre a cultura japonesa pois sou um aficcionado pela arquitetura.
Fico frustrado por não conseguir encontrar plantas ou projetos de telhados estilo oriental!
Gostaria que, se possivel, me indicasse onde posso encontrar tal.
E-mail: a.pope_msf@hotmail.com
Caro CDF:
Pode ver no final do post sobre as casas japonesas, a indicação do livro da Isabel Quelhas de Lima. Pela maneira como escreve, presumo que é brasileiro. Não sei se o arranjará no Brasil. Eu tenho livros de arquitectura tradicional chinesa, mas comprei-os na China.
Okawa Ryuko.
Maravilhoso blog, parabéns. Não sou descendente de japoneses mas amo a Cultura Japonesa e seus preciosos detalhes.
Parabéns pelo blog. Gostei bastante do post sobre a arquitetura japonesa. Muitos dos elementos apresentados podem facilmente ser utilizados por nós ocidentais para deixar o espaço em que vivemos mais harmonioso e agradável de se viver.
Considerando as datas, tanto da ultima postagem quanto do ultimo comentário, creio que não lerás o que estou escrevendo nesse momento. Apreciei muito a forma como você escreve. Eu gosto de conversar com pessoas interessantes, apreciaria se pudesse entrar em contato caso leia meu comentário, pode fazê-lo visitando meu blog e deixando um comentário, eu com certeza irei retorná-lo.
http://nogirls.zip.net/
Gostei de tudo que vi e tirei algumas idéias para construir minha nova casa!!!
Pois já sou praticante de bonsai e agora separado irei construir minha propria casa no estilo ao qual sempre sonhei!!!
Todas as fotos seram aproveitadas,
obrigado!!!
Obrigada, wanda. A sua casa vai ficar linda!
gostei muito deste blog,pois sua praticante de uma arte macial,cuja o fundado JIGORO KANO o Judô.Onde pretendo contruir a minha casa e a academia Sol Nascente de judô no brasil com a arquitetura japonesa e esté blog me ajudou muitos ...Parabéns...gostei muito-Dhierllate Ferreira/brasil-bahia
Obrigada!Boa sorte para o seu projecto!
Ola, gostei muito do blog.. estou de mudança e gostaria de sabe se poderia me aconselhar algumas coisas para eu iniciar, vou mudar para um apartamento convencional só que gostaria de fazer i interior dele totalmente oriental, mais ainda não sei por onde começar. gostaria de algumas dicas...
Gto.
Adriano
Olá. Não sou a pessoa indicada. O melhor é procurar na net. Boa sorte!
Parabéns. Gostei muito da forma como vc coloca as informações, agregando poesia. É realmente um prazer passear pelas fotos e textos de seu blog.
Doumo arigatou, Alexandre Ronin!
Okawa Ryuko
Muito bom seu blog,se der visite o meu.http://todosanimes.blogspot.com/ voltarei pra ler mais materias.abraços.
oi, adorei conhecer um pouco + sobre culturas diferentes
+ eu gostaria de saber como podemos usar a matematica na construção de casas do oriente.
se puder me ajudar me envie por email: thayna.fr@hotmail.com
desde já agradeço.
Receio não poder ajudar.
Seu blog é lindo! Muito bem escrito, com riqueza de detalhes, fiquei encantada!
Quero fazer uma divisória na minha casa em estilo japonês, foi então que encontrei seu blog.
Um abraço!
Eliane Weber
Obrigada, Eliane!
Okawa Ryuko
olá adorei o blog..bem n e preciso eu tb dizer pela quantidade de comentários!!olha estou a pesquisar sobre arquitectura japonesa quer tradicional quer contemporânea estou à procura do fascínio imaterial q eles têm na construção do espaço através da sombra!Será q m podes ajudar?... e gostava de poder trocar umas informações se não te importares pachecosofia@hotmail.com
Obrigada! Aconselho-te a ler O Elogio da Sombra doJunichiro Tanizaki, publicado pela Relógio d'Água. Boa sorte!
Ogawa Ryuko
Esqueceste que o destaque ao telhado refere-se a "MONTANHA SAGRADA" que por sua vez esta ligada ao BUDISMO, precisamente as Stupas, que sao antigos templos budistas, tambem lugar de convivio e especie de museu, onde se guardavam reliquias sagradas.
Esqueceste que o destaque ao telhado refere-se a "MONTANHA SAGRADA" que por sua vez esta ligada ao BUDISMO, precisamente as Stupas, que sao antigos templos budistas, tambem lugar de convivio e especie de museu, onde se guardavam reliquias sagradas.
por favor...onde posso encontrar shoji e fusuma no brasil?
onde posso comprar?
Não faço a mínima ideia. Nem sequer sou brasileira, sou portuguesa.
Brigada gosteido seu blog ! e acho mt bm! deverias por mais informaçãoes no seu blog okey?
Obrigada!
Maravilhoso!!! Excelente!!!Gosto muito da cultura japonesa. E voce retrata muito bem. Saudações!!!
Obrigada, Artsandra!
Okawa Ryuko
Okawa san, ohayou gozaimasu!
Totemo ii blog desu! Dai suki desu!
Gambate, ne!
Deborah Oliveira
Okawa san, ohayou gozaimasu!
Totemo ii blog desu! Dai suki desu!
Gambate, ne!
Deborah Oliveira
Arigatou, Debora-san. Ganbarimasu.
rapaiz que site incrível que vc tem aqui, por mais estranho que pareça muito do que vc diz aqui é extremamente difícil de se encontrar...Digo isso por se tratar de uma cultura tão antiga e tanta gente que veio de lá pra cá e mesmo assim poucos sabem realmente sequer apreciar tal beleza e tal arte.
Ou se o sabem não querem compartilhar isso de uma forma abrangente...
Boa tarde! Muito obrigada pelo seu entusiástico comentário. Não sou um rapaz e também não 'vim de lá para cá'. Provavelmente refere-se aos japoneses que foram para o Brasil. Mas eu sou portuguesa! Obrigada, fico muito feliz por ter gostado e partilhar da minha adoração pela nação japonesa!
lindo post, muito informativo mesmo, ainda que um pouco ufanista (justificável pelas fontes).
"O brilho, o excesso, a ordem previsível, o óbvio, a exibição, choca o espírito japonês." - meia-verdade né, pq a cultura pop deles é uma espécie de revolta contra esse espírito zen, assim como o paganismo da nossa contra a moral cristã.
Belo blog e obrigado pelo post, me ajudou muito em um projeto de graduação (arquitetura) que estou fazendo.
Obrigada. sim, mas a cultura pop é um fenómeno recente e de influência ocidental (embora 'niponizado', como fazem sempre os japoneses). Só o tempo dirá da sua importância. Felizmente, já começaram a aparecer grupos de jovens que se organizaram para combater o espírito 'kawaii'...
Espero que tire uma boa nota no seu trabalho de arquitectura!
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